Por Cláudio Milan
A Andap chega aos 55 anos em um momento em que o Aftermarket Automotivo brasileiro parece ser chamado a responder a uma agenda muito mais ampla do que aquela tradicionalmente associada à distribuição de autopeças. Reforma tributária, substituição tributária, avanço tecnológico dos veículos, transformação digital, logística, marcas próprias, sucessão empresarial, representatividade institucional e direito à reparação passaram a fazer parte de uma mesma conversa.
Foi esse o tom da entrevista coletiva realizada em 15 de setembro com a imprensa especializada. Os porta-vozes foram Rodrigo Carneiro, presidente da Andap, e Alcides Acerbi Neto, presidente do Sicap, entidades que têm atuado de forma integrada na defesa dos interesses da distribuição e do comércio atacadista de autopeças.
Ao longo de mais de uma hora e meia de conversa, os dirigentes defenderam que o mercado independente de reposição precisa ampliar sua capacidade de articulação, leitura estratégica e ação coletiva. A seguir, um resumo do que foi dito durante o encontro.
A Andap completa 55 anos em 2026. Como vocês enxergam este momento para a entidade e para o aftermarket?
Rodrigo Carneiro – A Andap chega aos 55 anos em um momento muito especial. Não conseguimos comemorar os 50 anos como gostaríamos, porque foi justamente no período da pandemia, mas os 55 anos merecem uma reflexão. O mundo está em transformação, e o nosso negócio também. Deixou de ser apenas uma discussão sobre transporte ou distribuição de peças e passou a fazer parte de uma agenda maior, ligada à mobilidade, aos modelos de negócio, à tecnologia, à logística, à transformação digital e à relação globalizada entre empresas e mercados.
As montadoras também estão com seus modelos em xeque. O setor automotivo está mudando muito rapidamente, e isso exige das entidades uma nova capacidade de interpretação. Nosso papel é tentar trazer informação qualificada, provocar discussões e representar uma cadeia que é complexa, especializada e muito importante para a economia e para a mobilidade brasileira.
Como se dá hoje a atuação conjunta entre Andap e Sicap? As entidades têm papéis diferentes?
Rodrigo Carneiro – No campo conceitual, eu não separo tanto. A Andap tem uma atuação nacional, de representação da distribuição, enquanto o Sicap tem uma competência sindical, especialmente trabalhista, no Estado de São Paulo. Mas, na prática, os propósitos se somam. Representar, defender, atualizar, desenvolver competência e preparar o setor para novas demandas são responsabilidades que caminham juntas.
Alcides Acerbi Neto – O Sicap representa cerca de 12 mil empresas no Estado de São Paulo, enquanto a Andap reúne 86 associados em nível nacional. Existe uma diferença formal, especialmente porque é o sindicato que assina convenções coletivas e conduz negociações trabalhistas. Mas as discussões são integradas. Muitas vezes, o que é debatido em São Paulo serve de referência para outros estados. Da mesma forma, as experiências dos demais mercados ajudam a enriquecer nossas negociações e decisões.
Essa atuação integrada também está relacionada à criação da Aliança Aftermarket Automotivo?
Rodrigo Carneiro – Sim. A Aliança Aftermarket Automotivo nasce justamente da percepção de que a cadeia precisa se apresentar de forma mais coordenada. Não se trata de criar uma nova entidade para substituir as que já existem. Temos Andap, Sicap, Sindirepa, Sincopeças e tantas outras instituições. A Aliança tem outro propósito: reunir os elos da cadeia, do aplicador ao fabricante, em torno de pautas comuns e de uma defesa legítima dos interesses institucionais do aftermarket. Hoje, o setor precisa discutir seu papel na mobilidade, sua importância econômica e social, sua contribuição para a manutenção da frota e os desafios trazidos pelos novos modelos de veículo. Isso exige mais união e mais capacidade de articulação.
A reforma tributária foi um dos temas mais presentes na coletiva. Qual é hoje a principal preocupação do setor?
Alcides Acerbi Neto – A reforma tributária ainda tem muitos pontos em aberto. Um deles é a questão dos estoques na virada do ano e a recuperação de créditos. Parte dos créditos poderá ser recuperada em doze meses, o que já gera desencaixe de caixa. Mas existe um ponto ainda mais sensível para a nossa cadeia, que é o IPI. Em muitos casos, ele simplesmente deixa de ser recuperável e se transforma em custo. Esse tema ainda não foi equacionado. Temos levado essa preocupação para a FecomercioSP, para empresas multinacionais e para outros fóruns, porque até mesmo companhias estrangeiras têm dificuldade de explicar às suas matrizes o que acontecerá no Brasil. A reforma mexe com fluxo de caixa, custo, precificação, sistemas e relacionamento com fornecedores.
Rodrigo Carneiro – A reforma foi apresentada como uma simplificação, mas, no curto e médio prazo, tende a aumentar a complexidade. Vamos trabalhar por anos com sistemas convivendo ao mesmo tempo. O Brasil já tinha um modelo tributário extremamente difícil, com rotinas diferentes em cada estado. Agora, teremos uma transição longa, novos tributos, comitê gestor, mudanças graduais e muitas indefinições. Para as empresas, isso significa mais custo administrativo, mais necessidade de sistemas e mais pressão sobre a gestão fiscal.
Vocês defendem uma implantação mais curta da reforma?
Alcides Acerbi Neto – O ideal seria testar, validar e implantar. Se o sistema estiver funcionando, não há razão para carregar a transição até 2032. Todo ano em que a empresa começa a entender uma regra, vem uma nova mudança. Isso gera burocracia, custo e insegurança. A simplificação deveria ser mais objetiva.
Rodrigo Carneiro – Nós nunca fomos contra a reforma tributária. O setor sempre foi contra a guerra fiscal e sempre defendeu um ambiente mais equilibrado. Mas é preciso fazer melhor. O que preocupa é transformar uma promessa de simplificação em um sistema ainda mais complexo para os agentes econômicos.
A substituição tributária continua sendo uma preocupação para a distribuição?
Rodrigo Carneiro – A substituição tributária sempre foi um tema central para o setor. Houve um momento em que ela foi buscada como forma de dar mais coerência e reduzir distorções competitivas. Mas, com o tempo, em muitos estados, o interesse arrecadatório cresceu demais. São Paulo, por exemplo, chegou a níveis muito elevados de IVA em autopeças. Isso aumentou o peso sobre a cadeia e criou distorções.
Alcides Acerbi Neto – A saída de São Paulo da substituição tributária é importante porque torna o ambiente mais equilibrado. Mas cada estado tem sua realidade e seu interesse arrecadatório. Com a reforma tributária, muitos estados ainda estão olhando para a arrecadação atual, porque ela servirá de base para a distribuição futura dos recursos. Por isso, a transição ainda pode gerar muita complexidade para as empresas que operam nacionalmente.
A reforma pode alterar a capilaridade da distribuição, especialmente em estados que se desenvolveram por razões tributárias?
Rodrigo Carneiro – Acredito que a capilaridade continuará sendo necessária. O Brasil tem uma distribuição e um varejo de autopeças com presença invejável, porque somos um país continental, com problemas logísticos sérios e uma frota muito espalhada. Existem razões tributárias para a instalação de filiais em determinados estados, claro, mas existe também uma razão operacional muito forte: é preciso estar perto da frota. A informação chega hoje ao interior da Amazônia na mesma velocidade que chega à minha casa. A mercadoria, não. Ela ainda depende de estrada, barco, armazenagem, transporte e operação local. Então, a reforma pode diminuir algumas vantagens fiscais e mudar parte da lógica geográfica, mas não elimina a necessidade de presença regional.
O Right to Repair também é uma pauta estratégica. Qual é a importância desse movimento para o aftermarket brasileiro?
Rodrigo Carneiro – O Right to Repair é fundamental. E é importante lembrar que não se trata apenas do setor automotivo. É um movimento mundial em defesa do direito do consumidor de reparar aquilo que comprou, seja um automóvel, um celular, um computador ou outro bem. No automóvel, a questão ganha ainda mais relevância porque envolve segurança, mobilidade e acesso à informação técnica. A frota precisa ser reparada. E o mercado independente é quem garante assistência real a essa frota em todo o país. O consumidor final é o principal beneficiado quando há liberdade de escolha, acesso à informação, peças disponíveis e reparadores capacitados.
Quais são os riscos se esse acesso não for garantido?
Alcides Acerbi Neto – A preocupação é que os veículos estão ficando cada vez mais digitais. Hoje, você pode trocar uma peça, mas, se ela tiver um número de série que não se comunica corretamente com o chassi, a luz do painel pode continuar acesa. A peça deixa de ser apenas mecânica e passa a depender de informação, programação, validação e autorização.
Rodrigo Carneiro – Esse é o ponto. Não se pode impedir o acesso à informação. O nível de tecnologia embarcada, eletrônica e software dos veículos cresce muito rapidamente. Sem acesso, o reparador independente perde capacidade de atender, e o consumidor fica sem alternativa. Em um país que ainda perde milhares de vidas por ano em acidentes, manutenção correta também é uma questão de segurança.
Há risco de falta de peças no mercado brasileiro?
Rodrigo Carneiro – Falta pontual sempre existiu e continuará existindo, em qualquer setor. Supermercado, farmácia e restaurante também enfrentam rupturas. No aftermarket, isso é ainda mais complexo porque falamos de uma quantidade enorme de SKUs, aplicações, marcas e modelos. Mas eu não diria que o problema decorre de falta de produção ou de falta de investimento da distribuição. A distribuição brasileira continua investindo fortemente em armazenagem, tecnologia e ampliação de portfólio. O desafio é que a complexidade cresceu muito. A produção é globalizada. Uma empresa brasileira pode produzir na China, na Índia, nos Estados Unidos ou em outros mercados. Problemas geopolíticos, logísticos, matérias-primas e mudanças de frota afetam a disponibilidade.
A proliferação de marcas próprias e de portfólios ampliados pelas indústrias aumenta essa complexidade?
Alcides Acerbi Neto – Aumenta muito. O que temos visto é que algumas indústrias, historicamente especialistas em uma linha de produto, passam a oferecer itens de outras linhas, muitas vezes produzidos por terceiros. Uma empresa conhecida por suspensão começa a vender lâmpadas, por exemplo. Isso replica SKUs sem necessariamente ampliar a cobertura real. Para o distribuidor, isso significa mais espaço físico, mais cadastro, mais processamento, mais estoque e mais custo. Para o lojista, pode gerar confusão. Ele passa a ver várias marcas oferecendo o mesmo item, muitas vezes sem clareza sobre quem realmente fábrica. Isso incha o portfólio, reduz margem e aumenta a complexidade operacional.
Como lidar com essa explosão de SKUs e com a previsão de demanda?
Alcides Acerbi Neto – É cada vez mais difícil. Existem softwares tentando prever demanda com base em frota, quilometragem, aplicação, histórico de compra e outras variáveis. A inteligência artificial ajuda, mas não resolve tudo. Há distorções importantes. Um veículo pode ser emplacado em um estado e circular em outro. Uma locadora pode comprar em determinada praça por razão fiscal, mas distribuir a frota pelo país inteiro. Por isso, prever demanda exige entender a frota real, o comportamento regional, a aplicação, o histórico da própria empresa e muitas variáveis que nem sempre estão claras. A tecnologia ajuda quando acelera a leitura dessas informações, mas a decisão continua exigindo conhecimento do mercado.
A transformação digital, então, não se resume a sistemas?
Rodrigo Carneiro – Não. Transformação digital não é software nem hardware. É mudança de mindset. E isso passa também por novas gerações. Se queremos manter as entidades e as empresas vivas, precisamos formar pessoas qualificadas para representar o segmento e administrar negócios em um ambiente diferente. Temos de estimular jovens, sucessores, executivos e novas lideranças a pensar modelos de negócio, tecnologia, governança e profissionalização. Nem todo herdeiro precisa trabalhar dentro da empresa para contribuir. Ele pode participar de um conselho, apoiar decisões, ajudar na governança. Esse também é um tema de longevidade empresarial.
Esse processo também envolve maior participação feminina no setor?
Rodrigo Carneiro – Sem dúvida. A participação da mulher é parte dessa mudança de mentalidade. Temos lideranças femininas importantes surgindo e se fortalecendo no setor, em diferentes elos da cadeia. Isso não deve ser tratado apenas como discurso. É uma necessidade real de modernização, competência e renovação. O mercado precisa abrir espaço para essas novas contribuições.
Como vocês resumem o legado da Andap nesses 55 anos?
Rodrigo Carneiro – A Andap nasce de um legado de empreendedores extraordinários. Pessoas que tiveram coragem, inteligência e capacidade de trabalho para construir empresas e uma cadeia de distribuição extremamente relevante. São histórias muito ricas. O maior legado talvez seja esse: trabalhar de forma coletiva, preservar a cadeia e buscar soluções institucionais para o mercado independente. Hoje, nossa responsabilidade é antecipar visões. Ver o que está mudando no mundo, traduzir isso para o Brasil e ajudar a cadeia a se preparar. O aftermarket independente tem um papel essencial na manutenção da frota, na mobilidade e no atendimento ao consumidor final.
Há quem diga que as mudanças digitais e os novos canais podem enfraquecer elos tradicionais da cadeia. Como vocês veem essa discussão?
Rodrigo Carneiro – Essa discussão não é nova. Há décadas se fala que algum elo da cadeia vai acabar. O varejo não acabou. A distribuição não acabou. A aplicação, menos ainda. O que acontece é uma adaptação do mercado. Cada elo tem sua competência.
Alcides Acerbi Neto – O varejo tem a força do atendimento local. O distribuidor tem estoque, capilaridade, logística e capacidade de abastecimento. O fabricante tem competência industrial e tecnológica. A cadeia muda, mas não existe uma solução única que substitua todos. O que precisamos é respeitar os papéis, usar melhor a tecnologia e organizar modelos em que todos possam sobreviver e evoluir.
Qual é a principal mensagem para o aftermarket neste novo ciclo?
Rodrigo Carneiro – A principal mensagem é que não estamos mais em uma época de medir força. Precisamos usar inteligência, informação e diálogo para buscar soluções. Nosso papel é valorizar o mercado independente de reposição, defender as melhores práticas, preservar a legalidade e construir caminhos de respeito entre distribuição, varejo, aplicação e indústria. O mercado está mudando rapidamente. Veículos mais tecnológicos, reforma tributária, novas marcas, novos canais, inteligência artificial, logística e direito à reparação exigem outra postura. O desafio é iniciar novos ciclos sem abrir mão de princípios e valores.
Fonte: Aftermarket Automotivo




























