“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

Chegada de chinesas redefine estratégia do setor automotivo brasileiro

Para aproveitarem melhor as oportunidades, empresas terão de disputar não somente o mercado como também investimentos

21/05/2026

Por Soraia Abreu Pedrozo

A chegada ao Brasil de um grande número de montadoras chinesas tem chacoalhado não só o mercado como também os planos de negócios de toda a cadeia produtiva. Além das transformações tecnológicas e energéticas em andamento, será preciso se preparar para atender às demandas delas conforme avancem para a produção local, em disputa, muitas vezes, com filiais da mesma empresa no país de origem.

Foi o que avaliaram o presidente da Anfavea, Igor Calvet, e a consultora Leticia Costa, integrante do conselho das empresas Auren Energia e Mobly e embaixadora da Endeavour Brasil, durante debate sobre as oportunidades para o Brasil com a mudança de rotas tecnológicas no Conexão Abipeças, na quarta-feira, 20.

“O que mais nos assusta é a rapidez desta mudança tecnológica e energética a cada dia, que é estrutural. Os ciclos de produção e investimento estão cada vez mais curtos”, assinalou Calvet, que também lembrou que há um ano o emplacamento de eletrificados representava 10% do mercado brasileiro e, hoje, é 18%.

O problema, segundo o dirigente da Anfavea, é que parte disso não é produzida no Brasil: “No primeiro quadrimestre houve alta de 15% nas vendas totais, só que a produção cresceu 4,9% no período, ou seja, o mercado não está sendo capturado pela produção”.

Ele ressaltou que, só no caso de fabricantes de veículos leves, onze marcas chinesas estão chegando ao País.

Costa avaliou que não se trata de mudança estrutural, mas de um ponto de inflexão, e que reflete o encarecimento do carro, que desde a pandemia vem sofrendo com maior inflação: em alguns casos o preço subiu 50% nos últimos dois anos. 

“Hoje é preciso, portanto, brigar não somente por participação de mercado mas, também, por investimentos”, afirmou a consultora. “Como o carro tornou-se computador sobre rodas é preciso trazer para dentro da fábrica o desenvolvimento dos softwares em vez de importar esta capacidade. Para tanto é preciso fazer alianças com outras empresas, olhando a indústria de forma mais ampla.”

Adequação à toda a cadeia é inevitável

Costa avaliou que será inevitável à cadeia de suprimentos adequar-se: “Queremos apenas montar baterias ou agregar tecnologias? Não acho que o caminho seja começar do zero, até porque a China faz isso muito bem hoje, e a preços competitivos, mas aderir a um processo de transferência de tecnologia, exatamente como os chineses fizeram”, disse, ao destacar que o Brasil tem tudo a favor do baixo carbono. “Se não fizermos nada corremos o risco de nos tornarmos uma indústria que só monta kits, mas isto pode ser evitado.” 

Com a entrada dos carros chineses, segundo ela, o consumidor vai se tornando mais exigente e, se montadoras locais e a indústria de autopeças não reagirem de forma adequada, ambas correm o risco de “definhar em uma morte lenta”.

Invasão chinesa estimulará fusões

Com a tendência da China de verticalizar sua produção Costa acredita que veremos muitos movimentos de fusões e aquisições e de reposicionamentos estratégicos. “Mas não se trata de mudança estrutural: é um novo jogo”. 

Calvet assinalou que a China tem pressa em nacionalizar por causa de questões tributárias, e que isto abre janela de oportunidades para o Brasil. Reessaltou, contudo, que os novos fabricantes estrangeiros são extremamente rigorosos. Sobre o destino de novos investimentos ponderou que, diferentemente do início do século, quando foi consolidado o motor flex e todos os recursos externos eram dedicados a ele, hoje há diversas vertentes tecnológicas – e há que se pensar onde e como o dinheiro será aportado.

“Dada a rapidez dessa transição talvez o Mover esteja ficando para trás, pois precisamos de atualizações e dinâmica para lidar com este cenário”, notou Igor Calvet. “Talvez também estejamos chegando no momento em que a visão do Inovar Auto tenha de voltar um pouco para consolidarmos nossa indústria e a inovação tecnológica.”

Ele recordou que, por exemplo, nem a discussão em torno da inteligência artificial ainda começou a ser feita de maneira estruturada.

Brasil tem como vantagem indústria de baixo carbono estabelecida

O mais importante, para ele, é que o Brasil já conta com indústria de baixo carbono estabelecida. O País usufrui de posição estratégica, uma vez que abriga a segunda maior reserva de terras raras do mundo e a primeira de nióbio. A exploração ainda é baixa mas é algo que considerar na transição energética:

Sobre onde investir os novos recursos das matrizes, considerando as diretrizes energéticas e tecnológicas, para Costa o que faz sentido para o Brasil é o híbrido flex, mais que os elétricos. De toda forma ela acredita que “regras do passado não funcionam no futuro” e que “o pensamento ficará mais estratégico e, sendo assim, apostas terão de ser feitas.” A inevitável consequência, avaliou, “é que muitas empresas ficarão pelo caminho”.

Fonte: AutoData

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