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Transformação da mobilidade impulsiona desenvolvimento de lubrificantes para carros híbridos e elétricos

24/02/2026

Marcelo Martini é gerente de vendas do aftermarket da FUCHS,
maior fabricante independente de lubrificantes
e produtos relacionados do mundo

Por Marcelo Martini

Embora ainda representem uma parte pequena da frota nacional, o volume de carros híbridos e elétricos vem crescendo rapidamente no Brasil, e este avanço tem se tornado um dos responsáveis por impulsionar mudanças tecnológicas para o segmento de lubrificantes automotivos.

Um levantamento recente da NeoCharge, com base em dados da Secretaria Nacional de Trânsito, mostra que, entre dezembro de 2024 e junho de 2025, a frota de veículos eletrificados no Brasil, incluindo elétricos, híbridos plug-in e híbridos convencionais, saltou de cerca de 374 mil para mais de 481 mil unidades, um crescimento de 28% em apenas seis meses.

Já de acordo com o estudo “Iniciativas e Desafios Estruturantes para Impulsionar a Mobilidade de Baixo Carbono no Brasil até 2040”, publicado pelo Instituto MBCBrasil, a frota circulante de veículos no Brasil será 44 vezes mais eletrificada em 2040, com os modelos híbridos representando 72% do total neste cenário. Já os exemplares elétricos devem alcançar 17,4 milhões de unidades, o que representará mais de 27,6% dos automóveis.

Esses dados revelam que a eletrificação não será um fenômeno restrito ao nicho de elétricos puros, mas que os híbridos, que combinam motores elétricos e a combustão, também terão participação relevante na matriz automotiva brasileira.

Infraestrutura de recarga para carros híbridos e elétricos

Apesar do crescimento dessa frota, a infraestrutura de recarga pública ainda é insuficiente para suportar essa expansão. De acordo com dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o mercado de veículos eletrificados leves no Brasil fechou 2025 com 223.912 unidades vendidas, registrando um novo recorde anual da série histórica da associação e um crescimento de 26% sobre os números de 2024.

Ainda segundo a ABVE, o Brasil possui atualmente cerca de 16.880 pontos de recarga, o que representa um eletroposto para cada 18 veículos eletrificados, aproximadamente. São Paulo segue sendo o maior mercado para este tipo de automóvel, abrigando 30,9% da frota que circula no Brasil, ou cerca de 93,5 mil veículos. Enquanto isso, a infraestrutura do estado soma 4.678 pontos de recarga, o que leva a uma relação aproximada de 20 carros por eletroposto.

Essa contradição entre o ritmo de crescimento da frota e a disponibilidade de estações de recarga pode criar gargalos na adoção plena de veículos totalmente elétricos no país, deslocando parte da demanda para os modelos híbridos, que continuam a utilizar sistemas a combustão em conjunto com a propulsão elétrica.

O papel dos lubrificantes na transição

Ao contrário da percepção comum de que a eletrificação reduziria drasticamente o uso de lubrificantes, a realidade é mais complexa, pois veículos híbridos ainda dependem de motores a combustão em diversos ciclos de operação. Nesses casos, a lubrificação correta, com produtos aprovados e recomendados, é essencial para proteção dos componentes metálicos, principalmente em situações em que o motor é acionado intermitentemente, como partidas e paradas constantes.

Além da lubrificação tradicional em motores, a evolução tecnológica dos carros híbridos e elétricos exige fluidos com características especiais, com maior fluidez para rápida formação de película protetora, resistência à oxidação e compatibilidade com materiais eletrônicos e componentes sensíveis. Em veículos totalmente elétricos, lubrificantes também desempenham funções críticas em transmissões com engrenagens de uma única marcha, atuando como fluido térmico para gerenciamento de calor em baterias e sistemas mecânicos.

Outro aspecto que tem ganhado importância nos veículos elétricos e híbridos é o conforto acústico, considerando que, em veículos com propulsão elétrica predominante, a redução de ruído é uma parte significativa da experiência de uso. Lubrificantes com formulações que contribuem para reduzir sons, vibrações e aspereza, métricas técnicas conhecidas como NVH (Noise, Vibration and Harshness), tornam-se um diferencial relevante no desempenho global dos veículos.

Tendências globais e adaptação local

A indústria global de lubrificantes já caminha para formulações com viscosidade menor e de maior fluidez, acompanhando as exigências dos motores híbridos e sistemas eletromecânicos mais complexos. Essa tendência está se espalhando por mercados mais maduros, como a Europa e o Japão, e deve, gradativamente, influenciar o mercado brasileiro conforme a frota eletrificada aumenta e os requisitos técnicos evoluem.

A transição energética no setor automotivo não elimina a necessidade de lubrificantes, mas contribui para a redefinição do escopo de aplicações deste tipo de produto e exige soluções cada vez mais sofisticadas e alinhadas às novas demandas da mobilidade. Inovação, tecnologia e compreensão aprofundada dessas novas exigências serão fundamentais para acompanhar essa evolução e garantir que os automóveis, sejam híbridos ou elétricos, continuem operando com eficiência, confiabilidade e durabilidade.

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