Mesmo com o mercado de trabalho aquecido e a inflação perdendo ritmo, os juros altos deterioraram os orçamentos das famílias da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) em agosto, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
O volume de lares inadimplentes cresceu 0,6 ponto porcentual (p.p.), saindo de 22,1% de casas nessa situação em julho para 22,7% em agosto. É o patamar mais alto desde março de 2024. Cresceu também o número de famílias endividadas: passou de 70,9% no último mês para 71,5% agora – também a maior taxa desde maio de 2024. Por consequência, tem mais gente sem condições de pagar as dívidas vencidas: 9,3% das unidades ouvidas no estudo.
São Paulo tem 2,92 milhões de famílias endividadas hoje e, delas, 929 mil estão inadimplentes. Segundo a FecomercioSP, o padrão de endividamento, marcado pelo protagonismo da modalidade do cartão de crédito (80% dos endividados o citam diretamente), “expressa como o sistema financeiro sustenta o consumo na principal cidade do país… O resultado disso é uma porção cada vez maior do orçamento das famílias para pagamento de juros.”
Segundo a entidade, os dados da Peic mostram como, apesar do crédito ter essa centralidade nos gastos familiares, o emprego em alta, que eleva os rendimentos mensais, aumenta a segurança em comprar no médio prazo. “Nesse sentido, a elevação do endividamento não é necessariamente negativa”, diz a FecomercioSP.
Menos tempo de dívida – Se os números da pesquisa apresentam deterioração da conjuntura doméstica em São Paulo, há outros indicadores positivos. Um deles é que o tempo médio de duração das dívidas está caindo. Em agosto, ele foi de 7 meses (era de 7,2 em junho), o que, segundo a entidade, revela maior presença de comprometimentos a curto prazo. No caso de quem tem uma despesa atrasada, o prazo médio de quitação é de 63,3 dias.
Entre as famílias endividadas, 31% têm dívidas que terminam em até três meses. A maior parte (36%), por outro lado, cita contas com mais de um ano de prazo.
Da mesma forma, a parcela da renda mensal dedicada a pagamentos das dívidas retraiu em agosto: 26,5% dos recursos vão para esse fim – a menor taxa desde fevereiro de 2015. A maior parte das famílias (44%) diz que tem entre 11% e 50% dos rendimentos comprometidos com esse tipo de conta.
A leitura da FecomercioSP é de fragilidade: “como o dinheiro acaba antes do fim do mês, muitas famílias têm no cartão de crédito a possibilidade de seguir consumindo ou mesmo arcando com os custos fixos, e não apenas com compras de médio e longo prazo.”
Ainda segundo a entidade, “o quadro geral não é ruim, mas a deterioração é nítida. Com os juros altos (a Selic permanece em 15%, puxando taxas de financiamento), fica mais difícil não apenas tomar crédito como, principalmente, pagá-las depois do vencimento. A boa notícia é que a inflação em ritmo mais lento pode ajudar a equilibrar as coisas, já que, com o desemprego em baixa histórica, existe a chance de a massa de renda permitir fôlego nas contas.”
Fonte: Diário do Comércio – Imagem: Freepik (https://dcomercio.com.br/publicacao/s/inadimplencia-avanca-entre-as-familias-paulistanas-em-agosto)