Por Leandro Alves
A CES, Consumer. Eletronic Show, que se tornou o tradicional e um dos mais cobiçados points do futuro da tecnologia, precisa se reciclar. O enredo do maior encontro sobre tecnologias de todos os segmentos de produtos do Ocidente, no caso automotivo, mais parece uma reprise daquela novela que já passou por um remake e insistentemente é exibida na programação da TV aberta. Não dá para negar que muitas tecnologias inovadoras aparecem primeiro por lá, mas no que se relaciona à indústria automotiva grande parte do que é apresentado muitas vezes não chega ao mercado.
A crítica é valida em 2026 porque a indústria ocidental está tomando de lavada dos chineses, que desenvolveram a habilidade de criar, produzir e entregar ao mercado soluções automotivas que levam anos, ou até décadas, para a indústria tradicional transformar em um produto.
Este ano a CES teve como destaque no particular automotivo a demonstração de arquiteturas de veículos definidas a partir dos softwares utilizados no produto final e, também, o que foi dito como uma versão definitiva da tecnologia de direção autônoma que, finalmente, poderá evoluir para algo que seja aplicável nos veículos.
Enquanto sistemistas já consolidados na cadeia automotiva ocidental demonstram na CES imagens ilustrativas e ótimas intenções sobre nova arquitetura baseada em software, que terá dentre outras inovações maior agilidade na manufatura e integração de diversos sistemas do veículo, a novata chinesa Leapmotor apresentou em maio de 2025 todos os itens que comporão a nova geração de sua nova arquitetura para o SUV B10.
Chamada de 3.5 essa nova arquitetura da Leapmotor “privilegia o posicionamento da bateria no chassi para depois distribuir todos os sistemas em posições específicas para facilitar a eficiência da montagem. Desta forma possui alto grau de integração eletrônica, com diferentes sistemas como controle de bateria, motor, ADAS gerenciados em uma só central, dotada de um poderoso chip Snapdragon 8155 da Qualcomm”, conforme descrito por este repórter de AutoData em visita à sede da empresa em Hangzhou, China.
Da mesma forma os sistemas autônomos, que na CES deste ano foi um dos grandes destaques – mas não se sabe ainda se ganharão escala e serão autorizados a equipar os veículos – ganharam manchetes e tomaram a atenção da mídia no mundo todo.
A primeira vez que este repórter teve contato com a tecnologia autônoma foi em 2006, quando tive o privilégio de conhecer um dos primeiros protótipos de veículo autônomo do mundo. Foi no Congresso Internacional SAE, em Detroit, MI, em que exibiram um Jeep Cherokee praticamente desconfigurado pela equipe de engenheiros da Universidade de Michigan. Não dava para ver a carroceria, que recebeu um aparato monstruoso de fios, sensores, baterias e processadores que ocuparam todo o espaço no teto, nas laterais, na frente e atrás. Aquele Jeep ali, estacionado em um estande do Cobo Hall, demonstrava o desenvolvimento de algo que vinte anos depois ainda não concebeu um produto definitivo, suficientemente seguro e eficiente capaz de ganhar as ruas do mundo.
Mais um exemplo de como a indústria tradicional demonstra intenções que não dão em nada – com algumas boas exceções, é claro – se deu na mesma CES de 2019. Um dos grandes destaques daquele ano foi o e-Vtol da Hyundai, de codinome PAV AS-1: exibido em sua versão praticamente definitiva a fabricante coreana anunciava uma parceria com a Uber para que aquele modelo totalmente elétrico e revolucionário começasse a transportar as pessoas de Dallas, TX, em 2023.
Ainda na CES de 2019, em contrapartida, a Ford apresentou o Mustang Mach-E, este sim uma versão final do crossover 100% elétrico que chegou ao mercado e realmente é um produto interessante, fruto de inovação por parte da tradicional fabricante estadunidense.
Assim como o atraso na mentalidade das empresas ocidentais e suas estratégias de desenvolvimento de produtos e tecnologias, este artigo opinativo, contudo, nem é original. Lá em 2019 este tema foi abordado com bastante propriedade em reportagem da revista AutoData na sua edição 363.
Mas é importante continuar levantando a questão: quanto dinheiro investido em projetos que foram apresentados em salões do automóvel ou feiras de tecnologia, como a CES, não deram em nada? E quando a indústria ocidental vai se render e replicar a eficiência, velocidade e objetividade da indústria chinesa?
Fonte: AutoData


































