Por Natasha Werneck
A Vidroforte pretende mudar a maneira como as encarroçadoras de ônibus recebem e instalam as janelas dos veículos. Desenvolveu a linha Prisma, que reúne vidro, estrutura de alumínio, sistema de abertura, articulação, travas e vedação em um único módulo, pronto para ser instalado na linha de produção. A proposta é substituir um processo que hoje envolve diferentes fornecedores e etapas internas das fabricantes de carrocerias.
Em entrevista à Agência AutoData José Maurício Toledo, CEO da Vidroforte, afirmou que a mudança atende a transformação que a empresa já identificava havia cerca de oito anos no mercado de ônibus, com as encarroçadoras assumindo cada vez mais o papel de montadoras e transferindo parte da produção para fornecedores especializados.
“As encarroçadoras de ônibus trabalhavam com a produção interna de janelas. Compravam o vidro de um fornecedor, a estrutura de alumínio do outro, puxador, articulação, borracha. Era uma cadeia que fornecia os componentes para eles montarem o sistema internamente.”
De acordo com Toledo a janela acabou ficando em segundo plano no processo de produção das carrocerias: “Nunca foi um produto muito bem resolvido. Mesmo nas principais marcas do mercado sempre surgiam problemas de ruído, de entrada de pó e de água, e havia, também, a questão de atender às normas de segurança”.

De vários fornecedores a um único módulo
Foi a partir desta percepção que a Vidroforte começou a desenvolver a solução. Representantes fizeram viagens à China, Espanha, Alemanha, Turquia e Estados Unidos para conhecer fabricantes e sistemas utilizados em outros mercados. A Espanha, segundo Toledo, é hoje uma das principais referências europeias na produção de janelas para ônibus.
A tecnologia, porém, não foi simplesmente reproduzida no Brasil. A empresa adaptou o conceito às características dos veículos produzidos no País, inclusive à elevada variedade de configurações: “Lá existia a questão de vidro duplo para controle de temperatura. São países mais frios, não é muito o nosso caso aqui”.
A solução brasileira também incorporou componentes desenvolvidos especificamente para o mercado nacional. Uma das diferenças está no sistema de vedação. Em vez de reproduzir o mecanismo encontrado nas janelas europeias a Vidroforte buscou referência em sistemas pneumáticos:
“O sistema de vedação não foi inspirado na Europa. Foi inspirado no mesmo sistema de vedação usado hoje em sistemas pneumáticos, chamados de gaxeta. O pistão pneumático veda o ar, consequentemente não passa nada de água”.
Segundo ele o mecanismo permite reduzir o esforço necessário para abrir e fechar a janela: “Temos uma vedação labial, que é muito mais eficiente. Gera menos pressão para fechamento e é muito mais leve para abrir e fechar a janela”.
Outra adaptação está no sistema de articulação. Na solução convencional a janela basculante é sustentada em dois pontos laterais. Na Prisma a empresa desenvolveu um sistema de encaixe ao longo do perfil: “De maneira efetiva diminui o desgaste das duas pontas. Se a janela tiver 500 milímetros de comprimento todo este esforço, esta vibração, é diluído nestes 500 milímetros”.
A estrutura também foi desenvolvida para reduzir a exposição do alumínio, “que fica todo na parte interna do vidro. Para a parte externa do carro somente vidro”. A mudança, segundo Toledo, ajuda tanto no desenho da janela quanto na durabilidade, especialmente em veículos que circulam em regiões litorâneas, onde a corrosão do alumínio é um problema.
Ganho de produtividade
O impacto sobre a produtividade já foi medido pela empresa em uma das encarroçadoras que avalia a solução. Segundo Toledo a fabricante estimou que a utilização do kit completo poderia acrescentar um ônibus por dia à produção. Ou seja: o ganho não está necessariamente em reduzir o preço da janela pois em cotação realizada com uma encarroçadora o componente ficou cerca de 8% mais caro do que a produção interna. Mas o ganho em produtividade pode tornar a mudança compensatória.
A operação, por outro lado, exigiu mudanças na própria Vidroforte. Com a entrega de módulos completos a empresa precisa separar diferentes componentes, montar os kits, embalar e garantir que o conjunto chegue corretamente à linha de produção.
A empresa já trabalha em projetos de RFID para controle de estoque e expedição e também em novas soluções de embalagem.
Primeiros projetos e demanda
A linha Prisma ainda está em fase inicial de homologação. A Vidroforte já exportou unidades para a Argentina, para a encarroçadora Saldivia, e mantém dois projetos em teste com encarroçadoras brasileiras, que ainda não autorizaram a divulgação dos nomes. A expectativa da empresa é concluir as primeiras homologações brasileiras nos próximos meses.
A capacidade instalada atualmente é de cerca de trezentas janelas/dia, que pode ser ampliada com novos turnos. O mercado brasileiro de ônibus, segundo a estimativa apresentada pelo executivo, demanda de quinhentas a seiscentas janelas/dia, dependendo dos modelos produzidos.
A aplicação, porém, não ficará restrita aos ônibus. A mesma tecnologia poderá ser utilizada em motorhomes e vans, incluindo veículos transformados. A meta da Vidroforte é chegar ao fim de 2027 produzindo pelo menos trezentas janelas/dia: “Para o fim de 2027 projetamos que a linha de janela represente pelo menos 40% do nosso faturamento”.
Investimentos
O desenvolvimento da Prisma fez parte de um ciclo mais amplo de investimentos da Vidroforte. A empresa aplicou R$ 9 milhões em 2025 na estrutura produtiva, incluindo melhorias em processos de impressão digital, têmpera, lapidação e corte, além da preparação necessária para a nova linha. A empresa também planeja novos investimentos para 2027, como a ampliação da capacidade de produção de para-brisas, novos produtos e automação de processos administrativos com inteligência artificial.
A Prisma também deverá ganhar novos produtos. Segundo o executivo a empresa já trabalha em conceitos de janelas de correr e teto solar que utilizarão o mesmo sistema de vedação.
A entrada no fornecimento de módulos completos também está alterando a estrutura interna da Vidroforte. A empresa criou uma área dedicada a pesquisa e desenvolvimento de produtos e passou a trabalhar mais próxima das encarroçadoras desde as fases iniciais de projetos. A área comercial também está sendo reformulada, com a contratação de executivos de vendas que terão uma atuação mais técnica e dedicada ao desenvolvimento de projetos futuros.
O plano todo também está ligado à expansão internacional. Além da Argentina a empresa já apresentou a solução a encarroçadoras do Peru e da Colômbia e pretende avançar para o México. Para 2027 a meta é levar a Prisma a outros mercados europeus: lá o executivo vê espaço principalmente pelo seu ganho de competitividade.
Fonte: AutoData
























