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O mercado vai crescer, mas isso não significa que haverá espaço para todos

Próxima década da indústria automotiva brasileira provavelmente não será marcada apenas pelo crescimento do mercado, mas pela redistribuição desse crescimento

27/07/2026

Por Murilo Briganti, COO da Bright Consulting

E se eu dissesse que, até 2030, o mercado automotivo brasileiro deve crescer cerca de 500 mil veículos, enquanto as marcas chinesas podem adicionar mais de 700 mil unidades no mesmo período? À primeira vista, a conta parece não fechar. Mas ela revela justamente uma das principais transformações em curso no setor: o crescimento do mercado já não será suficiente para acomodar todos os competidores.

Durante muitos anos, crescer no Brasil significava, em grande parte, acompanhar a expansão da demanda. Quando o mercado avançava, diversas montadoras conseguiam aumentar seus volumes ao mesmo tempo, ainda que em ritmos diferentes. Nos próximos anos, essa lógica tende a mudar. O mercado continuará crescendo, mas esse crescimento será distribuído de forma muito desigual. Algumas empresas conseguirão ampliar seus volumes, enquanto outras perderão espaço mesmo diante de um setor maior do que o atual.

Essa é a diferença entre perder participação e perder volume. Em um mercado em expansão, uma fabricante pode reduzir sua participação e, ainda assim, vender mais veículos. É exatamente o que ainda deve acontecer com parte das marcas em 2026. O crescimento do setor ajuda a suavizar a pressão competitiva e, em alguns casos, mascara uma redistribuição de mercado que já começou.

A partir de 2027, porém, essa dinâmica muda. A expansão do mercado desacelera, enquanto a oferta de produtos, marcas e tecnologias continua aumentando. Nesse momento, o avanço dos novos competidores deixa de depender apenas da chegada de novos consumidores e passa a ocorrer, cada vez mais, por meio da substituição direta de volumes já existentes.

Isso não significa que todas as montadoras tradicionais seguirão a mesma trajetória. Algumas deverão preservar seus volumes mesmo perdendo participação. Outras poderão reagir por meio da renovação de portfólio, especialmente em SUVs, eletrificados e segmentos de maior crescimento. Haverá também fabricantes que poderão enfrentar perdas mais estruturais caso não consigam acompanhar a velocidade dessa transformação.

O mesmo vale para as novas entrantes. O crescimento não deverá ser distribuído de forma homogênea entre elas. Escala, competitividade de produto, rede de distribuição, capacidade industrial e velocidade de execução continuarão sendo fatores decisivos. Em outras palavras, a origem da montadora, por si só, não será suficiente para determinar seu sucesso.

Outro ponto importante é que essa disputa deixa de estar restrita aos veículos elétricos e híbridos. A competição passa a atingir os principais segmentos do mercado brasileiro, incluindo SUVs, hatches, sedãs e picapes, ampliando seus impactos sobre portfólios, estratégias comerciais, investimentos e planejamento industrial.

O SUV, por exemplo, deixa de ser um porto seguro. Durante anos, muitas fabricantes compensaram a retração de outros segmentos por meio do crescimento dessa categoria. Agora, justamente o segmento que sustentou boa parte da expansão do mercado torna-se um dos principais campos de disputa. Nas picapes, especialmente nas categorias de maior valor agregado, a competição também tende a se intensificar. Nos hatches, a pressão ocorre em um segmento historicamente importante para volume, capilaridade e conquista de novos consumidores.

Por isso, talvez a pergunta mais relevante não seja se as marcas chinesas irão crescer. Elas irão. A questão que realmente importa é entender de onde virá esse crescimento, quais segmentos serão mais impactados e quais empresas estarão mais preparadas para responder a esse novo ambiente competitivo.

A indústria automotiva brasileira está deixando para trás o período em que o crescimento do mercado era suficiente para impulsionar praticamente todos os participantes. O setor continuará oferecendo oportunidades relevantes, mas exigirá decisões mais rápidas, maior precisão no planejamento de produto e uma capacidade muito maior de antecipar os movimentos da concorrência.

A próxima década da indústria automotiva brasileira provavelmente não será marcada apenas pelo crescimento do mercado, mas pela redistribuição desse crescimento. Mais importante do que prever quanto o mercado venderá será compreender quem conseguirá capturar essa expansão.

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