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Distribuidores compartilham estratégias de adequação à reforma tributária

Debate AA ouviu executivos da Auto Norte, Koga Koga e Universal, que avaliam também a maturidade do segmento na preparação para as novas exigências

16/10/2026

A reforma tributária brasileira entra em uma etapa decisiva em janeiro de 2027, quando a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) passará a ser efetivamente cobrada em substituição ao PIS e à Cofins. Para o setor de distribuição de autopeças, a mudança exigirá adaptações na formação de preços, no aproveitamento de créditos e na gestão financeira das empresas.

O desafio ganha proporções ainda maiores diante das particularidades desse segmento. Com operações que envolvem milhares de itens, uma extensa rede de fornecedores e clientes e atividades pulverizadas por diferentes estados, as distribuidoras precisarão conciliar a adequação de seus sistemas com a revisão de processos comerciais e operacionais, sem comprometer a competitividade dos negócios.

Esse cenário ajuda a explicar por que especialistas de grandes consultorias, como KPMG e EY, apontam a distribuição entre os elos da cadeia que chegam à reforma tributária com maior dificuldade de preparação. A avaliação, porém, não é consensual entre os profissionais que atuam no setor.

Enquanto algumas empresas reconhecem diferenças significativas no estágio de adequação, outras destacam o elevado grau de profissionalização alcançado pelo segmento e consideram que a preparação já está bastante avançada.

As divergências, entretanto, não eliminam preocupações comuns. A necessidade de recalcular margens, revisar preços, preservar créditos tributários e administrar os efeitos da transição sobre o capital de giro aparece entre os principais pontos de atenção das empresas.

Para compreender como o setor está enfrentando esses desafios, o Aftermarket Automotivo ouviu Cristiane Carla, Coordenadora da Área Fiscal da Auto Norte; Mario Cainé, Gerente-geral da Koga Koga; e Sidney Massi, Diretor Financeiro da Universal Automotive.

Nesta edição do Debate AA, eles avaliam os desafios da transição e compartilham medidas adotadas por suas empresas para se adequarem paulatinamente ao novo regime de tributos do país.

QUESTÃO AA

Especialistas de grandes consultorias apontam a distribuição como um dos segmentos que chegam à reforma tributária com menor nível de preparação. Esse diagnóstico corresponde ao que vocês observam? Em que estágio de preparação sua empresa se encontra hoje? Quais desses pontos mais preocupam sua empresa hoje e por quê?

Cristiane Carla 

Eu citaria quatro pontos como os principais desafios:

  • Sistemas e cadastro: com milhares de itens, a classificação fiscal precisa estar correta em cada código. Um erro de cadastro se repete em milhares de notas.
  • Estoque de produtos monofásicos: em 31/12/2026 vamos fazer o levantamento do estoque desses produtos, que foram comprados no regime atual e serão vendidos já com a CBS a partir de 01/01/2027. O levantamento é essencial para tratar corretamente esse estoque na transição e evitar impacto na margem.  
  • Preço e margem: boa parte das autopeças hoje está no regime monofásico de PIS/Cofins. Com a CBS, a lógica de débito e crédito muda, e isso exige revisar a formação de preço.
  • Capital de giro: o split payment, os créditos condicionados ao pagamento e a convivência com o ICMS durante a transição mudam o fluxo de caixa.

Mario Cainé 

Um ponto a que os distribuidores devem estar atentos é a questão dos cálculos das margens, porque esses novos impostos vão impactar diretamente na fórmula de cálculo das margens. Com a nova sistemática de tributação e aproveitamento de créditos ao longo da cadeia, os impostos recuperáveis deixam de compor o custo dos produtos. Isso altera a base utilizada para calcular o preço de venda. A distribuição tem que tomar mais cuidado, porque a base de cálculo para fins de cálculo do preço de venda passa a ter um impacto.

Sidney Massi 

Todos esses pontos são relevantes, mas nossa maior preocupação está na interdependência entre eles. Para uma distribuidora com grande quantidade de itens, fornecedores e clientes, uma alteração tributária não termina no cálculo do imposto. Ela afeta custo de aquisição, crédito tributário, formação de preço, margem, sistemas, contratos e capital de giro. Por isso, estamos olhando com muita atenção para as duas pontas da operação. Na compra e na fabricação uma das preocupações é a capacidade dos fornecedores de se adaptarem ao novo modelo e a preservação dos créditos tributários. O regime tributário e a regularidade fiscal dos parceiros passam a ter impacto ainda mais relevante na eficiência da cadeia. Nosso Jurídico, inclusive, está revisando contratos e cláusulas tributárias, enquanto as áreas Fiscal e de Compras acompanham a preparação dos nossos parceiros. Na venda, nossa preocupação é preservar a competitividade. Estamos realizando simulações para que eventuais mudanças tributárias sejam refletidas nos preços da forma mais eficiente possível, evitando simplesmente transferir impactos para o cliente. A premissa é buscar o menor impacto possível sobre preço e margem, considerando o efeito econômico da cadeia como um todo. Outro tema extremamente relevante é o capital de giro. A mudança da dinâmica dos tributos altera temporalmente entradas, saídas e aproveitamento de créditos e, consequentemente, pode modificar a necessidade de caixa das empresas. Por isso, já incorporamos esses efeitos às discussões e premissas do nosso Budget 2027. A Reforma, portanto, não está sendo tratada pela Universal apenas como uma mudança de impostos. Estamos tratando como uma mudança relevante no modelo econômico e operacional da distribuição.

QUESTÃO AA

A partir de janeiro de 2027, a reforma tributária entra em uma nova etapa, com a extinção de PIS e Cofins e a cobrança efetiva da CBS, além de novas exigências operacionais. Quais mudanças sua empresa já está implementando para chegar preparada para esse novo momento?

Cristiane Carla

O comitê gestor coordena frentes em cada área:

  • Fiscal / TI: adequação do ERP e dos documentos fiscais para a apuração da CBS.
  • Compras: saneamento do cadastro e alinhamento com fornecedores.
  • Pricing: simulações de preço e margem no novo modelo.
  • Financeiro: gestão de créditos, caixa e split payment.
  • Garantias e Logística: revisão dos fluxos de devolução, garantia e movimentação entre unidades.

Em conjunto com a equipe fiscal, esse Comitê Gestor repassa às equipes de cada setor as informações e os treinamentos previamente validados, garantindo que todos conheçam as mudanças previstas e compreendam seus impactos na rotina operacional. Todas essas frentes são submetidas à validação dos nossos tributaristas. Nosso objetivo é garantir que, a partir de janeiro de 2027, os clientes da Auto Norte não percebam qualquer impacto operacional decorrente da Reforma Tributária.  

Mario Cainé

Os sistemas de gestão são parametrizados para essa nova metodologia de tributação. Basicamente, o trabalho que nós teremos em janeiro vai ser mudar o parâmetro do percentual, que ainda até hoje ninguém sabe quanto vai ser porque a definição está ainda está a cargo do Congresso. Mas é isso, muda-se o parâmetro e continuamos operando normalmente. Com relação a isso, nós estamos 100% preparados.

Sidney Massi 

Nossa prioridade agora é transformar toda a preparação realizada ao longo de 2025 e 2026 em prontidão operacional para janeiro de 2027. Na frente sistêmica e fiscal, desde janeiro de 2026 já avançamos nas parametrizações dos documentos fiscais e XMLs relacionadas à CBS e ao IBS. Neste momento, o trabalho está concentrado na validação dos processos, acompanhamento das definições regulatórias e preparação dos sistemas para a nova etapa da transição. Paralelamente, estamos revisando nossa formação de preços, política de compras, contratos e critérios de avaliação de fornecedores, considerando a nova dinâmica de créditos tributários. O objetivo é incorporar a variável tributária cada vez mais às decisões comerciais e de abastecimento, e não tratá-la apenas como uma obrigação fiscal.

Também estamos projetando os efeitos sobre margem, fluxo de caixa e necessidade de capital de giro, impactos que já fazem parte das premissas do nosso Budget 2027. Depois de um período intenso de conscientização e preparação da cadeia, nosso foco passa a ser garantir que sistemas, processos, contratos, preços e planejamento financeiro estejam efetivamente preparados para a virada de 2027, reduzindo riscos operacionais e preservando a competitividade da Universal e de seus parceiros.

Fonte: Aftermarket Automotivo

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