Transição para veículos elétricos esfria à medida que demanda diminui


Montadoras reduzem investimentos enquanto consumidores dos Estados Unidos se preocupam com preços, bateria e pontos de recarga
Transição para veículos elétricos esfria à medida que demanda diminui

Por Jeanne Whalen
The Washington Post

O esforço do governo de Joe Biden para incentivar mais americanos a comprar veículos elétricos está ficando abaixo das expectativas, pois os consumidores se preocupam com os preços, a autonomia da bateria e a falta de estações de recarga.

As vendas de carros totalmente elétricos nos EUA ainda estão crescendo em ritmo acelerado – aumentaram mais de 50% em 2023 em relação a 2022 -, mas as montadoras dizem que o crescimento diminuiu nos últimos meses, o que as levou a reduzir seus planos de produção e a pausar alguns investimentos.

“Os fabricantes de automóveis passaram do otimismo para a realidade porque a aceitação do consumidor cresceu mais lentamente. Portanto, eles estão procurando desacelerar sua implementação”, disse Michelle Krebs, analista do setor da Cox Automotive. A transição para os veículos elétricos “não será linear e haverá muitos obstáculos no caminho”, acrescentou ela.

Foram vendidos 869 mil veículos totalmente elétricos nos Estados Unidos nos primeiros 10 meses do ano passado, um aumento de 56% em relação ao mesmo período de 2022, de acordo com o provedor de dados J.D. Power. Essa taxa de crescimento marcou uma desaceleração em relação aos dois anos anteriores e foi menor do que o previsto por algumas montadoras.

Carregador de carros elétricos da LG apresentado na CES, a feira de eletrônicos de Las Vegas (Foto: Frederic J. Brown/AFP)

“A narrativa de que os veículos elétricos não estão crescendo tomou conta. Eles estão crescendo”, disse o diretor financeiro da Ford, John Lawler, em outubro. “Estão apenas crescendo em um ritmo mais lento do que o esperado pelo setor e, francamente, por nós.”

O governo Biden pretende que metade de todas as vendas de veículos novos até 2030 seja de veículos com emissão zero, definidos como veículos totalmente elétricos e híbridos plug-in. Em novembro, esses modelos representavam 10,8% das vendas de veículos novos nos Estados Unidos, sendo a maior parte totalmente elétrica, de acordo com a J.D. Power.

Especialistas em veículos elétricos afirmam que ainda é possível atingir a meta da Casa Branca se os consumidores virem progresso na disponibilidade de recarga – algo que deve acontecer quando os carregadores subsidiados pelo governo federal começarem a aparecer, nos próximos meses. Mark Z. Jacobson, especialista em energia renovável e professor de engenharia da Universidade de Stanford, disse que os compradores também precisam de mais informações sobre a economia de custos da adoção da eletricidade.

“Considerando que dirigir um veículo elétrico faz com que o motorista médio economize cerca de US$ 20 mil a US$ 30 mil em 15 anos somente em combustível, acho que a única coisa que está impedindo a demanda do consumidor é a falta de informações sobre isso”, disse ele.

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O governo afirma que as vendas de veículos elétricos triplicaram desde que o presidente Biden assumiu o cargo, e aponta para uma pesquisa que mostra que 51% dos americanos entrevistados estavam considerando comprar um veículo elétrico no final do ano passado, em comparação com 38% dois anos antes. Com a ajuda de subsídios federais, o país está a caminho de adicionar 500 mil novos carregadores até 2026, segundo autoridades do governo.

“Mais americanos estão comprando veículos elétricos todos os dias – com as vendas aumentando mais rapidamente do que as de carros tradicionais movidos a gasolina -, já que a agenda Investing in America do presidente torna esses veículos mais acessíveis, ajuda os americanos a economizar dinheiro ao dirigir e torna o carregamento acessível e conveniente”, disse o porta-voz da Casa Branca, Angelo Fernandez Hernandez, em um comunicado.

No entanto, a Ford e a General Motors estão entre as montadoras que reduziram a produção de veículos elétricos e adiaram investimentos nas últimas semanas em meio ao arrefecimento das vendas.

Em outubro, a GM disse que a “desaceleração do crescimento no curto prazo” estava levando a empresa a descartar sua meta de construir 400 mil veículos elétricos até meados de 2024 e adiar o início da produção de caminhões elétricos em uma fábrica em Lake Orion, Michigan. A GM acrescentou que manterá sua fabricação flexível para produzir veículos elétricos ou movidos a gasolina, dependendo da demanda.

Mary Barra, CEO da GM, enfatizou em novembro a necessidade de uma rede de recarga mais robusta para superar as preocupações dos consumidores. Pesquisas realizadas pela J.D. Power mostraram que os motoristas estão frustrados com a falta de carregadores e com as estações frequentemente quebradas. Cerca de 1 em cada 5 tentativas de carregamento falham, e cerca de 1 em cada 3 compradores de veículos elétricos não têm acesso a carregamento doméstico, de acordo com Elizabeth Krear, especialista da J.D. Power.

Em outubro, a Ford disse que cortaria a produção do Mustang Mach-E elétrico e adiaria investimentos de US$ 12 bilhões em fábricas de baterias e outras iniciativas de veículos elétricos. A Ford também disse que dará mais ênfase à produção de veículos híbridos, chamando-os de “ponte” para o mercado de veículos totalmente elétricos.

Montadoras tentam prestar mais atenção à experiência geral do cliente que comprou carros elétricos, incluindo o momento da recarga (Foto: Alex Silva/ Estadão)

No final do ano, a Ford disse a seus fornecedores que está reduzindo pela metade seu plano de produção para 2024 da picape elétrica F-150 Lightning, para cerca de 1.600 por semana, informou a Automotive News. Um porta-voz da Ford não quis comentar a reportagem, além de dizer que a empresa “continuará a adequar a produção à demanda”.

Até mesmo a Tesla, que domina as vendas de veículos elétricos nos Estados Unidos, desacelerou seus planos de abrir uma nova fábrica no México para abastecer o mercado americano, embora tenha culpado as altas taxas de juros, e não algo específico dos veículos elétricos.

“Acho que queremos apenas ter uma noção de como está a economia global antes de darmos o pontapé inicial na fábrica do México. Estou preocupado com o ambiente de altas taxas de juros em que nos encontramos”, disse o CEO da Tesla, Elon Musk, aos investidores em outubro. “Nunca é demais enfatizar que, para a grande maioria das pessoas, comprar um carro é uma questão de pagamento mensal.”

O arrefecimento da demanda e a crescente concorrência levaram a mais cortes nos preços dos veículos elétricos, ajudando a reduzir a diferença de preços entre os veículos elétricos e os carros movidos a gasolina. O preço médio pago por um veículo elétrico novo nos EUA em novembro foi de US$ 52.345, cerca de 8,5% mais alto do que o preço médio do mercado total, de acordo com a Cox Automotive. Um ano atrás, o prêmio dos veículos elétricos era de mais de 30%.

Melhorar a rede pública de recarga, que é escassa e muitas vezes defeituosa, é vital para ampliar o mercado de carros elétricos para além dos compradores de alta renda e experientes em tecnologia, incluindo mais americanos de renda média que não estão dispostos a tolerar inconveniências apenas para se tornarem elétricos, dizem os especialistas.

Os primeiros usuários “aceitam muito bem os defeitos das novas tecnologias”, disse Nick Nigro, fundador da Atlas Public Policy, que realiza pesquisas sobre questões climáticas e tecnológicas. “As pessoas comuns não são assim. Se o carregador não funciona quando você o conecta, mesmo que o problema seja apenas ter de tentar novamente, isso não vai funcionar.”

A lei de infraestrutura bipartidária, assinada por Biden há dois anos, forneceu US$ 7,5 bilhões aos governos estaduais e locais durante cinco anos para subsidiar a construção de carregadores, uma campanha que só agora está começando a levar à abertura de novas estações de recarga.

Sam Abuelsamid, especialista em recarga da empresa de inteligência de mercado Guidehouse Insights, disse que esse tempo foi longo porque os provedores de recarga precisam passar por muitos obstáculos para construir uma estação, incluindo trabalhar com as concessionárias locais para garantir a energia, receber licenças e comprar e instalar o hardware.

“Dado o tempo necessário para implantar uma estação de recarga, não me surpreende que só estejamos recebendo as primeiras estações agora”, disse ele.

Por enquanto, a rede dos EUA depende em grande parte da Tesla. Há cerca de 35 mil portas públicas de carregamento rápido nos Estados Unidos, sendo boa parte pertencente à Tesla, de acordo com a Atlas Public Policy.

A GM, a Honda, a Hyundai e várias outras montadoras disseram que estão se unindo para expandir significativamente a rede de carregamento rápido, instalando 30 mil novos carregadores na América do Norte. As primeiras estações são esperadas para o próximo verão (do hemisfério norte).

“Acho que, durante anos, as montadoras definiram seu produto como o carro, cabendo a diferentes fornecedores atender a esses carros, abastecer esses carros”, disse Jon McNeill, membro do conselho da GM e ex-alto executivo da Tesla. “Levou tempo para que os fabricantes entendessem (…) que o produto não é apenas o carro, é a experiência. E é a experiência de carregamento também.”

Fonte: Estadão

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