“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

32º Seminário da Reposição Automotiva destaca busca por competitividade

Representantes da indústria, da distribuição, do varejo e da reparação debateram produtividade, economia circular, eletrificação, qualificação profissional e novos modelos de negócio

09/10/2026

Reunindo lideranças da indústria, da distribuição, do varejo e da reparação, o 32º Seminário da Reposição Automotiva, colocou em pauta os principais desafios e oportunidades que moldam o futuro do setor. Os debates abordaram temas como cenário econômico, economia circular, eletrificação, digitalização, formação profissional, marcas próprias e diversidade, destacando a importância da inovação, da qualificação e da cooperação para fortalecer negócios e toda a cadeia automotiva.

No painel “Cenário Econômico”, Luiz Fernando Figueiredo apontou riscos para a atividade econômica e destacou a produtividade como caminho para o crescimento sustentável.

O economista Luiz Fernando Figueiredo, presidente do Instituto Fefig e sócio da Jubarte Capital, afirmou que os indicadores mais gerais da economia brasileira não refletem plenamente as dificuldades enfrentadas por empresas e famílias.

“Quando a gente olha a superfície, parece que o Brasil está bem, mas a prática mostra uma realidade muito diferente”, disse. Para Figueiredo, o país precisa de um modelo baseado no aumento da produtividade, em maior eficiência do Estado e em um ajuste fiscal consistente, capaz de favorecer a estabilidade do setor produtivo.

Em sua análise, o economista contrastou indicadores como inflação entre 4% e 4,5%, crescimento do PIB de 2% a 3% e contas externas robustas com o que descreveu como uma deterioração das condições microeconômicas e da percepção de bem-estar da população.

Dívida pública e contas das empresas – Figueiredo demonstrou preocupação com a trajetória da dívida pública, que, segundo os números apresentados por ele, teria avançado de 72% para 83% do PIB. O economista também destacou o crescimento das despesas públicas, estimado em 6% a 7% ao ano, e defendeu medidas para conter o avanço do endividamento.

“Nunca vi o que estamos vivendo. É uma vergonha a evolução da dívida pública”, acrescentou. Na avaliação do palestrante, sem um ajuste fiscal consistente, o país corre o risco de enfrentar estagnação ou uma crise nos próximos anos. Ele também mencionou o aumento de pedidos de recuperação judicial e o fechamento de empresas como sinais de pressão sobre o setor produtivo.

Endividamento das famílias e custo dos alimentos – O painel abordou ainda o endividamento das famílias brasileiras. De acordo com os dados citados por Figueiredo, 80% das famílias estariam endividadas, e 60% desse grupo enfrentariam dificuldades para pagar as prestações mensais.

O economista também chamou atenção para o impacto do custo dos alimentos sobre as famílias de menor renda. “Nos últimos seis anos, a cesta de consumo deles subiu, só na parte de alimentos, 60%, enquanto a inflação média foi de 40%. Ou seja, a renda está menor”, disse.

Cenário político e reformas – Ao comentar as perspectivas políticas, Figueiredo relacionou o cenário eleitoral às expectativas para a condução da política econômica. Em sua avaliação, a continuidade do atual governo poderia ampliar os riscos de crise e recessão, caso não haja compromisso com o ajuste fiscal. O economista também mencionou projeções de mercado sobre a disputa eleitoral e possíveis mudanças de governo.

Segundo ele, uma nova equipe econômica deveria iniciar a transição com um ajuste equivalente a 1,5% do PIB, com a meta de alcançar posteriormente 3%. Figueiredo defendeu ainda reformas estruturais, a simplificação regulatória e mudanças nas regras de reeleição e duração dos mandatos. Sobre a alternância no poder, destacou que sua ausência pode comprometer o funcionamento democrático.

Para o economista, o desenvolvimento sustentável depende também da redução da burocracia e da regulação excessiva, além da valorização da iniciativa privada e da produtividade. Ao concluir, defendeu um Estado menor e voltado à prestação de serviços à população. “O Estado tem que ser menor e tem que nos servir, e não o contrário”. Para Figueiredo, o aumento da produtividade é essencial para gerar riqueza, fortalecer a atividade econômica e contribuir para a redução da desigualdade social.

Circularidade e remanufatura de autopeças ganham espaço estratégico no mercado de reposição – A economia circular pode abrir novas frentes de negócio para o mercado de reposição automotiva, mas o avanço dependerá de profissionalização, confiança e regras claras. Essa foi uma das mensagens de Gerson Prado, diretor do Grupo Castrillon, durante a palestra “Circularidade e Remanufatura no Setor de Reposição”.

Com base em mais de 2 mil consultas e cruzamentos de dados, Prado apresentou estimativas sobre o tamanho do mercado e o potencial de crescimento da circularidade no Brasil. Segundo os números expostos, a frota nacional se aproxima de 49 milhões de veículos e envelhece, enquanto cerca de 2 milhões de veículos deixam de circular todos os anos. Apenas uma parcela segue para operações formais de reaproveitamento; muitos acabam como sucata ou têm destino desconhecido.

O palestrante também comparou esse volume à produção anual de veículos novos, estimada em aproximadamente 2,6 milhões, com possibilidade de chegar a 3 milhões. Na avaliação apresentada, o saldo líquido de novos veículos que passam a integrar o mercado de reposição ficaria entre 400 mil e 700 mil unidades por ano.

Prado estimou em cerca de R$ 55 bilhões o valor do mercado de reposição na saída da indústria, incluindo componentes destinados às montadoras. No balcão, após impostos e margens acumulados ao longo da cadeia, esse montante chegaria a aproximadamente R$ 122 bilhões. O mercado é dividido entre veículos leves, com cerca de 73%, e pesados, com 27%.

Reúso e remanufatura têm modelos distintos – Na apresentação, o palestrante diferenciou duas frentes da economia circular. O reúso consiste em retirar uma peça de um veículo desmontado e revendê-la para instalação em outro veículo. Já a remanufatura envolve um processo industrial que recupera o componente e agrega valor para que ele volte ao mercado. A retífica, explicou, foi deixada fora do recorte adotado no estudo por ser considerada recondicionamento, segundo norma ABNT.

A estimativa apresentada para a economia circular formal no Brasil é de aproximadamente 5,4% do mercado de reposição, com uma faixa provável entre 4,3% e 6,7%. Desse total, a remanufatura representaria cerca de R$ 2,1 bilhões na saída da fábrica, enquanto o reúso movimentaria aproximadamente R$ 1,6 bilhão no balcão. Prado ressaltou que os dados disponíveis variam entre as fontes consultadas e, por isso, devem ser tratados como estimativas.

O contraste internacional indica espaço para expansão. De acordo com os números apresentados, o aproveitamento de veículos em fim de vida chegaria a 13% no Brasil, ante 57% na Europa e 89% nos Estados Unidos. No reúso, a Europa teria um mercado cerca de duas vezes maior que o brasileiro, enquanto o norte-americano seria aproximadamente 4,5 vezes maior. Para Prado, essa diferença aponta menos para uma limitação da frota brasileira e mais para entraves institucionais e de organização do setor.

Linha pesada mostra caminho para a remanufatura – A remanufatura já tem presença mais consolidada na linha pesada. Segundo Prado, cerca de um em cada dez produtos de determinadas operações do segmento pode ser remanufaturado, enquanto na linha leve a proporção estimada é de aproximadamente dois em cada cem.

Um dos fatores que favorecem a adoção nos pesados é o custo da imobilização. Com base em conversas com frotistas, o palestrante estimou em cerca de R$ 4 mil por dia o custo de um caminhão parado. Nessa situação, a disponibilidade de um componente remanufaturado, como alternador ou câmbio, pode reduzir o tempo de inatividade e tornar a alternativa atraente para a operação.

Prado citou a atuação de montadoras e fabricantes de componentes com programas de remanufatura e destacou que a prática já faz parte da realidade da linha pesada no Brasil. Na comparação apresentada, o gasto médio anual com peças por veículo, na saída da fábrica, seria de cerca de R$ 1.120 no Brasil, R$ 1.100 na Europa e R$ 1.970 nos Estados Unidos. Já o valor de remanufatura por veículo ficaria em torno de R$ 44 no Brasil, R$ 86 na Europa e R$ 229 nos Estados Unidos, sinalizando, segundo o palestrante, uma diferença de maturidade entre os mercados.

Regulação e novos movimentos no reúso – A palestra também abordou o papel das regras públicas na estruturação desse mercado. Prado lembrou que a Europa criou normas para veículos em fim de vida em 2000, enquanto a legislação brasileira de desmonte, de 2014, teve como foco principal o combate ao roubo e à circulação ilegal de peças. Na avaliação apresentada, o país ainda precisa avançar em políticas e mecanismos que incentivem a circularidade.

Entre os movimentos recentes citados, está a expansão da Renova, operação de desmontagem ligada à Porto Seguro. Segundo Prado, a empresa anunciou, em abril de 2026, a intenção de dobrar sua capacidade anual de 5 mil para 10 mil veículos. Ele também mencionou a previsão da Cummins de que, em 2026, 50% da produção de motores parciais possa ser remanufaturada, além do início da operação de desmontagem da Stellantis em Osasco e do anúncio de uma iniciativa de remanufatura no Brasil.

O palestrante relacionou parte desses investimentos aos incentivos previstos no programa MOVER. Conforme os cálculos apresentados, o desmonte formal de um veículo por uma montadora poderia gerar entre R$ 8 mil e R$ 15 mil em créditos de IPI, dependendo das condições da operação. Prado afirmou que a unidade da Stellantis em Osasco recebeu investimento de aproximadamente R$ 13 milhões e estimou que, com o processamento de cerca de 2,3 mil veículos, o potencial de créditos poderia ficar entre R$ 65 milhões e R$ 120 milhões por ano. Os valores foram apresentados como estimativas e dependem dos critérios aplicáveis ao programa.

A formalização também implica exigências de rastreabilidade e controle. Na operação descrita, as peças devem ser identificadas e acompanhadas, e há restrições para a venda de componentes de segurança como itens de reúso. Prado observou que peças usadas podem ser oferecidas por valores de até 60% abaixo dos equivalentes novos em determinadas categorias, o que pode ampliar alternativas para o consumidor e criar novas possibilidades de atuação para distribuidores e varejistas.

Potencial de crescimento até 2030 – Para 2030, o estudo apresentado projeta que a participação da economia circular no mercado brasileiro possa avançar dos atuais 5,4% para até 9,5%, embora Prado tenha considerado mais prudente trabalhar com um teto próximo de 10%. Nesse cenário, o setor poderia movimentar entre R$ 6,6 bilhões e R$ 16 bilhões, conforme o ritmo de expansão e a entrada de novos operadores.

Segundo Prado, reúso e remanufatura não devem ser encarados apenas como concorrência para a peça nova. Para o mercado independente, podem representar oportunidades de fornecimento, distribuição, logística reversa e oferta de alternativas certificadas. A consolidação do segmento, porém, dependerá de qualidade, garantia, rastreabilidade, confiança dos reparadores e capacidade de recolher componentes usados no retorno das entregas.

Indústria da reposição debate eletrificação, formação profissional e competitividade – O Painel da Indústria reuniu representantes da indústria para discutir como acompanhar a transformação da frota, atender às novas demandas do mercado e equilibrar qualidade, sustentabilidade e rentabilidade.

A evolução da frota, com a chegada de veículos híbridos e elétricos, a ampliação da oferta de modelos e a mudança nos hábitos de consumo foram os principais temas do Painel da Indústria. O debate abordou os desafios de adaptação da cadeia e a necessidade de revisar estratégias, investimentos e posicionamento das empresas.

A conversa foi conduzida pelo jornalista Adalberto Piotto, âncora, editor-chefe da Oeste Negócios, comentarista e articulista da revista Oeste e diretor de documentários. Participaram Ana Paula Soares, diretora de Vendas e Marketing da Sabó; Bruno de Carvalho Martorelli, gerente de Vendas Aftermarket e Automotivo da Stellantis Brasil; Bruno Rodrigues, Sales Director da Frasle Mobility; e Luis Lipay, diretor comercial e de Marketing para a América Latina da KSPG Automotive.

Frota mais diversa exige adaptação – Ao abrir a discussão, Piotto destacou a importância de regras claras e de segurança jurídica para as empresas. Também lembrou que a reposição brasileira já enfrentou outras mudanças tecnológicas e desenvolveu soluções para atender às particularidades dos veículos e das condições de uso no país.

Ana Paula Soares afirmou que a capacidade de adaptação faz parte da história do setor. Com 24 anos de experiência no segmento, ela citou a chegada da injeção eletrônica e dos veículos flex como exemplos de transformações às quais a cadeia precisou responder. “O mercado de reposição se reinventa. Está acostumado a trabalhar atuando na mudança da frota, na mudança da tecnologia e nas mudanças de governo.”

Para Ana Paula, acompanhar a evolução dos veículos exige que a indústria mantenha o olhar voltado ao mercado e aos profissionais que realizam os reparos. Ela também ressaltou a importância de buscar tecnologia e eficiência para atender às novas necessidades.

Mais modelos e maior complexidade – O avanço dos veículos híbridos e elétricos deve ampliar a diversidade de aplicações e tornar mais complexa a gestão de portfólios e estoques. Bruno de Carvalho Martorelli observou que a chegada de novos modelos exige preparo de toda a cadeia, não apenas das fábricas. “A gente vai ter mais complexidade em toda a cadeia: na fábrica, nos distribuidores e também na rede.”

Segundo Martorelli, as novas tecnologias aumentam a necessidade de capacitação. A manutenção deixa de envolver apenas a substituição de componentes conhecidos e passa a exigir mais conhecimento técnico dos profissionais e das equipes comerciais que apoiam os distribuidores.

Bruno Rodrigues também chamou atenção para a velocidade de renovação da frota e para o desafio de manter os produtos certos disponíveis. Ele destacou que a indústria precisa acelerar os lançamentos e, ao mesmo tempo, ajudar os clientes a administrar a variedade de itens. “A dinâmica de lançamento vai ser cada vez mais exigida do fabricante.”

Rodrigues acrescentou que o papel da indústria não se limita a oferecer um portfólio amplo. É necessário acompanhar o que está sendo vendido e consumido para contribuir com a gestão dos estoques ao longo da cadeia.

Capacitação para atender às novas tecnologias – A formação de mecânicos foi apontada como uma das principais prioridades do setor. Luis Lipay avaliou que a mudança para veículos híbridos e elétricos representa um salto em relação a etapas anteriores, como a chegada da injeção eletrônica e dos veículos flex. “Um ponto importantíssimo é a formação da mão de obra.”

Para Lipay, empresas, entidades e diferentes elos da cadeia precisam ampliar os investimentos em capacitação, para que os profissionais estejam preparados quando essas tecnologias se tornarem mais presentes nas oficinas.

Ana Paula concordou que existe uma lacuna entre a quantidade de profissionais preparados e as necessidades do mercado. Ela citou treinamentos itinerantes e online como formas de ampliar o acesso ao conhecimento, mas observou que a atualização também depende da iniciativa dos próprios profissionais.

Martorelli mencionou ações de capacitação em feiras e programas com conteúdos técnicos curtos, que podem despertar o interesse dos mecânicos e incentivá-los a buscar aprofundamento. Para ele, a colaboração entre as empresas é essencial para que a formação alcance mais profissionais e regiões.

Peças reutilizadas e concorrência – O painel também discutiu a venda de peças reutilizadas pelas montadoras e a possibilidade de concorrência direta com o aftermarket tradicional. Os participantes consideraram que o tema merece atenção, mas destacaram a experiência do setor independente em atender diferentes perfis de veículos e consumidores.

Na avaliação de Bruno Gomes, o atendimento ao mercado deve considerar a jornada completa do mecânico, desde o diagnóstico até a busca da peça e a conclusão do serviço. Disponibilidade, tempo e suporte técnico podem ser tão importantes quanto o preço na escolha do fornecedor.

Os debatedores também observaram que a reputação da marca e a confiança na qualidade influenciam a decisão do profissional. Para Piotto, a possibilidade de encontrar serviços e informações fora das concessionárias evidencia o espaço conquistado pelas oficinas independentes e pela reposição.

Qualidade, preço e rentabilidade – Ao abordar a pressão por preços, Ana Paula defendeu que a indústria busque eficiência sem abrir mão da qualidade e da capacidade de oferecer soluções ao mercado. “Manter qualidade com melhores processos e olhando o mercado para dar solução. Esse é o caminho.”

Bruno Rodrigues ressaltou que o mecânico tende a rejeitar peças que provocam retrabalho. Na sua avaliação, qualidade e preço justo precisam caminhar juntos, já que um produto inadequado pode gerar custos adicionais para a oficina e insatisfação para o consumidor.

Luis Lipay acrescentou que a competitividade precisa ser compatível com a rentabilidade dos diversos elos da cadeia. “Sem rentabilidade, a gente não vai para frente.”

Para ele, sustentabilidade também depende da eficiência e da capacidade de manter um negócio viável para fabricantes, distribuidores, varejistas e oficinas.

Cooperação para avançar – O debate concluiu que a transformação da reposição automotiva exige capacitação, inovação, eficiência e colaboração. Com uma frota mais diversificada e tecnologicamente complexa, a indústria precisará combinar disponibilidade de peças, suporte técnico e qualidade, preservando a competitividade e a rentabilidade em toda a cadeia.

Marca própria ganha espaço na reposição automotiva com foco em qualidade, margem e garantia – O painel da Distribuição ressaltou que marcas próprias não podem competir apenas por preço: estratégia, confiança do distribuidor e valor para o reparador são essenciais para o crescimento do segmento.

O avanço das marcas próprias na reposição automotiva brasileira foi tema do painel “Distribuição em evolução: Marca Própria, competitividade e novos modelos de negócio”. Mediado por Edson Brasil, recém-anunciado CEO da Tecfil, o debate reuniu Allan Porto, da Autonorte; Antônio Barros, o Tonico, da Barros Autopeças; Milan Tomovic, da DPaschoal; e Paulo Navi, do Grupo Real.

A discussão apontou que o private label deixou de ser apenas uma alternativa de preço mais baixo. Para os distribuidores, a marca própria pode ampliar a rentabilidade, diferenciar o portfólio e fortalecer a fidelização, desde que ofereça qualidade, garantia e benefícios concretos para quem aplica e compra as peças.

Na abertura, Brasil enfatizou a capacidade de reinvenção do aftermarket brasileiro diante de desafios tributários, logísticos e relacionados à frota. Segundo dados de consultorias citados no painel, as marcas próprias já têm presença expressiva em mercados maduros: representam de 40% a 60% em determinadas categorias nos Estados Unidos e no Canadá e podem alcançar até 50% na Europa. No Brasil, ainda correspondem a cerca de 3% das operações, mas há expectativa de expansão e consolidação nos próximos anos.

Confiança e responsabilidade – Na Barros Autopeças, a marca Advance foi criada há cinco anos e representa cerca de 8% do negócio. A empresa pretende elevar essa participação para 15% até o fim de 2027. Tonico explicou que o desenvolvimento da linha começou com a seleção de produtos e fornecedores nacionais e destacou o peso da reputação do distribuidor.

“Desenvolver uma marca própria é uma responsabilidade imensa. Na Barros, a nossa linha Advance traz a assinatura ‘by Barros’, pois ali está em jogo a nossa tradição e a garantia de entrega de qualidade ao mercado”, comentou. A empresa também oferece treinamento a vendedores e mecânicos, com atenção para que a marca própria conviva com as demais linhas comercializadas.

Para Paulo Navi, do Grupo Real, a decisão de criar uma marca própria deve partir das necessidades do consumidor, e não apenas da adesão a uma tendência. Ao falar da marca MIDE, ele ressaltou a importância de avaliar cuidadosamente fornecedores, qualidade e público atendido. Também observou que, em mercados como o norte-americano, varejistas e fabricantes trabalham há décadas com marcas próprias em diferentes categorias.

Valor para o reparador – Milan Tomovic, da DPaschoal, destacou que a marca Bproauto oferece oportunidades de exclusividade, diferenciação, rentabilidade e controle do portfólio, mas exige um trabalho consistente para conquistar a confiança dos mecânicos. Para ele, a escolha não deve ser reduzida ao preço: o valor também está em evitar retrabalho.

“Se levar em consideração somente a estratégia de preço, será um fracasso”, alertou. Tomovic defendeu uma política de garantia bem definida, investimento em pós-venda e atenção à margem de contribuição, sem prejudicar as marcas tradicionais. A fidelização, segundo ele, depende de entregar uma proposta de valor clara ao reparador.

Allan Porto, da Autonorte, afirmou que a Primaparts deve complementar a oferta da empresa, e não substituir outras marcas. Ele citou como pontos essenciais para estruturar uma linha própria a precificação, a homologação e validação dos produtos, a definição do portfólio, a formação de estoque e a qualidade das informações em catálogos eletrônicos. A iniciativa também pode fortalecer o relacionamento com fornecedores.

Planejamento para crescer – Ao longo do debate, os participantes convergiram em um ponto: uma marca própria sólida depende de planejamento e rigor na seleção de produtos e parceiros. A garantia e o atendimento pós-venda são parte central da estratégia, assim como a compreensão das necessidades de varejistas, distribuidores, aplicadores e consumidores.

O painel reforçou que o crescimento do private label no mercado brasileiro não se sustentará apenas com preços competitivos. Para conquistar espaço e recorrência, as marcas precisam combinar qualidade comprovada, confiança, informação técnica e uma relação equilibrada com os demais elos da cadeia automotiva.

Tecnologia, digitalização e qualificação desafiam o mercado de reposição automotiva – O painel “Varejo & Aplicador” abordou os impactos das novas tecnologias, a integração entre canais de venda e a falta de profissionais qualificados.

A evolução tecnológica dos veículos, a digitalização dos processos de compra e a necessidade de formação técnica estiveram no centro do painel. Os participantes discutiram como esses fatores desafiam os modelos tradicionais de operação e exigem maior integração entre lojas, oficinas, distribuidores e instituições de ensino.

Na abertura, o mediador Antonio Fiola, empresário e presidente do Sindirepa-SP (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo), convocou o setor a apoiar o Right to Repair ou Direito de Reparar. Fiola ressaltou a importância de defender o acesso do mercado independente a dados de diagnóstico e informações técnicas dos veículos. Também incentivou os participantes a apoiar a votação do Projeto de Lei 5092/2019 no Senado Federal, por meio do portal público da Casa.

Varejo físico e digital: canais complementares – Ao debater o equilíbrio entre o comércio presencial e o eletrônico, os participantes concordaram que os dois canais têm funções complementares. Carlos Gomes de Moraes, o Carlinhos, diretor da Carbwel Auto Peças, observou que a internet oferece agilidade, enquanto o varejo físico se destaca pelo suporte técnico.

Segundo ele, a complexidade das peças automotivas pode aumentar a ocorrência de compras incorretas pela internet. Por isso, itens que exigem maior conhecimento técnico ainda dependem do atendimento de um balconista especializado, da disponibilidade de estoque e da pronta entrega.

O professor Scopino, sócio e responsável técnico da Scopino Auto Club, também destacou a importância da rapidez na rotina das oficinas. Como “tempo é dinheiro”, a meta é reduzir de cerca de 15 para menos de 7 minutos o tempo necessário para elaborar orçamentos, com apoio de plataformas digitais e consultas por chassi ou placa. Ainda assim, ele ressaltou que o varejo local segue essencial pelo atendimento próximo e pela agilidade na resolução de garantias.

Marcas próprias e confiança nas peças – A comercialização de marcas próprias foi outro tema debatido. Scopino manifestou preocupação com a reembalagem de produtos de diferentes padrões de qualidade, que pode elevar o risco de retrabalho. Carlinhos concordou que mecânicos e oficinas precisam de previsibilidade e segurança na escolha das peças.

“Veículos parados nos elevadores devido a falhas em peças desestabilizam a operação da oficina, reduzindo a produtividade e agravando gargalos de mão de obra e espaço físico”, contou o diretor da Carbwel.

Na discussão sobre o peso do preço na decisão de compra, os painelistas avaliaram que ele é relevante, mas não determina sozinho a escolha do cliente. Atendimento, rapidez na entrega, garantia e confiança também influenciam a decisão.

Particularidades da funilaria e da pintura – Cae Marques, diretor da Oficina Marques & Marques e do Sindirepa-SP, apresentou diferenças entre a mecânica leve e os serviços de funilaria e pintura. De acordo com ele, os atendimentos realizados por meio de seguradoras frequentemente exigem peças originais. Atrasos na entrega ou divergências nos catálogos podem prolongar o tempo de permanência dos veículos no pátio e comprometer a rentabilidade das oficinas.

Eletrificação, veículos definidos por software e formação profissional –

A qualificação da mão de obra foi abordada pelo professor Durval Pinheiro, diretor da Escola SENAI Conde José Vicente de Azevedo, no Ipiranga. Ele apresentou iniciativas de formação relacionadas à eletrificação, aos sistemas de alta tensão e aos veículos híbridos.

Durval também tratou dos veículos definidos por software (SDV, na sigla em inglês), cuja manutenção exige mais do que a substituição de componentes mecânicos: envolve diagnósticos complexos e atualizações de software.

Cae informou que sua oficina já atende cerca de 20 veículos eletrificados por mês e apontou o acesso às informações técnicas como um dos principais desafios. “O caminho tem sido o SENAI”, acrescentou. Carlinhos, por sua vez, disse que a loja comercializa produtos como filtros e cubos de roda para esses veículos e que os itens voltados aos eletrificados encontram demanda.

Os participantes foram unânimes ao apontar a falta de profissionais qualificados tanto nas lojas de autopeças quanto nas oficinas. Carlinhos defendeu iniciativas para aproximar novos trabalhadores do setor. Como exemplo, relatou que já ajudou jovens da comunidade a frequentar cursos, custeando alimentação e transporte, e que costuma contratar estagiários, efetivando aqueles que se destacam.

No encerramento, Durval reforçou a filosofia do SENAI de “aprender para ensinar” e relacionou a formação profissional ao Direito de Reparar: para que o mercado independente acompanhe as inovações da indústria automotiva, é necessário garantir acesso à informação e preparar os profissionais.

O diretor também citou um estudo realizado na Região Metropolitana de São Paulo segundo o qual a aprovação do Right to Repair poderia elevar em 30% o volume de atendimentos nas oficinas. O possível crescimento, destacou, reforça a necessidade de ampliar a formação de mão de obra qualificada.

Mulheres que transformam o aftermarket: painel destaca liderança, diversidade e oportunidades – A presença feminina no aftermarket automotivo e seu impacto nas organizações estiveram no centro do painel das Mulheres – Mulheres que transformam o Aftermarket. Mediado por Simone Azevedo, sócia e diretora comercial da Mobensani, o encontro reuniu profissionais de diferentes áreas da cadeia para conversar sobre liderança, inovação, desenvolvimento de talentos e tomada de decisão.

Participaram do painel Alfredo Bastos, diretor de Vendas e Marketing da MTE Thomson; Débora Bonadio, gerente de Marketing da DRiV; Ana Paula Cassorla, de Compras e Marketing da Pacaembu Autopeças; e Niela Marques, proprietária da Niela Reparadora.

A conversa abordou três eixos: competência e resultados, cultura e oportunidades, e os benefícios da diversidade para os negócios. Na abertura, Azevedo também apresentou a atuação da Associação Brasileira das Mulheres do Mercado Automotivo (AMMA), que promove encontros, formação e iniciativas voltadas à participação feminina no setor.

Diversidade amplia perspectivas e qualifica decisões – Para Ana Paula Cassorla, a presença de mulheres em posições estratégicas contribui para que as empresas considerem diferentes pontos de vista ao tomar decisões. “A diversidade faz parte da liderança da empresa. As decisões são tomadas de uma maneira mais completa, com mais olhares e mais condições de pensar no todo”, revelou.

Segundo ela, ampliar a participação feminina também depende de as empresas identificarem competências e criarem oportunidades para que profissionais possam se desenvolver. “Como líderes, temos que abrir portas, identificar talentos e dar oportunidades”, disse.

A importância de transformar a diversidade em participação efetiva foi ressaltada por Débora Bonadio. Para ela, políticas corporativas precisam se traduzir no cotidiano: mulheres devem estar presentes nas reuniões estratégicas e nos projetos que influenciam os resultados. “Não basta ter uma política; ela tem que ser vivenciada”, considerou. “A diversidade é você ser chamado para a festa. A inclusão, o pertencimento, é ser chamado para dançar.”

Reconhecimento se conquista também com visibilidade – À frente da Niela Reparadora, a influenciadora Niela Marques falou sobre os desafios enfrentados por mulheres na reparação automotiva. Em sua experiência, a competência técnica nem sempre é reconhecida de imediato por clientes que ainda associam o setor aos homens.

Ela contou que mostrar o trabalho nas redes sociais foi importante para apresentar sua rotina e demonstrar conhecimento. “Eu mostro o meu dia a dia, mostro o meu trabalho e ensino. Com o tempo, as pessoas percebem que eu realmente sei do que estou falando”, relatou.

Niela também destacou que a presença feminina pode contribuir para diferentes aspectos da gestão de uma oficina, da comunicação com os clientes à execução dos serviços. Em sua avaliação, ampliar essa presença exige que as empresas e o setor se disponham a buscar e formar profissionais, em vez de esperar apenas por pessoas que já chegam com experiência.

Oportunidades ajudam a formar novas lideranças – Alfredo Bastos defendeu que a diversidade de perspectivas também é uma condição para empresas que querem inovar. “Se todo mundo na empresa pensar igual, não precisa de todo mundo”, falou. Segundo ele, profissionais com experiências distintas podem trazer perguntas e soluções diferentes para os desafios do negócio.

Bastos compartilhou ainda um exemplo de desenvolvimento de uma profissional em uma função técnica. A funcionária assumiu responsabilidades, ampliou sua atuação e, segundo ele, passou a desempenhar a função melhor do que ele. “Ela está pronta”, resumiu, ao destacar a importância de reconhecer talentos e dar espaço para que cresçam.

Ao longo do debate, os participantes apontaram que a construção de novas lideranças depende tanto de oportunidades concretas quanto de reconhecimento. Isso inclui convidar profissionais para projetos relevantes, ouvi-las em decisões importantes e apoiar seu desenvolvimento, ações que podem abrir caminhos para outras mulheres no setor.

Um aftermarket mais plural e competitivo – Na rodada final, os painelistas associaram a presença de talentos diversos a ganhos para as empresas e para o futuro do aftermarket. Entre as palavras e ideias mencionadas estiveram inovação, competitividade, pertencimento, competência e força.

O principal recado do painel foi que ampliar a participação feminina não se resume a aumentar números: passa por reconhecer capacidades, garantir acesso a espaços de decisão e criar condições para que profissionais possam contribuir e avançar. Ao reunir experiências da indústria, da distribuição, do marketing e da reparação, o encontro destacou como diferentes perspectivas podem fortalecer organizações e toda a cadeia automotiva.

Anfitrião da casa participa do evento – Durante o evento, Paulo Skaf, presidente da Fiesp, ressaltou que os desafios do setor estão ligados a questões mais amplas do país e defendeu união, diálogo e uma visão voltada ao futuro. Ele citou temas como segurança jurídica e pública, educação, inovação, tecnologia, competitividade e reforma tributária, além de destacar a importância de avaliar com transparência os impactos de mudanças na jornada de trabalho. “Precisamos estar muito unidos para debater os problemas setoriais, mas também estar ligados aos problemas nacionais”, afirmou. Skaf também colocou a Fiesp e o Senai à disposição do setor e concluiu que a cooperação será essencial para enfrentar os desafios e construir um país mais próspero, com oportunidades para as próximas gerações.

Realizado no dia 6 de outubro, na sede da Fiesp, em São Paulo/SP, o evento organizado pelo Grupo Photon, contou com o apoio das entidades do setor: Sindipeças, Andap, Asdap, Anfape, Abrafiltros, AMMA, Conarem, Sicap, Sincopeças Brasil e Sindirepa Brasil, e patrocínio Master Exclusive da SAMA/LAGUNA/MATRIX, PELLEGRINO, ROLES, ORBID, REDE PITSTOP, SEMPRE PRONTO!, AUTHOMIX. Na categoria MASTER participaram FRAS-LE//NAKATA/FREMAX, KS, MAHLE, PACAEMBU, SCHAEFFLER e TAKAO. Os patrocinadores PREMIUM foram BOSCH, DELPHI, ELRING, MAANN FILTER, TECFIL e VALEO.     

Fonte: Revista Mercado Automotivo – Fotos: crédito fotógrafo Marcelo Moscardi 

Informes