“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

Software supera motor em importância na indústria automotiva

Especialista afirma que valor do veículo migra do hardware para o software, enquanto montadoras e empresas de tecnologia disputam o controle da experiência digital do usuário

19/06/2026

Por Natasha Werneck

A corrida da indústria automotiva já não se concentra apenas na eletrificação. Para o sócio da StartSe, Fábio Neto, a disputa começa a migrar para o software que controla os veículos, em uma mudança que deve redefinir o modelo de negócios das montadoras e abrir espaço para empresas de tecnologia disputarem a relação com o consumidor. Depois de visitar o Salão do Automóvel de Pequim, China, ele afirmou, em entrevista a Agência AutoData, que o valor do automóvel está deixando de ser determinado pelo conjunto mecânico para migrar para o sistema operacional e para os serviços digitais embarcados.

“Durante cem anos a indústria automotiva sempre competiu para ver quem tinha o melhor motor, a melhor potência, o melhor design e a melhor segurança. Esse era o grande valor do carro, o hardware. A eletrificação ainda está muito nesse lugar. Estamos discutindo apenas qual matriz energética vai continuar levando o carro do ponto A ao ponto B.”

Segundo ele esta lógica começou a mudar quando o veículo passou a funcionar como um computador conectado: “À medida que, nos últimos anos, o carro tornou-se um computador, tornou-se um software, o valor está menos no hardware e muito mais no software. O carro hoje é composto por milhões e milhões de linhas de código. O valor hoje é mais criado por um software do que por componentes mecânicos”.

Fábio Neto citou a Tesla como a empresa que iniciou este movimento e afirma que as fabricantes com origem na China aceleraram essa transformação: “O carro evolui depois que sai da fábrica. É igual a um celular: você baixa uma atualização e melhora o veículo com ele parado na garagem”.

Carro torna-se plataforma

Na avaliação do especialista a próxima etapa desta transformação será a incorporação de agentes de inteligência artificial. “O próximo passo além do software é o carro ser um grande agente de inteligência artificial. Ele deixa de ser uma máquina que só responde a comandos e passa a tomar decisões. Agenda compromissos, sugere rotas, negocia recarga, agenda manutenção, compra serviços e conversa com o sistema da casa, da empresa e com o celular.”

Segundo ele esta foi uma das principais mudanças observadas no salão chinês: “As montadoras estão se transformando em empresas de tecnologia e as empresas de tecnologia estão se transformando em indústria. Nos estandes havia muito mais do que carros. O veículo virou um ambiente de serviços, superconectado, um centro de dados”.

Outra percepção foi a perda de diferenciação dos próprios veículos: “O hardware está cada vez mais comoditizado. Você vai de um estande para outro e, se trocar a marca, muitas vezes não sabe diferenciar. Todos os carros são bonitos, cheios de telas, aspiracionais. A diferenciação passa a ser o ecossistema que acompanha o veículo. O carro tornou-se meio e não fim.”

Ecossistema e dados

Na avaliação de Fábio Neto o domínio do sistema operacional será importante porque permitirá controlar o relacionamento com o usuário e criar novas fontes de receita: “O que está em jogo é quem vai dominar os dados do cliente à medida que o carro se transforma em uma plataforma de captura de dados”.

Ele compara esta disputa ao mercado de smartphones. “Hoje uma montadora não quer usar o sistema da outra. Todo mundo quer ser a Apple. Ninguém quer adotar um Android dos carros. Ainda existem mais de cem sistemas diferentes, mas eu acredito que, em algum momento, isto se consolidará”.

Segundo ele esta mudança também altera a própria forma como o consumidor escolherá um veículo: “O hardware continua importante, mas vai virar commodity. O que fará o diferencial será: ‘Este carro tem sistema para reunião online? Meu filho consegue assistir aula? Está integrado ao iFood? Ao Mercado Livre?’. Estas serão as novas perguntas”.

Para o especialista os dados passam a representar uma nova oportunidade de ganhos para as montadoras: “Hoje elas ganham dinheiro vendendo o carro e no pós-venda. Com conectividade passam a conhecer o comportamento do cliente e podem criar novos modelos de negócio. O carro deixa de ser apenas um hardware e passa a ser um ponto de serviços e de mídia”.

Fonte: AutoData

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