Por Rebeca Ribeiro
Tem se tornado cada vez mais comum encontrar anúncios chamativos oferecendo aos empresários linhas de crédito que usam a conta de luz do estabelecimento ou até mesmo o celular corporativo como garantia. O que pode parecer uma alternativa atrativa diante das altas taxas de juros cobradas nos empréstimos tradicionais, também pode trazer riscos e transformar uma solução para o caixa da empresa em um problema financeiro.
Um dos principais riscos, caso o empresário não consiga honrar as parcelas dos empréstimos, é a paralisação da operação. Por exemplo: caso o empresário forneça o celular como garantia, o não pagamento significa a entrega do aparelho, fazendo com que esse empresário perca um instrumento de trabalho, usado muitas vezes para vender, conversar com os clientes e receber Pix.
Segundo Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), essa espécie de crédito acaba criando um ciclo perverso para o empreendedor. “A falta de dinheiro é uma problemática que afeta todo mundo, pequeno, médio e grande. Mas, para o pequeno, essa falta faz com que ele tome empréstimo que, normalmente, não consegue pagar. Aí ele perde a ferramenta de trabalho, ou seja, ele vende menos e ainda fica menos capaz de pagar”, diz o especialista.
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Uma das principais diferenças desses créditos é a associação com uma despesa essencial no dia a dia do empresário. Na visão de especialistas, essas linhas, por promoverem um acesso facilitado ao dinheiro, fazem com que o tomador subestime o risco da dívida.
Para Khatib, um dos principais cuidados que os empreendedores devem tomar ao adquirir um empréstimo é entender que esse dinheiro não faz parte da receita da empresa, pois trata-se de uma obrigação financeira que vai comprometer o fluxo de caixa no futuro. “Por isso, os empresários não devem se perguntar apenas ‘quanto eu consigo pegar emprestado’, mas sim, ‘quanto do meu fluxo de caixa futuro eu estou comprometendo para pegar esse dinheiro hoje’”, diz.
“Quando se coloca um empréstimo em conjunto com uma despesa essencial, como é o caso da conta de energia, é preciso tomar um cuidado adicional, porque, para muitos negócios, a energia é uma condição para continuar funcionando. Então, o principal risco é criar uma obrigação financeira que vai disputar o mesmo fluxo de caixa de uma despesa essencial”, diz Khatib.
Os empréstimos condicionados a despesas ou bens essenciais costumam ter juros mais altos devido ao alto risco para o credor e à facilitação do crédito para o empresário. De acordo com Khatib, empresários que costumam recorrer a esse tipo de empréstimo geralmente não conseguem acessar linhas de crédito tradicionais, que costumam ter juros menores, porque já possuem dívidas.
“Se o celular do empresário custa R$ 2.000, eu vou dar uma linha de crédito barata, porque eu não tenho interesse em ficar com esse celular caso ele não pague. Então, o risco é alto com o banco, que cobraria uma taxa maior. Agora, quando o empresário entrega uma casa como garantia, esse valor é maior e, portanto, o risco, teoricamente, com o banco é menor. Logo, é possível oferecer uma taxa melhor de juros”, explica Khatib.
Devido à sua alta taxa de juros, essas linhas de crédito só fazem sentido se forem usadas de forma pontual, para preencher uma necessidade que o empresário tem certeza de que irá conseguir recuperar. “Faz sentido se for algo pontual, mas o que vemos é que empréstimos de qualquer natureza têm se tornado cada vez mais recorrentes, e isso é muito prejudicial no longo prazo”, diz o especialista.
Acesso ao crédito
O crescimento dessas linhas alternativas está ligado à necessidade de empresários financiarem capital de giro, estoque e equipamentos, especialmente diante da dificuldade de acesso ao crédito tradicional para determinados perfis de empresas.
Leonardo Baldez Augusto, economista e fundador da ISF Crédito, explica que a maior quantidade de informações disponíveis também mudou a forma de avaliar uma empresa. Com a autorização do cliente, é possível analisar movimentações financeiras, recebimentos, pagamentos, operações de crédito e outros dados que ajudam a identificar a capacidade real do negócio. Segundo ele, uma pequena empresa pode não ter um imóvel para oferecer como garantia, mas apresentar faturamento recorrente, recebíveis consistentes e um bom histórico de pagamentos.
Esses modelos de crédito são frequentemente adotados por empresas novas, MEIs e empresas de pequeno porte, que possuem movimentação financeira, porém, não têm um amplo histórico bancário ou patrimônio para apresentar como garantia aos bancos tradicionais. Além disso, podem atrair negócios que recebem por cartão, Pix ou vendas a prazo e não conseguem demonstrar geração de receita por esse fluxo.
“Vejo isso como uma evolução quando se ampliam as opções para uma empresa saudável que antes tinha dificuldade para demonstrar sua capacidade de pagamento. O problema aparece quando uma nova modalidade é utilizada apenas para financiar um caixa que já está estruturalmente desequilibrado. Se a empresa toma crédito todos os meses apenas para pagar a parcela da dívida anterior ou para cobrir permanentemente as despesas básicas da operação, provavelmente já não estamos falando somente de dificuldade de acesso a financiamento”, diz Augusto.
Cuidados
A facilidade desse tipo de crédito, com acesso rápido e pouca burocracia, faz com que o empresário apenas analise a aprovação, sem considerar a qualidade da dívida. Por isso, além de comparar o tempo em que o dinheiro será liberado, é preciso considerar o custo efetivo total do crédito, o prazo, o valor final que será pago, a amortização, as garantias e como o dinheiro será usado dentro da empresa.
“Se vou comprar estoque para atender a uma demanda prevista, também consigo projetar de onde virá o recurso para pagar a dívida. O problema começa quando se contrata uma linha de curto prazo e custo elevado para financiar uma necessidade permanente do caixa. Quanto mais fácil fica contratar, maior precisa ser o cuidado para não transformar conveniência em endividamento”, explica Augusto.
Antes de oferecer um veículo, equipamento ou qualquer outro ativo da operação como garantia, é importante avaliar o efeito que a eventual perda desse bem poderia provocar no negócio. “Se o equipamento é essencial para produzir ou o celular é uma ferramenta indispensável para a atividade, o risco não é apenas patrimonial. Pode existir um efeito direto na operação. A garantia pode ajudar a estruturar o crédito, mas nunca deve substituir a análise da capacidade de pagamento”, diz o economista.
Segundo ele, a tendência para os próximos anos é que a análise de crédito fique menos dependente de patrimônio tradicional e considere mais os fluxos financeiros e os ativos existentes dentro da atividade empresarial. “Também acredito que veremos uma utilização maior de dados transacionais, histórico de pagamentos, faturamento digital, contratos recorrentes e outras informações capazes de mostrar como o negócio efetivamente funciona financeiramente. Isso não significa que qualquer conta ou equipamento vai se transformar em garantia”, diz Augusto.
Já Khatib destaca que, antes de submeter um negócio a qualquer linha de crédito, o empresário deve analisar o custo efetivo total, o que acontece caso haja atraso nas parcelas e depois de quanto tempo o negócio é considerado inadimplente. “Porque uma empresa considerada inadimplente pode ter dificuldade até mesmo para fornecer serviços a alguns clientes que exigem essa ficha limpa”, diz. Além disso, diz, o empresário também deve entender quais são as vantagens caso consiga antecipar alguma parcela do empréstimo antes de assinar o contrato.
Fonte: Diário do Comércio – Imagem: Magnific (https://dcomercio.com.br/publicacao/s/credito-facil-ajuda-o-caixa-mas-pode-virar-problema-para-o-pequeno-negocio)





























