Durante mais de uma década, o assunto ficou ali — conhecido, sensível, cuidadosamente evitado. A comercialização de peças usadas no Brasil nunca deixou de existir, mas saiu do centro do debate institucional desde 2013, quando o tema esbarrou em ruídos regulatórios, insegurança jurídica e resistência cultural. Em 2025, ele volta. E volta pelas mãos das montadoras.
A Renova, do ecossistema Porto, e o Centro de Desmontagem Veicular Circular AutoPeças, da Stellantis, recolocam a pauta sobre a mesa com outro peso, outro discurso e outra lógica. Não é mais o ferro-velho improvisado, nem a informalidade histórica que sempre rondou esse mercado. Agora, o argumento é economia circular, rastreabilidade, sustentabilidade e controle de qualidade. Palavras que mudam o tom — e o jogo.
Há algo de profundamente simbólico nisso. Quando montadoras entram de vez na comercialização estruturada de peças usadas, o tema deixa de ser marginal e passa a ser estratégico. A Renova e o Circular surgem como braços organizados para reaproveitamento, remanufatura e revenda de componentes, conectando descarbonização, redução de custos e novos modelos de negócio. Não é só sobre reaproveitar peças. É sobre criar valor onde antes havia tabu.
O silêncio que se instalou desde 2013 não foi por falta de demanda. Foi por falta de consenso. Questões como segurança veicular, garantia, concorrência com peças novas, impacto no aftermarket independente e regras claras sempre travaram o avanço do debate. O que muda agora é quem puxa a conversa — e com que narrativa.
Ao assumirem protagonismo, iniciativas como Renova e Circular forçam o setor a amadurecer a discussão. Se a comercialização de peças usadas vai crescer — e tudo indica que vai —, ela precisa de regras, transparência, padronização e integração com a cadeia. Fingir que o mercado não existe deixou de ser opção.
O movimento também conversa diretamente com o consumidor. Em um cenário de custo elevado de manutenção, frota envelhecida e busca por alternativas mais acessíveis, a peça usada certificada ganha apelo. Não como substituta universal, mas como opção legítima dentro de um ecossistema mais amplo de reparação e reposição.
Para o aftermarket, o retorno do tema acende alertas e oportunidades. Há preocupação, sim, com concorrência e equilíbrio de mercado. Mas há também espaço para novos serviços, parcerias, especialização e adaptação a uma lógica de circularidade que veio para ficar. O debate não será simples — mas será inevitável.
Depois de mais de dez anos em estado de latência, a pauta das peças usadas volta ao centro do palco. Desta vez, empurrada por quem tem escala, estrutura e interesse estratégico. A pergunta que fica não é se o tema vai avançar, mas sob quais regras e com quais impactos para a cadeia como um todo.
O silêncio acabou. O debate recomeçou. E o aftermarket, mais uma vez, terá que decidir se reage ou se participa da construção do novo modelo. O Movenews acompanha — porque esse assunto, definitivamente, voltou para ficar.
Fonte: Move News


































