“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

Startup mexicana usa IA para democratizar a modernização das oficinas brasileiras

Empresa inaugura cenário em que a tecnologia atua como copiloto técnico do reparador

20/07/2026

Natália Salcedo, fundadora e CEO da Pitz

Por Lucas Torres

O descompasso entre a crescente complexidade dos veículos e o ritmo de digitalização das oficinas mecânicas já representa um dos grandes desafios de adequação para o mercado de reparação automotiva. Enquanto carros equipados com conectividade, sistemas ADAS e Inteligência Artificial (IA) se tornam cada vez mais comuns, uma parte dos reparadores ainda precisa lidar com processos manuais, dificuldade de acesso à informação técnica e escassez de mão de obra qualificada.

De olho neste cenário, empresas de tecnologia passaram a desenvolver soluções voltadas a aproximar a Inteligência Artificial da rotina dos estabelecimentos de reparação. Entre elas está a Pitz, startup fundada no México e com operação no Brasil, que propõe uma plataforma baseada em IA para apoiar mecânicos e gestores em atividades como diagnóstico técnico, gestão operacional, relacionamento com clientes e acesso a informações especializadas. 

A empresa, que recentemente ampliou sua rodada de investimentos para acelerar a expansão internacional – levantando cerca de US$ 5 milhões em menos de um ano –, defende que a tecnologia pode ajudar a democratizar o conhecimento técnico e aumentar a produtividade das oficinas, independentemente do seu porte.

Para entender melhor essa transformação, conversamos com Natália Salcedo, fundadora e CEO da Pitz. Na entrevista exclusiva, a executiva explica por que acredita que a Inteligência Artificial deve atuar como um “copiloto técnico” do mecânico, analisa o atual estágio de digitalização das oficinas brasileiras, comenta os desafios de adoção dessa tecnologia e compartilha sua visão sobre como a IA deve transformar a produtividade, os diagnósticos automotivos e a gestão das oficinas nos próximos anos.

Aftermarket Automotivo – A Pitz nasceu com a proposta de aproximar a Inteligência Artificial da rotina das oficinas mecânicas. Como surgiu essa ideia e quais foram as principais dores do mercado de reparação que motivaram a criação da empresa?

Natália Salcedo – A Pitz nasceu da percepção de que existe um contraste muito grande no mercado automotivo. De um lado, os veículos estão se tornando cada vez mais tecnológicos, conectados e complexos. Do outro, grande parte das oficinas ainda opera com processos manuais, informações fragmentadas e pouco acesso à tecnologia. Quando começamos a estudar profundamente esse mercado, percebemos que o problema não era apenas a falta de software. Existiam desafios estruturais: dificuldade de acesso à informação técnica, escassez de mão de obra qualificada, tempo excessivo gasto em diagnósticos e pesquisas, processos administrativos pouco eficientes e dificuldade para encontrar e comprar as peças corretas. A Pitz nasceu justamente para reduzir essa distância entre a complexidade crescente dos veículos e a capacidade tecnológica disponível para quem trabalha diariamente na manutenção e reparação desses carros. Nossa visão é usar Inteligência Artificial para democratizar o acesso ao conhecimento técnico e aumentar a capacidade produtiva das oficinas. Queremos que um mecânico, independentemente do tamanho da oficina ou do seu nível de experiência, tenha acesso a uma tecnologia capaz de ajudá-lo a tomar decisões melhores, trabalhar com mais eficiência e atender mais clientes.

Aftermarket Automotivo – Hoje, como vocês definem a Pitz? Ela é uma plataforma de gestão, uma empresa de Inteligência Artificial ou um ecossistema de soluções voltado à transformação digital das oficinas?

Natália Salcedo – Nós definimos a Pitz como uma empresa AI-native que está construindo o sistema operacional inteligente para o mercado de reparação automotiva. A gestão da oficina é uma parte importante da plataforma, mas nossa visão vai muito além de digitalizar processos administrativos. Estamos construindo uma infraestrutura tecnológica que conecta Inteligência Artificial, diagnóstico e assistência técnica, gestão da operação, relacionamento com clientes, gestão de veículos, estoque e acesso a peças automotivas. A Inteligência Artificial funciona como uma camada transversal dessa plataforma. Ela não está isolada em uma única funcionalidade, mas gradualmente passa a apoiar diferentes decisões e processos dentro da oficina. Nossa ambição é que a Pitz se torne a principal interface tecnológica entre o mecânico e todo o ecossistema necessário para operar uma oficina moderna.

Aftermarket Automotivo – Quais são os principais desafios enfrentados atualmente pelas oficinas mecânicas brasileiras? Eles estão mais relacionados à gestão do negócio, à falta de mão de obra qualificada, ao relacionamento com clientes ou ao diagnóstico técnico dos veículos?

Natália Salcedo – Todos esses desafios estão conectados, mas acreditamos que dois deles são especialmente estruturais: a escassez de mão de obra qualificada e o aumento da complexidade tecnológica dos veículos. Existe uma dificuldade crescente para encontrar profissionais experientes, enquanto os carros possuem cada vez mais eletrônica embarcada, sensores, sistemas conectados e tecnologias que exigem conhecimento técnico especializado.

Isso cria um problema de produtividade. O conhecimento muitas vezes está concentrado nos profissionais mais experientes, que acabam se tornando gargalos dentro da operação. Ao mesmo tempo, muitas oficinas ainda enfrentam dificuldades básicas de gestão: organização das ordens de serviço, acompanhamento dos clientes, controle financeiro, gestão de estoque e compra de peças. A Inteligência Artificial pode ajudar justamente a aumentar a capacidade produtiva dos profissionais existentes. Quando um mecânico menos experiente consegue acessar rapidamente informações técnicas, procedimentos de diagnóstico e recomendações baseadas no contexto do veículo, ele passa a trabalhar com mais autonomia. Isso permite que profissionais seniores atendam situações mais complexas, enquanto a tecnologia ajuda a elevar a capacidade técnica de toda a equipe.

Aftermarket Automotivo – A Inteligência Artificial costuma ser associada a empresas mais digitalizadas. Na prática, que perfil de oficina está apto a utilizar as soluções da Pitz? Existe um nível mínimo de maturidade digital ou a tecnologia foi desenvolvida justamente para acelerar essa transformação?

Natália Salcedo – A tecnologia foi desenvolvida justamente para reduzir essa barreira. Se criássemos uma solução que exigisse alto nível de maturidade digital, estaríamos atendendo apenas uma pequena parcela do mercado. Grande parte das oficinas mecânicas é formada por pequenas e médias empresas, com equipes reduzidas e diferentes níveis de familiaridade com tecnologia. Por isso, nossa preocupação é fazer com que a interação com a Inteligência Artificial seja o mais natural possível. Um dos exemplos é o uso de interfaces conversacionais e voz. O mecânico não precisa aprender a operar sistemas complexos ou entender como funciona um modelo de Inteligência Artificial. Ele pode simplesmente descrever um problema, informar os sintomas apresentados pelo veículo ou fazer uma pergunta técnica. A tecnologia precisa se adaptar à rotina do mecânico, e não obrigar o mecânico a se adaptar à tecnologia.

Aftermarket Automotivo – Um receio comum entre proprietários de oficinas é que a adoção de novas tecnologias exija treinamentos complexos ou grande adaptação da equipe. Como isso acontece na prática? As soluções da Pitz são intuitivas ou a empresa também oferece capacitação durante a implementação?

Natália Salcedo – Nossa filosofia de produto é que uma tecnologia só gera impacto quando efetivamente é utilizada. Por isso, investimos muito em simplificar a experiência do usuário e reduzir o tempo necessário para que uma oficina comece a perceber valor. A interação com a Inteligência Artificial, por exemplo, pode acontecer por meio de linguagem natural e voz, algo muito próximo da maneira como os mecânicos já trocam informações entre si no dia a dia. Ao mesmo tempo, entendemos que a adoção de tecnologia não depende apenas do produto. Por isso, acompanhamos as oficinas durante o processo de implementação e onboarding, ajudando os gestores e suas equipes a incorporar a plataforma à rotina da operação. Nosso objetivo é combinar um produto intuitivo com acompanhamento próximo, principalmente nos primeiros momentos da jornada do cliente.

Aftermarket Automotivo – O perfil do mecânico brasileiro é bastante heterogêneo, reunindo desde profissionais altamente familiarizados com tecnologia até outros que ainda trabalham de forma mais tradicional. Como tem sido a receptividade desses diferentes públicos à Inteligência Artificial? Ainda existe resistência ou esse cenário vem mudando?

Natália Salcedo – Existe curiosidade e, naturalmente, algum nível de desconfiança inicial. Mas percebemos que a resistência diminui rapidamente quando o profissional entende que a Inteligência Artificial não está ali para substituir seu conhecimento, mas para ampliar sua capacidade de trabalho. O mecânico possui algo extremamente valioso: experiência prática. Ele conhece ruídos, sintomas, comportamentos dos veículos e situações que muitas vezes não estão documentadas de forma estruturada. A Inteligência Artificial pode complementar essa experiência, ajudando a organizar informações, levantar hipóteses, acessar conhecimento técnico e acelerar processos de investigação. Existe também uma mudança geracional importante acontecendo no mercado. Profissionais mais jovens já estão acostumados a utilizar tecnologia para buscar informações e resolver problemas. Ao mesmo tempo, profissionais mais experientes percebem rapidamente o valor da ferramenta quando ela consegue economizar tempo e reduzir tarefas repetitivas. No final, a adoção acontece quando a tecnologia resolve um problema real.

Aftermarket Automotivo – Quando se fala em Inteligência Artificial aplicada à reparação automotiva, muitas pessoas imaginam sistemas capazes de identificar automaticamente o defeito de um veículo. Na prática, até onde essa tecnologia já consegue chegar hoje e qual é o seu papel dentro do processo de diagnóstico?

Natália Salcedo – É importante evitar a ideia de que a Inteligência Artificial funciona como uma espécie de “mecânico automático” capaz de determinar sozinha qual é o problema de um veículo. O diagnóstico automotivo é um processo complexo que envolve conhecimento técnico, contexto, inspeção física, testes e experiência profissional. O papel da Inteligência Artificial é atuar como um copiloto técnico do mecânico. Ela pode ajudar a interpretar sintomas, organizar informações, sugerir hipóteses de diagnóstico, indicar possíveis causas, recomendar procedimentos de verificação e facilitar o acesso a informações técnicas. Isso pode reduzir significativamente o tempo gasto pesquisando informações ou investigando problemas. Mas a decisão final continua sendo do profissional. Nós acreditamos que o futuro da reparação automotiva não será formado por Inteligência Artificial substituindo mecânicos, mas por mecânicos que utilizam Inteligência Artificial e, por isso, se tornam muito mais produtivos do que aqueles que não utilizam essas ferramentas.

Aftermarket Automotivo – Vocês conseguem compartilhar exemplos concretos de atividades que antes consumiam muito tempo das oficinas e que passaram a ser realizadas de forma mais rápida ou eficiente com o apoio da Inteligência Artificial?

Natália Salcedo – Um dos exemplos mais claros é a busca por informações técnicas. Mecânicos frequentemente precisam consultar diferentes fontes, fóruns, vídeos, manuais e grupos de mensagens para encontrar informações sobre determinados problemas. Esse processo pode consumir dezenas de minutos ou até horas. Com uma interface de IA, o profissional pode descrever o veículo, os sintomas apresentados e o contexto do problema para receber, rapidamente, uma síntese das possíveis causas e dos procedimentos de diagnóstico a serem considerados. Outro exemplo é a documentação da operação. Informações sobre diagnósticos, serviços realizados, recomendações e histórico dos veículos podem ser registradas e organizadas com apoio da Inteligência Artificial. No futuro, acreditamos que uma parcela significativa das tarefas administrativas da oficina poderá ser automatizada. O mecânico poderá conversar naturalmente com a plataforma enquanto trabalha, e a tecnologia ajudará a registrar informações, atualizar ordens de serviço, buscar peças, comunicar clientes e organizar processos. 

Aftermarket Automotivo – O avanço dos veículos conectados, dos sistemas ADAS, da telemetria e da eletrificação tende a aumentar a complexidade dos diagnósticos. Como vocês acreditam que a Inteligência Artificial ajudará as oficinas a lidar com essa nova realidade?

Natália Salcedo – A quantidade de informação necessária para reparar um veículo está crescendo rapidamente. Um profissional precisa lidar com diferentes fabricantes, modelos, sistemas eletrônicos, sensores, códigos de falha, procedimentos técnicos e novas tecnologias. É cada vez mais difícil esperar que uma pessoa consiga memorizar todo esse conhecimento. A Inteligência Artificial pode funcionar como uma camada de inteligência capaz de organizar e contextualizar grandes volumes de informação. No futuro, ela poderá combinar histórico do veículo, dados de sensores, informações técnicas, sintomas relatados pelo cliente e experiências anteriores de reparação para ajudar o profissional a tomar decisões melhores. Isso será especialmente importante com o avanço dos veículos elétricos, conectados e equipados com sistemas ADAS. Quanto mais complexos forem os veículos, maior será a necessidade de ferramentas capazes de aumentar a capacidade técnica dos profissionais que trabalham na reparação.

Aftermarket Automotivo – Olhando para os próximos cinco anos, como você imagina que será a rotina de uma oficina que utiliza Inteligência Artificial de forma intensiva? Quais mudanças mais profundas vocês acreditam que essa tecnologia trará para reparadores e gestores?

Natália Salcedo – Acreditamos que a oficina do futuro será muito mais automatizada e orientada por dados. Grande parte das tarefas administrativas será executada ou assistida por agentes de Inteligência Artificial. O cliente poderá entrar em contato com a oficina, explicar o problema do veículo e agendar um atendimento por meio de um agente de IA. Quando o veículo chegar, o sistema já poderá organizar informações relevantes sobre o histórico do carro e apoiar o mecânico durante o processo de diagnóstico. Enquanto o profissional trabalha, ele poderá interagir com a Inteligência Artificial por voz para consultar informações técnicas, registrar serviços realizados, atualizar ordens de serviço e buscar peças. A comunicação com o cliente também poderá ser automatizada, desde atualizações sobre o andamento do serviço até recomendações de manutenção preventiva. Para os gestores, a Inteligência Artificial poderá ajudar a identificar gargalos operacionais, prever demanda, melhorar a gestão de estoque, acompanhar indicadores financeiros e recomendar decisões para aumentar a rentabilidade da oficina. Mas talvez a transformação mais importante seja a democratização do conhecimento técnico. Hoje, existe uma grande diferença de produtividade entre profissionais iniciantes e mecânicos com décadas de experiência. A Inteligência Artificial pode ajudar a reduzir essa distância. Um profissional menos experiente, utilizando as ferramentas corretas, poderá acessar conhecimento, investigar problemas e tomar decisões com muito mais segurança. Isso não elimina a importância da experiência. Pelo contrário, permite que o conhecimento dos profissionais mais experientes seja utilizado de forma mais estratégica, enquanto a tecnologia ajuda a elevar a capacidade produtiva de toda a equipe. Nos próximos cinco anos, acreditamos que a principal diferença não será entre oficinas grandes e pequenas. Será entre oficinas que aprenderam a utilizar Inteligência Artificial para aumentar sua produtividade, capacidade técnica e rentabilidade e aquelas que continuaram operando da mesma forma.

Fonte: Novo Varejo

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