Artigo – Trocar Fit pelo City hatch é o maior risco que Honda já correu no Brasil


A substituição faz muito sentido do ponto de vista produtivo, mas não tanto pelo olhar do mercado (Por Leonardo Felix)
Artigo – Trocar Fit pelo City hatch é o maior risco que Honda já correu no Brasil

Honda e Toyota, as duas fabricantes japonesas mais bem estabelecidas no Brasil, são conhecidas por terem ambas uma abordagem extremamente conservadora. Suas decisões são geralmente baseadas em anos de estudos e análises, e quase sempre são tomadas com boa margem de segurança. Por isso mesmo, quase sempre acabam se mostrando certeiras.

Como se diz na gíria popular, as duas empresas não costumam dar ponto sem nó ou correr riscos desnecessários. Afinal, é justamente a confiabilidade o que marca suas operações no país e suas relações com os consumidores. 


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A Toyota, por exemplo, levou anos para ingressar na produção nacional de SUVs, mas o fez com uma margem de segurança incrível ao aproveitar o renome do Corolla. E ainda tomando o cuidado para não fazer o Corolla Cross matar o irmão sedã, pelo menos não tão rapidamente.

Já a Honda vem fazendo questão de deixar concessionários e clientes muito bem avisados de que o Civic deixará de ser nacional, sim, mas não será tirado de linha: seguirá no catálogo como importado e tudo indica que será em uma inédita configuração híbrida, que chegará junto à 11ª geração do modelo.

É por isso que a decisão, da mesma Honda, de matar abruptamente o Fit, um modelo bem estabelecido no país há bons 18 anos e três gerações, e trocá-lo pelo City hatch, causa certo espanto e se mostra deveras arriscada. A substituição faz muito sentido do ponto de vista produtivo, mas possui muitas nuances plúmbeas.

Problemas à vista

O Fit, conhecido em outros países como Jazz, é um produto global que seguirá presente em outros cantos do planeta, mas se tornou muito caro para os padrões brasileiros. Já a família da nova geração do City foi pensada desde o início para atender países emergentes, a partir de uma versão simplificada da nova plataforma de compactos da marca.

Além disso, enquanto Fit e City antigos compartilhavam base e mecânica, mas dispunham de carrocerias completamente distintas, os novos City sedã e hatch serão praticamente o mesmo carro da ponta do nariz até a coluna C. Apenas os balanços traseiros mudarão entre eles.

Não é difícil imaginar o quanto a fabricante economizará e ganhará em eficiência ao compartilhar portas laterais (as quatro), vidros, capô, faróis, grade, para-lamas dianteiros, para-choque frontal, teto, suspensões e, claro, o trem de força entre os dois modelos.

O WR-V deve herdar os compradores do Fit. E como ficará o City hatch?

Só que as características do City hatch, um carro mais baixo e largo, com aspecto esportivo, conflitam de modo substancial com aquelas que ajudaram a formar a trajetória de sucesso do Fit ao longo de quase duas décadas. Foi a posição de dirigir mais alta, a visibilidade privilegiada e a pegada familiar os aspectos que mais diferenciaram o monovolume no mercado.

Por mais que a Honda tente criar elos entre os dois modelos – por exemplo, o City hatch herdará os bancos modulares do Fit –, certamente haverá clientes que cogitariam comprar o monovolume e torcerão o nariz para um hatchback. 

Segmento de hatches está definhando no Brasil

Talvez estes prefiram o WR-V, que preserva tudo que o Fit tinha a oferecer e seguirá em linha por mais algum tempo, só que custando mais caro do que o irmão. Aí, a Honda ganharia duas vezes: usaria o WR-V para manter os consumidores potenciais do Fit e ainda ganharia outros, com um perfil de compra distintos, com o City hatch.

Só que temos outro problema: o segmento de hatches está definhando no Brasil. Tanto que a Honda será a primeira montadora de peso no mercado a apresentar um novo produto voltado a esse nicho desde a Peugeot, mais de um ano atrás, com o 208. E sabemos as grandes dificuldades que a marca francesa teve com ele nos primeiros meses.

A seu favor, os japoneses têm a excepcional reputação e uma clientela tão fiel que pode bem assimilar as qualidades do City hatch e acolhê-lo como se fosse mesmo um novo Fit. Talvez seja isso o que mais esteja sustentando essa aposta surpreendentemente arriscada de uma marca que sempre foi tão cautelosa.

Leonardo Felix é jornalista especializado na área automobilística há 10 anos. Com passagens por UOL Carros, Quatro Rodas e, agora, como editor-chefe da Mobiauto, adora analisar e apurar os movimentos das fabricantes instaladas no país para antecipar tendências e futuros lançamentos.

*Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business

Fonte: Automotive Businness

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