“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

Brasil tem 4,3 milhões de empreendedores 60+, que trazem ensinamentos preciosos

Este é o caso de Wagner Navarro Lima (foto), 66 anos, que, depois de se aposentar, comprou do sogro uma banca de jornal no Centro de SP

07/08/2026

Por Melina Dias

O Brasil avança para ser o quinto país com a maior população de pessoas com 60 anos ou mais até 2030 e, naturalmente, isso acarreta uma transformação econômica: 4,3 milhões de brasileiros nessa faixa etária comandam seus próprios negócios.

Impulsionado pela longevidade crescente e pelos avanços em saúde, o empreendedorismo sênior chama atenção. Pela primeira vez, dados de 2025 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) indicam que 63% dos seniores entre 65 e 74 anos empreendem por “oportunidade e não por necessidade”. Mas será que é essa a realidade de quem está aposentado e precisa continuar mantendo uma rotina de trabalho para garantir a dignidade?

A “revolução prateada” no empreendedorismo brasileiro é divulgada como uma quebra de paradigmas sobre a capacidade produtiva na maturidade. Embora o número de donos de negócios com 60 anos ou mais tenha crescido 53% entre 2012 e 2024, segundo a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, principal investigação do IBGE sobre o mercado de trabalho e as condições de vida no Brasil), nessa escolha existem tanto necessidades individuais e familiares, como preconceito e etarismo, que associam inovação e agilidade somente aos jovens.

Diário do Comércio ouviu empreendedores (ou futuros) de diversos perfis. Wagner Navarro Lima, 66 anos, trabalhou por 30 anos como analista de sistemas em empresas de diversos portes e está há 25 anos tocando seu negócio, uma banca de jornal, que comprou do sogro, situada no Centro Histórico de São Paulo. “Sei fazer contas, então até me aposentei bem, mas, com gastos com os estudos de dois filhos universitários, ficou inviável não ter uma renda a mais”, conta. Ele planeja “sossegar em breve”, assim que essa responsabilidade acabar.

Luiz Fernando Farago, 64 anos, engenheiro mecânico atualmente na ativa em uma empresa paulistana, já projeta empreender assim que conseguir se aposentar. “Fiz curso no Sebrae e fiquei encantado. Não acho que tenha tino para negócio, mas conto com minha esposa, que atua com Comércio Exterior, para juntos pensarmos em um modelo de oportunidade”, afirma.

Já Pierre Sfeir, 69 anos, proprietário da Festas & Fantasias, especializada no atacado e varejo de artigos carnavalescos e para festas, localizada na Ladeira Porto Geral, no Centro de São Paulo, não pensa em se aposentar. “Aqui me sinto bem e ativo mental e fisicamente. A pandemia me provou que não consigo ficar em casa comendo, bebendo e vendo TV. Foi um trauma”, lembra. Ele divide a gestão do negócio com a esposa de 63 anos e o filho de 32, que é engenheiro de produção. Os dois estão na ponta fabril do empreendimento.

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A CEO da startup Vivmais, Silvia Scagliarini, também 60+, uniu sua bagagem profissional e de vida para fundar um negócio voltado aos cuidados para longevos usando a tecnologia. É um mix de aplicativo com cuidados presenciais ou online. “Na prática, desenvolvemos uma plataforma digital que conecta pessoas longevas e suas famílias a profissionais qualificados para apoiar atividades do dia a dia, de uma consulta médica a um passeio”, exemplifica.

“Não tenham medo de mudar de caminho, de aprender uma nova profissão, de empreender ou de realizar um sonho antigo. A experiência que acumulamos ao longo da vida é um patrimônio que ninguém pode tirar da gente. Quando ela se une à vontade de continuar aprendendo, surgem novas oportunidades, novos projetos e novos sonhos”, afirma.

Pierre Sfeir, 69 anos, proprietário da Festas & Fantasias: “A pandemia me provou que não consigo ficar em casa comendo, bebendo e vendo TV. Foi um trauma”

Autoetarismo – “Um dos maiores desafios é o autoetarismo: achar que você não tem mais condições de produzir. Nosso trabalho é mostrar que a pessoa continua ativa, capaz de tocar um negócio”, afirma Gilvany Theodoroviz Isaac, gestora da pauta Futuridade 60+ do Sebrae. A especialista destaca ainda duas características desse empreendedor: a experiência profissional e a busca por negócios com um propósito com o qual se conecte. 

E eles também trazem rede de contatos e capacidade de planejamento. “O empreendedor sênior costuma ter mais concentração, menos distrações e consegue produzir mais dedicando menos horas ao negócio em comparação aos jovens”, explica Theodoroviz.

O atendimento humanizado é outro diferencial. Paciência, empatia, escuta ativa e preferência pelo presencial são características desenvolvidas ao longo da vida profissional e ajudam a construir relações de confiança.

Oportunidade X necessidade – Ainda segundo a mais recente edição da GEM, os donos de pequenos negócios com idade entre 65 e 74 anos empreendem mais por oportunidade do que por necessidade no Brasil. É a primeira vez que essa faixa etária foi incluída na GEM, cuja série histórica começou em 2001.

“Foi preciso inserir empreendedores ainda mais seniores neste ciclo de 2025 da pesquisa, pois essa fatia da população está cada vez mais ativa e voltando em peso ao mercado de trabalho”, afirma o presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares. A pesquisa é aplicada no país pelo Sebrae em parceria com a Associação Nacional de Estudos de Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (Anegepe).

A entrada dos empreendedores de 65 a 74 anos no levantamento traz um contraste na comparação com os empresários da faixa anterior, de 55 a 64 anos. No grupo com idade mais avançada, a proporção do empreendedorismo por oportunidade chega a quase 63%, sendo que a necessidade é motivo para apenas 32,5% dos seniores. Ou seja, a cada 190 que empreendem por oportunidade, 100 empreendedores iniciam os negócios por necessidade.

O resultado é o mesmo entre os empreendedores mais jovens, entre 18 e 34 anos, que também empreendem mais por oportunidade do que por necessidade. Na faixa etária de 35 a 54 anos, ainda que em proporção menor, também prevalece o empreendedorismo inicial por oportunidade (52%).

Por outro lado, na fatia de empresários entre 55 e 64 anos predomina a motivação por necessidade (53,3%), enquanto 42,3% empreendem por oportunidade. Portanto, para cada 80 empreendedores iniciais de 55 a 64 anos que empreendem por oportunidade, há 100 que o fazem motivados por necessidade.

Nesse contexto, observa-se uma queda de quase 21 pontos percentuais (p.p.) na motivação por necessidade dos empreendedores de 55 a 64 anos quando comparados com os da faixa de 65 a 74 anos.

Sobre a GEM

A GEM é considerada a maior pesquisa sobre empreendedorismo no mundo e é feita, no Brasil, pelo Sebrae em parceria com a Associação Nacional de Estudos e Pesquisas em Empreendedorismo (Anegepe).

A pesquisa GEM vem sendo realizada no Brasil anualmente, de forma ininterrupta, desde o ano 2000, como parte de um projeto internacional que já envolveu mais de 100 países ao longo dos anos. No Brasil, passou a contar, desde 2001, com o apoio do Sebrae.

Raio-X do empreendedorismo sênior – dados de 2024

4,3 milhões: recorde no número absoluto de empreendedores seniores em 2024;

14,3%: maior percentual já contabilizado entre os donos de pequenos negócios;

29,9%: percentual de mulheres no universo de donos de negócio seniores;

+2,1 p.p.: crescimento da participação negra entre os empreendedores seniores;

–22,2 p.p.: redução entre os empreendedores seniores que não completaram o ensino fundamental ou são sem instrução em relação a 2012;

+10,4 p.p.: aumento na proporção de empreendedores seniores com ensino médio (em relação a 2012);

+8,3 p.p.: aumento na proporção dos empreendedores seniores que possuem ensino superior incompleto ou mais (em relação a 2012);

+1,7 p.p.: aumento no percentual de Seniores DN com registro de CNPJ entre 2015 e 2024.

Fonte: Diário do Comércio – Imagem: Kiko F./DC (https://dcomercio.com.br/publicacao/s/brasil-tem-4-3-milhoes-de-empreendedores-60-que-trazem-ensinamentos-preciosos)

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