Por Lucas Torres
Já há algum tempo, quem atua no comércio de autopeças do Brasil está percebendo um movimento de consolidação do segmento. A expansão de redes como a Âncora e a PitStop, bem como a agressividade com que players como a Autozone têm investido no aumento de suas capilaridades, atingindo, no caso, o número de 150 unidades, está pressionando empresas menores que, muitas vezes sem condições de competir em escala, preço e gestão, acabam sendo impelidas a vender seus negócios ou simplesmente encerrar as atividades.
A novidade é que essa percepção interna dos gestores foi pela primeira vez consolidada em números de maneira massiva. Isso porque, a última edição do Anuário do Sincopeças registrou uma queda de aproximadamente 9 mil empresas ligadas ao varejo de autopeças no território brasileiro entre os anos de 2024 e 2025.
O número chama a atenção porque a frota circulante de veículos leves no Brasil não dá sinais de queda. Pelo contrário, além de crescer todos os anos de 2015 para cá, ela vem envelhecendo ano após ano e se expandir a um ritmo substancialmente maior até 2030, passando da casa atual dos 49 milhões para cerca de 54 milhões.
É importante ressaltar, no entanto, que o movimento não acontece de maneira homogênea em todas as regiões do país. Enquanto Sul e Sudeste viram uma queda substancial no número de estabelecimentos em atividade, com maior concentração do movimento de consolidação, e o Nordeste experimentou uma retração mais moderada, as regiões Norte e Centro-Oeste foram na contramão e registraram crescimento no número de empresas, refletindo a expansão econômica local e a menor saturação desses mercados.

Consolidação não é particularidade do varejo de autopeças
Embora o movimento observado no comércio de autopeças tenha ganhado contornos mais evidentes nos últimos anos, a consolidação está longe de ser uma característica exclusiva desse segmento. Na verdade, trata-se de uma tendência estrutural que vem redesenhando o varejo brasileiro e latino-americano como um todo, impulsionada por transformações profundas no comportamento do consumidor, no ambiente macroeconômico e, sobretudo, na forma como as empresas operam e competem.
Em estudo recente, a KPMG apontou que o setor de consumo e varejo atravessa um período de elevada complexidade, marcado por inflação persistente, juros elevados e um ambiente de negócios mais instável, fatores que pressionam tanto a demanda quanto a capacidade de investimento das empresas. Nesse contexto, a busca por eficiência deixou de ser apenas uma vantagem competitiva e passou a ser uma condição de sobrevivência. Isso significa operar com margens mais ajustadas, cadeias de suprimento mais eficientes e, principalmente, maior capacidade de adaptação a um consumidor cada vez mais exigente e menos fiel às marcas.
Ao mesmo tempo, a transformação tecnológica elevou significativamente a régua de competitividade do varejo. A consolidação de modelos omnichannel, o uso intensivo de dados e a incorporação de novas tecnologias tornaram-se elementos centrais da estratégia das empresas. O problema é que esse novo patamar exige investimentos contínuos — e nem todos os players têm acesso aos recursos necessários para realizá-los. É justamente nesse ponto que a consolidação ganha força: empresas com maior acesso a capital, tecnologia e gestão passam a ampliar sua vantagem competitiva, seja por meio de crescimento orgânico, seja por aquisições e incorporações.
Esse movimento já aparece de forma clara nos dados mais recentes de fusões e aquisições (M&A). Em 2025, o Brasil registrou mais de mil operações no acumulado até o terceiro trimestre, indicando um nível elevado de atividade mesmo em um cenário macroeconômico desafiador. Em outro recorte, foram quase mil transações apenas nos primeiros meses do ano, com crescimento relevante em relação ao período anterior. No primeiro semestre, o volume financeiro movimentado superou a casa das centenas de bilhões de reais, evidenciando não apenas a quantidade, mas a relevância estratégica dessas operações. Dentro desse universo, o setor de consumo e varejo responde por uma fatia significativa das transações, reforçando o papel da consolidação como vetor de reorganização do setor.
Mais do que volume, os dados mostram uma mudança qualitativa no perfil das operações. O mercado tem se tornado mais seletivo, com investidores priorizando empresas com escala, governança estruturada e capacidade de inovação. Além disso, cresce o peso de operações domésticas, empresas brasileiras adquirindo outras empresas brasileiras, o que reforça a dinâmica de concentração interna e ganho de eficiência dentro do próprio mercado.
Tudo isso tem ampliado a distância entre grandes grupos e pequenas e médias empresas. Enquanto os primeiros conseguem acessar o mercado de capitais, investir em tecnologia, expandir portfólio e até adquirir concorrentes para ganhar escala, os segundos passam a operar em um ambiente cada vez mais desafiador, em que a sobrevivência depende de adaptação rápida, ganho de eficiência e, em muitos casos, de movimentos associativos ou de venda parcial ou total do negócio. Trata-se de uma dinâmica que, embora possa gerar concentração de mercado, não implica necessariamente desaparecimento das pequenas empresas, mas sim reconfiguração de seus papéis dentro da cadeia.
Nesse sentido, o que se observa no aftermarket automotivo é, na verdade, um reflexo de uma transformação mais ampla do varejo. A consolidação, portanto, não deve ser interpretada apenas como um processo de redução no número de empresas, mas como uma resposta natural de mercado a um ambiente mais exigente, tecnológico e intensivo em capital.

Anuário quantifica desafio da diversificação dos estoques
Realidade dos players de todos os elos do Aftermarket Automotivo hoje, a explosão dos SKUs disponíveis no mercado de reposição também foi destaque no estudo da principal entidade de representação do varejo de autopeças nacional.
Segundo o Anuário do Sincopeças, o Brasil conta atualmente com mais de 800 mil produtos ativos, distribuídos em 4.620 grupos de produtos e mais de 8.200 marcas.
A distribuição dos itens reforça essa leitura. Sistemas diretamente ligados à mecânica mais crítica dos veículos concentram volumes expressivos de produtos, como é o caso dos componentes internos do motor, com mais de 162 mil SKUs, além de sistemas como transmissão (quase 100 mil itens), suspensão (mais de 81 mil) e freios (acima de 64 mil). Ao mesmo tempo, categorias como acessórios, componentes externos e itens universais ampliam ainda mais o espectro de atuação das empresas, exigindo um portfólio cada vez mais abrangente para atender uma frota que se torna mais diversa a cada ano.
Mas, mais do que um retrato estático do mercado, esses números ajudam a explicar uma transformação estrutural que já é sentida na prática pelos diferentes elos da cadeia. Em debate promovido pelo Aftermarket Automotivo Full Digital – nova plataforma de conteúdo da Nhm – com executivos da indústria, distribuição e varejo, o aumento dos SKUs aparece como um dos principais fatores de pressão sobre as operações. A multiplicação de aplicações e part numbers deixou de ser apenas um desafio de escala e passou a exigir um novo nível de inteligência operacional.
Segundo gestores ouvidos pela equipe de jornalismo da Nhm – Novomeio Hub de Mídia, a fragmentação do portfólio elevou significativamente a complexidade da gestão de estoques, da logística e da previsibilidade da demanda. Empresas relatam aumento do capital imobilizado, crescimento do risco de ruptura e maior dificuldade em equilibrar itens de alto giro com uma ‘cauda longa’ cada vez mais extensa de produtos com baixa rotatividade. Ao mesmo tempo, o processo de identificação correta das peças se tornou mais técnico, elevando a necessidade de capacitação das equipes e aumentando o impacto de erros operacionais.
Esse novo cenário também alterou a lógica de organização das operações. O modelo tradicional baseado em volume deu lugar a estratégias mais sofisticadas, baseadas em dados, categorização por giro e criticidade, além de uma integração mais profunda entre áreas como compras, logística, comercial e engenharia. A operação física, por sua vez, precisou evoluir para dar conta de um ambiente com pedidos mais fracionados, maior diversidade de itens por transação e necessidade de respostas cada vez mais rápidas.
Como estratégia de adequação, o setor tem acelerado investimentos em tecnologia e processos. Ferramentas de business intelligence, sistemas de gestão integrados, automação logística, catálogos eletrônicos e soluções baseadas em inteligência artificial passaram a ocupar um papel central na operação. Em paralelo, ações como a modularização de produtos, com kits que concentram diversos componentes em uma única solução, surgem como alternativas para reduzir a complexidade na ponta e ganhar eficiência ao longo da cadeia.
No entanto, esse avanço tecnológico e operacional não ocorre de forma homogênea. A necessidade de investir continuamente em estrutura, sistemas e capital de giro cria uma barreira relevante para empresas de menor porte, especialmente em um setor historicamente pulverizado. Nesse contexto, o próprio boom de SKUs passa a atuar como um dos vetores que ajudam a explicar o movimento de consolidação observado no aftermarket, já que à medida que a complexidade aumenta, cresce também a vantagem competitiva de players capazes de operar em escala e maior capacidade de execução.
Fonte: Novo Varejo
























