“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

O salto da recarga rápida e a maturidade da mobilidade elétrica no Brasil

O crescimento na carga rápida prova que já escolhemos a nossa direção

16/03/2026

Por Ayrton Barros

Ayrton Barros é Diretor Geral da NeoCharge,
empresa referência em soluções para
recarga de veículos elétricos.

O crescimento de 42% no número de pontos públicos de recarga no Brasil em 2025 pode parecer apenas mais um indicador positivo do setor, mas o dado mais relevante não está na expansão total, e sim na composição dessa expansão.

Enquanto a rede geral cresceu 42%, o número de carregadores rápidos aumentou cerca de 167% na comparação com 2024. E é justamente aí que está a verdadeira transformação.

Isso demonstra um amadurecimento gigantesco do nosso mercado. O motivo é simples: o perfil do investimento mudou.

O abismo entre testar e escalar

Até pouco tempo, o Brasil vivia a fase exploratória. O investimento em carregadores lentos (corrente alternada – AC) é caracterizado por baixo custo, baixo esforço técnico e baixo risco. É o equipamento ideal para tatear o mercado.

O investimento em recarga rápida, por outro lado, exige maturidade. Não é simples, nem barato. Demanda alto CAPEX, adequações complexas de infraestrutura elétrica, custos fixos altos de demanda contratada e um modelo de negócios sólido para mitigar riscos operacionais. Quando o setor registra uma expansão de 167% em um ecossistema de alta complexidade, o recado é claro: deixamos de testar hipóteses para escalar operações reais.

Por que a recarga rápida muda o jogo?

Além do amadurecimento dos investidores, a recarga DC destrava dois gargalos cruciais para a adoção em massa dos veículos elétricos (VEs):

  1. O uso profissional: Frotas corporativas, logística de última milha e motoristas de aplicativo dependem de alta rotatividade. Tempo parado é dinheiro perdido.
  2. Acesso para quem não carrega em casa: No Reino Unido, um terço dos donos de carros elétricos não possui carregador residencial. No Brasil, esse número ainda é inferior a 10%, mas só tenderá a crescer à medida que a infraestrutura pública se tornar mais acessível e conveniente, alcançando moradores de prédios mais antigos e grandes centros.
  3. O fim da limitação urbana: Carregadores rápidos viabilizam viagens, tirando dos carros elétricos a pecha de “veículos exclusivos para uso urbano”. Isso permite que pessoas que viajam com frequência também capturem as grandes economias financeiras proporcionadas pela eletromobilidade.

A lente técnica: Quantidade vs. Qualidade

Para entender o real peso dessa transformação, precisamos olhar para as métricas adotadas pela Agência Internacional de Energia (IEA).

Atualmente, o Brasil possui pouco mais de 400 mil VEs plug-in circulando para cerca de 21 mil eletropostos públicos, de acordo com a ABVE/Tupi Mobilidade. Isso nos dá uma relação próxima de 20 VEs por carregador. Esse é um indicador quantitativo. Mostra que a rede avança, mas ainda busca a proporção ideal (estimada em 10 VEs por carregador público).

No entanto, o pulo do gato está no indicador qualitativo: a relação entre o tamanho da frota de VEs e a quantidade de kW instalada. Com a explosão dos carregadores rápidos, o Brasil deu um salto gigantesco na potência total disponível. Em vez de apenas pulverizar plugues lentos, estamos injetando a Ju lta potência na rede, aumentando a rotatividade dos veículos nos postos e a eficiência da infraestrutura.

Ecossistema, interiorização e os próximos passos

O avanço da recarga rápida já reflete uma interiorização do mercado. Hoje, 1.649 municípios brasileiros contam com eletropostos, com crescimentos acima de 70% na região Norte e 26% no Nordeste no último ano. A mobilidade elétrica deixa de ser um fenômeno exclusivo das capitais do Sudeste.

Temos a vantagem de partir de uma matriz elétrica mais de 90% renovável. Nosso desafio não é a origem da energia, mas a infraestrutura de distribuição. É inegável que a expansão da carga rápida pressiona a rede elétrica local, mas é exatamente aí que surgem as oportunidades de inovação: integração com geração distribuída (GD), sistemas de inteligência energética e adoção de baterias estacionárias para mitigar custos de demanda nos horários de pico.

O crescimento na carga rápida prova que já escolhemos a nossa direção. Os próximos desafios do setor envolvem garantir a interoperabilidade entre as diferentes redes (o motorista precisa usar um único app), previsibilidade regulatória e sustentabilidade financeira das operações. Só assim, a mobilidade elétrica no Brasil se consolidará, em definitivo, como uma infraestrutura estratégica nacional.

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