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Aos 40 anos, Proconve mira futuro sustentável sem esquecer gargalos

Especialistas apontam necessidade de revisão e reforço na fiscalização do programa que deixou os veículos brasileiros menos poluentes

21/07/2026

Por Karen Sousa

O Proconve completa 40 anos em 2026 e passadas as quatro décadas, o programa acumula dados importantes: evitou a emissão de toneladas de CO2 na atmosfera e, também, viabilizou avanços tecnológicos então inéditos no mercado brasileiro, como catalisadores e injeção eletrônica.

O programa foi instituído em 1986 a partir da Resolução Conama nº 18, tornando o Brasil o primeiro país na América Latina a adotar um programa de controle de emissões veiculares e, assim, frear o avanço da poluição em grandes centros urbanos.

Com base em estudos de modelos europeus e americanos, o Proconve seguiu o exemplo de programas internacionais e foi estabelecido em fases, de modo que a redução das emissões fosse gradativa e proporcionasse o tempo necessário para que toda a indústria realizasse os investimentos para alcançar os objetivos planejados.

A implementação, no entanto, não foi rápida nem simples. O engenheiro mecânico Gabriel Branco, que contribuiu na criação do programa, explicou que esse processo durou por volta de dez anos, com dificuldades enfrentadas pelas montadoras, que reclamavam principalmente do desafio de implementar novas tecnologias e investimentos.

Com o Proconve vieram catalisadores e injeção eletrônica

“O programa nasceu com um caráter de exigência muito forte, mas com um sentido de responsabilidade muito grande de todos que participaram. A indústria brasileira se debruçou sobre a causa para cumprir o programa, por isso ele é considerado bom”, disse Branco.

Antes de sua criação, a estimativa dos engenheiros envolvidos em sua criação era de que a emissão média de monóxido de carbono (CO) de um automóvel era de até 54 gramas por quilômetro rodado. Hoje, após a instituição e maturidade do programa, essa emissão está por volta de 0,4 g/km por veículo.

Ao longo dos anos, o Proconve passou por diversas fases e atualizações para atender às inovações que surgiram no mercado. Dentre as tecnologias que surgiram nesse momento, uma das mais importantes a serem adotadas foi os catalisadores, que chegaram para uma redução mais ativa da emissão de poluentes.

Stephan Blumrich, diretor-adjunto Afeevas, que é a Associação dos Fabricantes de Equipamentos para Controle de Emissões Veiculares na América do Sul, disse que esses componentes auxiliam o desenvolvimento técnico da indústria automotiva.

“A implementação de sistemas de pós-tratamento [os catalisadores] e o controle deles trouxe progresso técnico para o país. E o consumo de combustível dos veículos reduziu muito em comparação com a situação antes do Proconve”, contou.

Essa redução ocorreu também por causa da implementação da injeção eletrônica, que foi capaz de substituir o carburador e passou a dosar a quantidade exata de combustível que cada motor precisa. Para Blumrich, essa tecnologia ajudou a impulsionar a indústria brasileira diante do avanço tecnológico de outros países.

“Essa melhoria da tecnologia aplicada, melhoria dos produtos, a modernização, e implementação de novas tecnologias, não só para controle de emissões, trouxe um produto bem mais competitivo”, disse.

Proconve atraiu empresas para o país

Os benefícios dessa tecnologia foram além da diminuição de poluição no ar. Com mais desenvolvimento, fábricas e montadoras foram motivadas a investir no país e fazer do Brasil o ponto de partida para o crescimento na América do Sul.

“Foi uma grande modernização, veio muita indústria nova, por exemplo a indústria de catalisadores, vieram empresas multinacionais para a América do Sul, instalando suas fábricas aqui na região, gerando emprego, trazendo faturamento”, contou.

Para Everton Lopes, vice-presidente da AEA, que é a Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, o Proconve marcou uma série de evoluções que trouxeram fabricantes e fornecedores para o país.

“Essa legislação deixou de ser apenas uma exigência legal e passou a ser um dos principais motores do desenvolvimento dos veículos no país. Foi um direcionador importante para a evolução tecnológica dos veículos”, completou.

Com o Brasil no mapa mundial das montadoras, os investimentos em tecnologias mais sustentáveis elevaram o nível da engenharia nacional.

“Quando nós olhamos as montadoras e os sistemistas, todos eles investiram em laboratórios de emissões, investiram em competência de calibração dos motores, de modelagem computacional, por exemplo. Isso ajudou bastante e, para mim, como resultado disso, os engenheiros brasileiros passaram a entrar em projetos que são mais alinhados aos padrões globais de emissões ”, explicou.

Proconve deve evoluir ainda mais

Como um programa que acompanha o desenvolvimento, Everton acredita que o Proconve tem espaço para evoluir ainda mais, especialmente em assuntos que vão além da eletrificação e da descarbonização, alcançando padrões internacionais.

“Ele é importante porque ele continua transformando a indústria e, sobretudo, ajudando a gente a alcançar níveis de competência, níveis de tecnologia no nosso país, que são similares aos níveis europeus ou de países que têm uma legislação mais avançada”.

Hoje, as últimas fases previstas no programa para cada uma das categorias são a MAR-1, para máquinas agrícolas e rodoviárias, que teve início em 1º de janeiro de 2015; L-7, voltada para veículos leves e P-8 para veículos pesados, ambas com início em 1º de janeiro de 2022.

Programa ainda precisa de melhorias

Apesar dos avanços econômicos e ambientais que o Proconve trouxe para o país, ainda há um caminho de melhorias a ser seguido. De acordo com Stephan Blumrich, é inegável que o programa contribui para a melhoria da qualidade do ar em todo o Brasil, mas ainda fica muito atrás se comparado com outros países.

“O Brasil está um pouco atrasado nessa área. E o próximo grupo [a ser estudado] são os geradores. Nós temos muitas usinas térmicas que têm motores a diesel ligados para gerar energia elétrica quando não tem água o suficiente, quando não tem energia renovável suficiente, eles poluem enormemente”, disse.

Uma fiscalização mais precisa é um dos pontos a serem melhorados, de acordo com o diretor-adjunto da Afeevas. Ele cita como exemplo a retirada dos catalisadores pelos usuários dos automóveis, prática que já é proibida no Brasil e que é impulsionada pelo mito de aumentar a potência do carro quando retirado.

Para Gabriel Branco, fiscalizar de uma forma mais eficaz é a chave para gerar ainda mais melhorias no programa. Ele defende que o Proconve tem as ferramentas necessárias para essa otimização, mas é necessário mais clareza entre regras que precisam ser revisadas. 

“Está faltando uma revisão no Proconve, tem pontos que precisamos voltar a discutir. Ele está com 40 anos, está na hora dele sofrer uma revisão para saber o que não está funcionando bem”.

A expectativa do setor, contudo, é otimista para um futuro com mais desenvolvimento de tecnologias que auxiliem na redução ativa dos poluentes. “Olhamos com muito otimismo para um futuro em que todas as questões abertas vão ser resolvidas. Com todo mundo se conscientizando sobre isso, vai ser muito melhor no futuro”, completou Stephan Blumrich.

Fonte: Automotive Business

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