A operação da Mercedes-Benz no Brasil completa 70 anos exatamente nesta segunda-feira, 28, uma longa história que se confunde com a da própria industrialização do país. Para relembrar o início de tudo, é preciso voltar para 1956, quando foi inaugurada a primeira fábrica da montadora no Brasil, em São Bernardo do Campo (SP), onde está até hoje.
Com a presença do então presidente Juscelino Kubitschek, que tinha sido empossado também naquele ano, a instalação da unidade foi um momento que simbolizou o despertar brasileiro para a industrialização. Mas para contar a história da empresa por aqui da melhor forma, é preciso voltar ainda mais no tempo e mostrar quem foi Alfred Jurzykowski.
VEJA TAMBÉM:
– Mercedes 70 anos: gigante dos pesados também deixou marca em carros nacionais
– Mercedes 70 anos: os números que contam a história no Brasil
– Mercedes 70 anos: os caminhões que marcaram as sete décadas no país
Em visita ao Brasil, o empresário polonês enxergou uma oportunidade de expandir seus negócios no transporte urbano local ao observar a precariedade do transporte público do Rio de Janeiro (RJ) à época. Foi a partir disso que ele obteve a representação exclusiva da marca alemã no Brasil em 1949, fundando a Distribuidores Unidos do Brasil S.A., por meio da qual iniciou a importação oficial de veículos Mercedes-Benz.
Na época, foram importados chassis curtos de caminhão adaptados para servirem como base para a fabricação de ônibus. Com o sucesso das primeiras vendas, passou a defender a fabricação local de veículos e motores diesel. Ela veio em 1950, com a montagem SKD de caminhões importados da Alemanha em instalações industriais no Rio de Janeiro.
No ano seguinte, em 1951, Jurzykowski apresentou ao governo brasileiro os primeiros planos para produzir caminhões, ônibus e motores Mercedes-Benz no país. Depois, em 1954, começou a montagem de caminhões e chassis de ônibus no bairro da Mooca, na capital paulista.
O empresário tinha contrato assinado com o grupo Daimler-Benz para produzir motores no Brasil e, posteriormente caminhões. A empresa entrou nessa operação com 25% de participação na recém-criada Mercedes-Benz do Brasil S.A., pessoa jurídica que substituiu a Distribuidores Unidos.
Consolidação com engenharia local
A história da Mercedes-Benz brasileira, porém, começaria a ganhar escala de verdade a partir de 1956. Em 28 de setembro daquele ano, a empresa inaugurou oficialmente sua fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Foi ali que a marca passou a produzir em série o caminhão L 312, conhecido como “Torpedo”, e o chassi de ônibus LP 312.
A unidade se tornaria o centro da operação industrial da Mercedes-Benz no país e, ao longo das décadas seguintes, passaria a fabricar não apenas caminhões e chassis de ônibus, mas também motores, câmbios e eixos. A empresa afirma ter sido pioneira na produção do primeiro motor a diesel nacional, do primeiro caminhão e do primeiro ônibus fabricados no Brasil.
A expansão da operação veio acompanhada da criação de uma estrutura própria de engenharia. Em 1963, a Mercedes-Benz criou a área de Engenharia de Produto, seguida pela Engenharia Experimental em 1970, dedicada ao desenvolvimento de veículos, motores e componentes. A partir daí, a operação brasileira deixou de ser apenas uma base de produção e passou a ganhar capacidade própria para desenvolver produtos destinados às condições de operação do mercado local.
A década de 1980 foi marcada pela ampliação da capacidade industrial e pelo desenvolvimento de novas gerações de caminhões e ônibus. O Brasil já havia deixado de ser apenas um mercado consumidor para se transformar em uma operação relevante dentro da estrutura internacional da companhia. Um dos reflexos desse processo estava nos motores. A Mercedes-Benz alcançaria 1 milhão de propulsores produzidos no país em 1984. A partir de 1991, a fábrica passou também a produzir motores pesados.
Os anos 1990 trouxeram duas transformações importantes. De um lado, a abertura da economia brasileira aumentou a concorrência e acelerou a modernização da indústria. De outro, a Mercedes-Benz ampliou sua capacidade de desenvolvimento local. Em 1991, o Centro de Desenvolvimento Tecnológico passou a concentrar atividades de engenharia de veículos comerciais. Em 1998, a empresa lançou os primeiros motores a diesel com gerenciamento eletrônico produzidos no Brasil, mais um marco na evolução tecnológica da operação.
A década também marcou a entrada de novos produtos no mercado brasileiro. Em 1997, a Sprinter chegou ao país, criando oficialmente o segmento de veículos comerciais leves de grande porte para a marca. A linha trouxe versões de van, furgão e chassi para diferentes aplicações de transporte. Também foi nesta época que a empresa passou a importar e, depois, a produzir automóveis localmente.
A virada do século e a marca de 2 milhões
Na virada dos anos 2000, a Mercedes-Benz já tinha uma estrutura industrial muito mais ampla. A operação brasileira passou a combinar produção de caminhões e ônibus, fabricação de motores e agregados, desenvolvimento tecnológico, exportações e uma estrutura própria de pós-venda.
Em 2001, a empresa começou a exportar motores produzidos no Brasil para a Detroit Diesel, nos Estados Unidos. Em 2004, atingiu a marca de 2 milhões de motores produzidos no país e, em 2005, iniciou a produção de motores remanufaturados da linha Renov em Campinas (SP). O crescimento da operação também levou à expansão das unidades produtivas. A fábrica de Juiz de Fora (MG) passou a produzir caminhões, enquanto Campinas ganhou importância como centro de peças, serviços e remanufatura.
Um dos grandes marcos ocorreu em 2014, quando a Mercedes-Benz alcançou 2 milhões de veículos comerciais produzidos no Brasil. A marca incluía aproximadamente 1,37 milhão de caminhões e 630 mil ônibus. Naquele momento, a empresa já se apresentava como a maior fabricante de veículos comerciais da América Latina. A operação também havia se tornado uma importante plataforma de exportação. Em 2016, ao completar 60 anos no Brasil, a empresa contabilizava cerca de 432 mil caminhões e ônibus exportados para mais de 60 países.
Em 2016, além de completar seis décadas de produção local, a companhia inaugurou em Iracemápolis (SP) uma nova fábrica dedicada à produção de automóveis. A unidade recebeu investimento superior a R$ 600 milhões e começou a produzir o Classe C. Naquele mesmo ano, o GLA também passou a ser fabricado no local. Com isso, a operação brasileira passou a reunir caminhões, ônibus, vans e automóveis produzidos localmente.
Enquanto isso, São Bernardo continuava concentrando a produção de veículos comerciais e agregados. A unidade também avançava em automação e conectividade: em 2018, a empresa inaugurou uma nova linha de montagem de caminhões baseada em conceitos de Indústria 4.0, com investimento de R$ 500 milhões.
A década de 2020 trouxe uma mudança importante na estrutura industrial. Em meio à transformação do mercado, a Mercedes-Benz decidiu encerrar a produção de automóveis em Iracemápolis. A companhia afirmou que a decisão estava relacionada à otimização de sua rede global de produção e ao cenário econômico brasileiro, agravado pelos efeitos da pandemia.
A produção de veículos comerciais no Brasil, porém, permaneceu concentrada em sua estrutura tradicional. No mesmo período, a companhia avançou na digitalização das fábricas. Em 2020, inaugurou em São Bernardo uma fábrica 4.0 de chassis de ônibus, com investimento superior a R$ 100 milhões.
E chegamos aos 70 anos
Sete décadas depois do L 312 “Torpedo”, a operação brasileira é muito diferente daquela inaugurada em 1956, mas mantém São Bernardo do Campo como seu principal endereço industrial. A Mercedes-Benz chega aos 70 anos com mais de 2,5 milhões de caminhões e ônibus produzidos no Brasil, mais de 2 milhões vendidos e cerca de 560 mil veículos comerciais exportados ao longo dessa história, considerando aproximadamente o embarque de 300 mil caminhões e mais de 260 mil chassis de ônibus.
A gama também passou por dezenas de modelos e diferentes gerações de caminhões e ônibus, enquanto os motores produzidos no país evoluíram de aplicações mais simples para propulsores de até 510 cv. A dimensão da operação também aparece no quadro de funcionários. A Mercedes-Benz chegou a ter mais de 20 mil colaboradores no Brasil. Hoje, o efetivo é de aproximadamente 7,7 mil pessoas.
Fonte: Auttomotive Business




























