“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

Varejos e oficinas têm a mesma urgência: ganhar velocidade sem perder conhecimento

Digitalização, atendimento consultivo, qualificação profissional e direito à reparação definem competitividade nos segmentos de varejo e reparação

27/10/2026

Por Cláudio Milan

O avanço da digitalização, a evolução tecnológica dos veículos e a escassez de mão de obra qualificada foram os temas centrais do painel “Varejo & Aplicador”, durante o Seminário da Reposição Automotiva.

A edição 2026 do evento realizado pela Photon e apoiado pelas principais entidades de representação do Aftermarket Automotivo aconteceu no dia 6 de outubro na sede da Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Mais uma vez, o seminário reuniu lideranças, empresários, profissionais e formadores de opinião para debater temas de relevância para a reposição independente brasileira. O evento contou, também, com uma breve participação do presidente da FIesp, Paulo Skaf, que falou sobre os serviços que a entidade oferece às empresas e à sociedade e traçou uma perspectiva favorável para o Brasil em 2027.

O painel dedicado ao varejo e à reparação mostrou que a loja física de autopeças segue relevante, mas não isolada. Sua força está na proximidade, no atendimento técnico, na entrega rápida, na garantia e na confiança. O digital, por sua vez, já se tornou indispensável para cotação, velocidade e comparação de marcas.

Do lado das oficinas, a pressão é por produtividade. Diagnóstico, orçamento, compra de peças, execução do serviço e garantia precisam acontecer em menos tempo, com mais tecnologia e mais responsabilidade técnica. A evolução dos veículos amplia a exigência de capacitação e reforça a importância do acesso à informação técnica.

A principal convergência do painel foi a escassez de mão de obra. Autopeças, oficinas e escolas técnicas enfrentam o mesmo desafio: atrair jovens, formar profissionais, aproximar empresários do SENAI e criar pontes entre educação, mercado e indústria.

Veja a seguir um resumo do debate.

PARTICIPANTES

Antônio Fiola

Empresário e presidente do Sindirepa SP

Cae Marques

Diretor da Oficina Marques & Marques

Durval Pinheiro

Diretor do SENAI Ipiranga Automobilística

Professor Scopino

Sócio e responsável técnico da Scopino Auto Club

Carlos Gomes de Moraes

Diretor da Carbwel Auto Peças

Antônio Fiola – O varejo físico ainda possui vantagem competitiva ou o canal digital já virou o jogo?

Carlos Gomes de Moraes – Os dois andam juntos. O digital tem várias vantagens. Hoje, o consumidor vai à internet, tem respostas rápidas, consegue as coisas rapidamente. Só que muitos anúncios, muitas descrições que estão lá fazem o cliente comprar errado. No nosso mercado, isso é muito complicado, porque peça na internet é uma coisa difícil. As peças mais complicadas de comprar ainda levam o cliente para a loja. Então, o varejo físico vai continuar. Nós atendemos muitas mecânicas da região e temos um varejo de peças muito grande no Brasil. Vai continuar vendendo, vai continuar existindo. O físico e o digital vão andar juntos.

Antônio Fiola – Eu ainda gosto do varejo físico. Como você vê essa relação entre oficina, varejo físico e digital?

Professor Scopino – Eu entendo que tempo, no Brasil e no mundo, cada vez mais é dinheiro. Na minha oficina, há um ano, para terminar um orçamento de itens básicos, o orçamentista demorava pelo menos 15 minutos. Hoje, a nossa briga é fazer o orçamento completo em menos de 7 minutos. A evolução da cotação, de encontrar a peça rápido, identificar o carro pela placa e já puxar o chassi, tudo isso mostra que estamos avançando em velocidade. Eu entendo que o varejo é fundamental no setor. Fundamental mesmo. Pela proximidade, pela garantia e pela rapidez. O canal digital agiliza bastante, principalmente para cotações e facilidade de compra. O que eu mais uso hoje na oficina são plataformas de compra de peças, especialmente para montar orçamento rápido. Quando mando mensagem para o varejo ou para o distribuidor, ele vai me oferecer a embreagem que ele trabalha. Só aquela. Quando faço a cotação em uma plataforma digital, encontro a peça da marca que eu quero usar. Para mim, o que importa é a marca que eu escolho. A peça que eu instalo é a minha responsabilidade. Por isso, não importa se é marca própria do varejo ou do distribuidor. Se o distribuidor não fabrica, ele só embala. E pode embalar coisa boa ou coisa ruim. Eu não uso mais peça de marca própria e recomendo que a oficina tenha cuidado com isso.

Antônio Fiola – Preço ainda é o mais importante no atendimento técnico do seu cliente?

Carlos Gomes de Moraes – É um conjunto de coisas. O preço faz parte, claro. Mas junto com ele vêm atendimento, entrega rápida, pós-venda, garantia, confiança do consumidor e confiança do mecânico com a loja. Então, é um conjunto. O preço vem junto, mas não é o mais importante.

Antônio Fiola – Existe uma diferença entre funilaria e mecânica. Na funilaria, você vende a peça para depois comprar. Na mecânica, compra para depois vender. Na sua oficina, o maior problema é preço, entrega ou qualidade?

Cae Marques – O preço pesa muito forte. O cliente atende a seguradora, tem a peça original e isso impacta completamente o preço final. Mas a questão do espaço físico e da operação também é muito forte. Eu chego a ter 90 carros de serviço diariamente. Então, a peça precisa chegar muito rápido. E a qualidade dessas peças hoje tem sido um grande problema na funilaria.

se precisar (tenho fotos também dos outros participantes—

Foto: Marcelo Moscardi / Divulgação

Legenda:  Antonio Fiola foi o mediador do debate 

Antônio Fiola – Professor Durval, como o SENAI está se preparando para as novas tecnologias, carros elétricos e híbridos? Como você vê o futuro próximo?

Durval Pinheiro – Além das ferramentas que o próprio SENAI provê para nós em termos de inteligência de mercado, eu costumo dizer que é um processo de aprender para ensinar. Estamos constantemente aprendendo, participando de fóruns como este, entendendo o que a indústria de reparação e manutenção automotiva precisa. Na eletrificação veicular, é preciso dominar a tecnologia. Temos curso que ensina toda a arquitetura de alta tensão do veículo, curso de diagnóstico e manutenção de baterias de alta tensão. E, falando em diagnóstico, o código de falha que o scanner apresenta é só a informação final do trabalho. Por trás daquilo existe um diagnóstico que muitas vezes envolve vários componentes. Se o mecânico não está preparado para seguir aquela árvore de falha, entender o que o código determina, trocar os componentes corretos e depois configurar tudo, ele não consegue fazer o reparo. E isso fica ainda mais forte com o que está sendo chamado de SDV, o software-defined vehicle, o veículo definido por software. Cada vez mais, os carros têm software. Em alguns casos, o reparo será apenas uma atualização. Nosso trabalho é aprender para ensinar. Entender o que o setor precisa e estudar o que está vindo de todos os lados – americanos, europeus, asiáticos, chineses – antes que vocês tenham a necessidade e antes que as oficinas passem dificuldade.

Antônio Fiola – Isso entra na questão do Right to Repair. Como é a relação da montadora com a escola nessa parte de informação?

Durval Pinheiro – Nós temos várias academias de montadoras no SENAI Ipiranga Automobilística. Para os concessionários, elas dão acesso às suas ferramentas e aos seus scanners. Para o aftermarket independente, para a oficina independente, o caminho hoje passa por empresas que produzem ferramentas, por exemplo, de ADAS, que têm licença para permitir ao reparador independente acessar a configuração do veículo e configurar câmera, radar e lidar. Também há grandes plataformas que fornecem dados técnicos do veículo. Mas, efetivamente, a melhor solução é fazer como Estados Unidos e Europa e ter o direito de reparo no Brasil. Faço votos de que essa lei seja aprovada, porque será positiva para o cliente e para a indústria de reparação automotiva. Em um estudo que fizemos, estimamos que, com a aprovação da lei do direito de reparo, o volume de passagens na reparação automotiva pode aumentar em 30%. Isso também puxa uma necessidade de 40% a mais de mecânicos. Portanto, não é só o volume de profissionais que vai aumentar; a necessidade de capacitação também cresce.

Professor Scopino – Para quem não sabe, esse movimento do Right to Repair não é nada de graça. A gente quer, literalmente, pagar para poder fazer o serviço conforme a montadora preconiza. Porque nem isso a gente pode. Nem pagando a gente consegue fazer uma atualização de software de forma original. Claro, existem alguns caminhos alternativos. Mas se alguém ajusta um ADAS por um caminho ilegal, vai apagar a luz, o carro vai ter o ADAS, mas se uma criança morre atropelada, eu quero ver quem atualizou isso. Qual foi o caminho seguido? Qual oficina fez? Porque vai aparecer a oficina.

Então, a situação pode ser muito crítica. A gente quer o direito de reparar exatamente para isso. O mercado está mudando. Hoje já há carros em que o manual de reparo, o esquema elétrico, o código da peça, recall e programação estão na própria tela multimídia. Isso tende a mudar muito com o tempo.

Antônio Fiola – Cae, você já atendeu elétricos e híbridos na oficina? Qual é o maior desafio?

Cae Marques – Hoje temos, em média, 20 veículos elétricos por mês. O maior desafio é a informação do veículo. A gente usa muito o SENAI. Os cursos do SENAI são fantásticos na parte de eletrificação. Fizemos todos os cursos lá. Na funilaria, um desafio será criar um modelo de checklist para atender o veículo elétrico. O sistema ADAS que o Scopino comentou também é um ponto importante. O simples fato de tirar um para-choque dentro da funilaria hoje já é um problema, porque o sistema registra no painel que aquilo foi retirado. Se houver um acidente, podemos ser responsáveis por aquilo. Então, precisamos investir muito em tecnologia, mas esbarramos na qualificação. É um trabalho que fazemos desde dezembro com o Durval, buscando informação. É um desafio grande para funilaria e pintura.

Antônio Fiola – Carlos, você já tem alguma peça para carro elétrico? Pretende investir nisso?

Carlos Gomes de Moraes – Sim, tenho. E já vendi. Filtro, cubo de roda. Também temos aditivo de radiador para híbridos. 

Antônio Fiola – Qual é a maior dificuldade hoje na sua oficina?

Professor Scopino – Tenho duas grandes dificuldades. A primeira é fazer orçamento cada vez em menos tempo. Isso é fundamental para ganhar produtividade. Eu falo muito de produtividade, de ter processo para tudo, de fazer bem feito no menor tempo possível, porque a mão de obra está cada vez mais cara – e essa é a tendência. O carro parado no elevador é um grande prejuízo, um gargalo na oficina. Elevador é entrar e sair diariamente para ter produtividade. Na minha oficina, o mecânico não fica esperando o carro chegar. Temos estoque de serviço no carro. Também trabalho muito com auxiliares ao lado do mecânico. Os três auxiliares que temos vieram do SENAI Ipiranga. Eles trabalham junto com o mecânico experiente e tornam esse profissional mais produtivo. Eu não preciso arrumar 500 carros por mês. Posso arrumar 80 e ganhar muito bem, como se estivesse arrumando 500, se eu tornar o processo mais produtivo, mais rápido e captar melhor os clientes. Com a dificuldade de trocar de carro, muitos clientes que antes só iam à concessionária estão aparecendo nas oficinas independentes depois da garantia.

Antônio Fiola – E qual é o maior desafio da loja?

Carlos Gomes de Moraes – Mão de obra. Encontrar balconista, treinar, é muito difícil. Estou contratando estagiários. Eles trabalham um tempo, a gente vê quem se destaca e depois efetiva. O balconista na autopeças é fundamental.

Antônio Fiola – Cae, qual é a maior dificuldade?

Cae Marques – Mão de obra. A oficina não sofre com falta de serviço, mas sofre com falta de mão de obra. Às vezes olho minha oficina de cima e vejo que ela envelheceu.

Eu acho que também existe uma falha grave no fim do modelo antigo do menor aprendiz. Antes, alguém dizia: “coloca meu filho aí para aprender mecânica, lavar peça”. Eu mesmo tive meu primeiro registro muito cedo. Hoje isso ficou mais difícil.

Antônio Fiola – Professor Durval, qual é o maior desafio da escola?

Durval Pinheiro – O maior desafio da escola é justamente a falta de mão de obra de vocês. É atender à demanda do setor. Mas, olhando o outro lado do copo, o desafio é mostrar para o jovem ou para o talento de qualquer idade que vale a pena conhecer a profissão. O curso de Aprendizagem Industrial é gratuito, para jovens de 14 a 24 anos. O curso técnico não tem limite de idade. Em ambos, eles saem totalmente capazes, equivalentes a um mecânico pleno, depois de dois anos de curso. A diferença é que um é voltado ao jovem e o outro não tem limite de idade; o segundo é reconhecido pelo MEC. Nossa maior dificuldade é fazer essa transformação: mostrar para o jovem que ele pode vir conhecer. E está dando certo, porque a taxa de evasão é baixíssima, de 1% ou 2% por turma. Depois que o jovem ou o talento de qualquer idade conhece o curso, ele pega gosto pela profissão.

Carlos Gomes de Moraes – Empresários também precisam criar pontes com a formação. Alguns anos atrás, eu montei um projeto com a Maria, minha promotora. Ela tinha contato no SENAI e conseguimos vagas. Fomos a igrejas e comunidades perto da nossa região, na zona norte, e conseguimos alguns garotos. Eu pagava refeição e passagem para eles. De um grupo de 30, conseguimos formar 10. E esses 10 estão trabalhando hoje em mecânicas. Então depende de nós, de cada região, de cada local, fazer esse movimento. Tem muita gente que nem sabe que existe a escola e que o curso é gratuito. Basta o empresário localizar isso na sua região e montar um projeto.

Cae Marques – Quero falar da feira de empregabilidade do SENAI. Temos feito um trabalho fantástico com o Durval desde dezembro. Como o Carlinhos falou, precisamos de mais empresários e mais indústrias junto com a gente no SENAI.

Precisamos trazer ONGs, o SESI, as escolas públicas para dentro do SENAI. Conseguimos colocar 200 jovens em uma primeira feira. Nossa meta para o ano que vem é fazer três ou quatro feiras de empregabilidade para tentar sanar essa dor da falta de mão de obra. Mas precisamos do apoio da indústria, dos empresários e do sindicato.

Antonio Fiola – Como mostrar para a indústria de peças mecânicas que a funilaria também tem relevância no consumo desses componentes?

Cae Marques – A gente fala muito de funilaria e pintura, mas outro dia estávamos com uma indústria e alguém comentou que uma oficina boa de mecânica troca quatro sondas lambda por mês. Eu falei: “mas eu devo trocar umas 15”. Quando bate de frente, o radiador vai para trás e quebra muita coisa. A gente troca muito radiador, condensador, eletroventilador, peças de suspensão, itens da parte frontal, bomba d’água. O que a funilaria troca de peça mecânica é absurdo, e não temos o respaldo da indústria dentro das funilarias, nas visitas e nos eventos.

Participe da consulta pública do Right to Repair

Antes de iniciar as perguntas, Antonio Fiola chamou atenção para o movimento Right to Repair, ou direito de reparar, destacando que o Brasil é signatário da pauta e que há um projeto de lei sobre o tema em tramitação no Senado: PL nº 5.092/2026.

No seminário, foi exibido um vídeo mostrando o passo a passo para que todo o mercado possa participar e votar na consulta pública sobre o projeto. É importante o apoio de todos para que esta demanda fundamental para o Aftermarket Automotivo possa, finalmente, ser atendida.

O link direto da consulta pública no portal e-Cidadania do Senado é:

Consulta Pública — PL 5092/2026:
https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=175518

Fonte: Aftermarket Automotivo

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