Por Gustavo Queiroz
A TEVX Zhongtong, joint venture entre a brasileira TEVX e a chinesa Zhongtong, anunciou sua entrada no mercado nacional de ônibus elétricos com um portfólio que vai do urbano de 7 metros ao articulado de 27 metros, todos com piso 100% baixo e autonomia superior a 310 quilômetros. A informação foi confirmada pelo CEO da empresa, Cadu Souza, durante entrevista concedida à reportagem em Santiago do Chile, na qual detalhou os planos da companhia para o Brasil, incluindo a instalação de uma fábrica no país — cujo local está 99% definido, mas ainda não pode ser revelado — e a criação de um centro de pesquisa e desenvolvimento em parceria com universidades locais.
O diferencial mais contundente da proposta, segundo Souza, é a combinação de piso baixo integral com autonomia suficiente para a operação urbana. Embora o piso baixo não seja uma novidade no mercado brasileiro, o executivo destaca que nenhum operador roda com essa configuração em São Paulo atualmente. “O segredo está no posicionamento de portas e baterias, que permite manter o piso 100% baixo inclusive nos veículos menores, de 9 e 10 metros, sem sacrificar a autonomia”, revela. A empresa realizou testes em rotas paulistanas e incorporou ajustes de suspensão para adaptar os veículos às condições locais.
Thales de Campos Araujo, gerente de Infraestrutura e Energia da TEVX Zhongtong, detalhou a diferença técnica em relação aos modelos low entry que já circulam na capital paulista. Segundo ele, os veículos atualmente em operação são híbridos: metade do ônibus tem piso baixo, mas a outra metade sobe com um degrau, o que limita a autonomia de passageiros com restrições de mobilidade. “Com um piso baixo, a pessoa entra, sai, não precisa que o motorista abaixe ou levante a rampa. Ela consegue fazer tudo sozinha com a tecnologia de rebaixamento do veículo”, explica. O resultado, segundo ele, é um ganho operacional com menor tempo de parada, além de financeiro para o operador, além de maior inclusão e satisfação dos usuários.
O trem de força dos veículos, conforme descreveu Araújo, utiliza motor elétrico central na parte traseira, com um pequeno eixo ligado ao diferencial, tecnologia conhecida como direct drive. “É bem simplificado, mas bem robusto. Funciona muito bem, com maior potência, flexibilidade e suavidade nos arranques”, afirma.
Evolução do operador
Além do produto, a TEVX Zhongtong aposta em uma mudança de paradigma na relação com os operadores. Cadu Souza enfatizou que a empresa não vende apenas um ônibus, mas um ecossistema completo que inclui solução financeira, infraestrutura de recarga, gestão de energia e digitalização. “Cada vez menos o operador precisa se preocupar com esses itens. A gente traz essa linha para ele e sempre numa linha que caiba dentro do bolso, do orçamento”, diz. Ele citou como exemplo a dificuldade de operadores que precisam investir cerca de 5 milhões de reais em carregadores e não têm esse recurso disponível no momento. A proposta da empresa é oferecer a solução técnica, financeira e a gestão do processo.
A digitalização, segundo o CEO, vai além do monitoramento de indicadores por veículo. A ideia é integrar todos os veículos Zhongtong de uma determinada região em um único aplicativo, permitindo não só o acompanhamento estatístico, mas também a manutenção preditiva. “Se estou tendo um aquecimento maior em um componente, se não estou tendo uma performance equiparada em regiões com o mesmo tipo de pavimento, consigo identificar se é uma capacitação de motorista ou um ajuste de balanceamento entre os componentes”, ilustra. O sistema também gerencia a prioridade de carregamento na garagem, a ordem de lavagem e manutenção e a escala de saída das linhas. “Você começa a fazer uma gestão de fato do transporte e vai colher benefícios em produtividade e otimização de custos”, completa.
O executivo também abordou a transformação do papel dos operadores, que deixam de ser “apenas” transportadores para se tornarem administradores de um ecossistema de mobilidade. Ele lembrou que, há alguns anos, a preocupação do operador era conhecer e operar o elétrico. “Agora ele precisa ter ferramentas em sua mão para administrar da melhor forma.”
Produção nacional
Sobre a fábrica no Brasil, Souza revelou que o contrato com a Zhongtong já prevê a instalação, diferentemente de um simples memorando de intenção. O modelo inicial será CKD ou PKD, com a possibilidade de parcerias com encarroçadores locais ou até mesmo produção 100% dentro de casa.
A ideia é construir todo um ecossistema em torno da fábrica, com transferência de tecnologia por meio de mecânicos, técnicos e engenheiros brasileiros que irão à China para capacitação, e chineses que virão ao Brasil. “Essa novidade de estarmos próximos da Cabal – representante Zhongtong no Chile – também é trazer o conhecimento deles de mais de 6 anos de operação, venda e pós-venda, para que a gente consiga evoluir rapidamente”, confirma o CEO.

O centro de pesquisa e desenvolvimento no Brasil está sendo considerado para atender não apenas o mercado nacional, mas também a América do Sul. “A Zhongtong tem várias premiações e muitas patentes, investe muito em pesquisa e desenvolvimento. A ideia é trazer as necessidades do Brasil e correlacionar com o que existe na China para criar o nosso próprio centro de desenvolvimento em parceria com universidades locais”, assegura Souza, que já iniciou aproximações com entidades de classe e instituições acadêmicas.
A empresa também pretende atuar como consultoria em processos de licitação e estruturação de projetos de mobilidade elétrica, compartilhando conhecimento com municípios e operadores.
A chegada dos primeiros veículos está prevista para o final de novembro ou início de dezembro de 2026, com a frota urbana de 9, 10, 12 e 18 metros. O portfólio completo, no entanto, pode variar de 7 a 27 metros, dependendo da demanda. A TEVX Zhongtong, em sua proposta escancarada ao mercado nacional, pretende ir além da mera comercialização de novos produtos, mas em contribuir para uma mudança estrutural na forma como o transporte público elétrico é planejado, financiado e operado no Brasil.






























