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Agentes de IA inauguram uma nova lógica de crescimento no varejo

O problema nunca foi apenas acesso a dados. Foi a capacidade de transformar dados em direção. É por isso que a conversa sobre inteligência artificial precisa amadurecer

22/04/2026

Por Lyana Bittencourt, CEO do Grupo Bittencourt

A inteligência artificial entrou de vez na agenda do varejo. Mas, a discussão já não está mais no mesmo lugar. Depois do entusiasmo inicial com a IA generativa, o centro da discussão se desloca para os agentes de IA, sistemas capazes de interpretar contexto, apoiar decisões, executar tarefas e dar continuidade a fluxos operacionais com mais autonomia.

O interesse que eles despertam não está na sofisticação técnica. Está no impacto empresarial. O varejo não precisa de mais uma promessa. Precisa de mais capacidade de execução.

Foi isso que ficou claro nos grandes encontros internacionais do setor neste início de ano. Em todos que participei, o que apareceu com força não foi a tecnologia como espetáculo. Foi a tecnologia como estrutura, como resposta objetiva a um mercado mais exigente, mais veloz e menos tolerante a erros. 

A questão deixou de ser inovar por imagem. Passou a ser operar melhor. Durante muito tempo, crescer no varejo significou expandir, abrir lojas, ganhar capilaridade, diversificar portfólio e aumentar presença. Essa lógica ainda existe, mas perdeu suficiência. O mercado mudou. A operação ficou mais complexa. O consumo ficou mais fragmentado. A margem para decisões lentas, mal calibradas ou desconectadas da rotina ficou menor. Crescer exige coerência. Coerência entre estratégia e operação. Entre dado e decisão. Entre ambição e capacidade real de entrega.

É justamente nesse ponto que os agentes de IA começam a ganhar relevância. Não porque substituam pessoas. Não porque resolvam sozinhos a complexidade do negócio. Mas porque ajudam a reduzir uma das fragilidades mais recorrentes do varejo: a distância entre perceber e agir.

Essa distância custa caro. Custa tempo, produtividade, margem e consistência. Custa oportunidades perdidas e correções tardias. Custa energia demais para sustentar rotinas que deveriam estar mais organizadas, mais integradas e mais inteligentes. O varejo sempre teve informação. O que nem sempre teve foi clareza para priorizar, disciplina para agir e estrutura para sustentar a execução. Essa é a diferença.

O problema nunca foi apenas acesso a dados. Foi a capacidade de transformar dados em direção. É por isso que a conversa sobre inteligência artificial precisa amadurecer. O valor não está em adicionar tecnologia à operação. Está em aumentar a capacidade da operação de responder melhor.

Isso vale para gestão comercial, abastecimento, atendimento, acompanhamento de indicadores, integração entre áreas e velocidade de resposta. Vale, sobretudo, para um setor que convive ao mesmo tempo com consumidor mais volátil, competição mais difusa e pressão permanente por eficiência.

Nesse ambiente, improviso deixou de parecer agilidade. Muitas vezes, ele é só desorganização com boa narrativa. E crescimento sem método cobra seu preço. Boa parte das empresas ainda trata transformação como repertório, não como reorganização. Adota ferramentas, mas preserva processos frágeis. Fala em inteligência, mas mantém estruturas lentas, pouco conectadas e excessivamente dependentes de esforço corretivo. O discurso avança. A capacidade operacional, nem sempre. 

Esse descompasso explica muito do que se vê no mercado. Empresas que investem, mas não capturam valor na mesma medida. Organizações que se digitalizam, mas não necessariamente se tornam mais maduras. Operações que parecem mais modernas, mas seguem reagindo mais do que conduzindo. No fim, o tema não é tecnologia. É maturidade de gestão.

Agentes de IA só farão diferença real para empresas que souberem inseri-los em uma lógica mais ampla de governança, prioridade, acompanhamento e disciplina operacional. Fora disso, o risco é repetir um padrão conhecido no varejo: confundir ferramenta nova com transformação efetiva. 

Não é a primeira vez que o setor se entusiasma com uma nova alavanca de crescimento. Mas talvez esta seja uma das primeiras vezes em que a discussão toca tão diretamente o centro da operação.

E isso muda tudo porque a próxima fronteira competitiva do varejo não parece estar apenas em vender mais; está em decidir melhor, responder mais rápido e executar com menos dispersão.

Esse é o tipo de mudança que não aparece apenas no discurso de inovação. Aparece na rotina, na fluidez, na consistência da operação. Na capacidade de fazer o negócio avançar sem depender o tempo todo de correção manual, esforço extra e liderança no improviso. 

No varejo que se desenha agora, crescer será menos uma questão de fôlego e mais uma questão de coordenação. No fim, não serão mais competitivas as empresas que simplesmente adotarem IA. Serão mais competitivas as que conseguirem operar com mais clareza, mais disciplina, rigor e mais consistência por causa dela.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio** 

Fonte: Diário do Comércio – Imagem: Freepik (https://dcomercio.com.br/publicacao/s/agentes-de-ia-inauguram-uma-nova-logica-de-crescimento-no-varejo)

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