Por Rebeca Ribeiro
As encomendas internacionais feitas por pessoas físicas dispararam após o governo federal derrubar a chamada taxa das blusinhas, imposto de 20% cobrado sobre compras de importados até US$ 50. Esse avanço começa a ser sentido por diferentes segmentos do varejo brasileiro.
Em junho, as remessas internacionais chegaram a 28,3 milhões, crescimento de 72% sobre abril, último mês com a taxa das blusinhas. Com relação a junho de 2025, quando foram registradas 13,2 milhões de encomendas, a alta foi de 118%. Os dados são da Receita Federal.
O fim da taxa das blusinhas aumenta a pressão sobre o varejo brasileiro, que já enfrenta um cenário de juros elevados. Para a indústria, especialmente para o setor de calçados, o desafio é ainda maior diante das novas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as exportações brasileiras.
“Não é apenas o setor de vestuário que tem sido atingido pelo fim da taxa das blusinhas; os setores de calçados, beleza e brinquedos também são. Os efeitos são amplos sobre o varejo brasileiro e, consequentemente, sobre a indústria”, diz Jorge Gonçalves, presidente do Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), em conversa com o Diário do Comércio em evento na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).
De acordo com Gonçalves, o setor produtivo tem acompanhado a entrada de pacotes internacionais e observou um aumento de quase US$ 1 bilhão no valor das vendas de produtos importados ao mercado brasileiro. Para o presidente do IDV, esse montante representa recursos que deixaram de circular no mercado interno. Além disso, ele afirma que já recebeu informações sobre queda nas vendas em alguns setores em razão do fim da taxação, o que pode resultar em perda de empregos.
“De janeiro a maio, o varejo registrou uma redução de 70 mil postos de trabalho, segundo dados do Caged. Se essa situação continuar, veremos uma queda ainda maior no emprego e nos investimentos. A insegurança jurídica sobre a possibilidade de a taxa voltar ou não inibe investimentos e pode, inclusive, ser prejudicial para o período eleitoral, ao contrário do que muitos pensam”, alerta Gonçalves.
O setor produtivo defende a isonomia tributária, com isenção de taxas para quem vende até R$ 250 no mercado interno, o que equivaleria aos US$ 50, ou a volta da taxação para compras internacionais. A expectativa do setor é de que a Medida Provisória nº 1.357/2026, editada pelo presidente Lula para zerar a taxa das blusinhas, perca a validade em 22 de setembro e não seja aprovada pelo Congresso Nacional.
‘País desprotecionista’
O fim da taxa das blusinhas tem forte impacto sobre os pequenos negócios, mas também afeta grandes varejistas, como a Riachuelo. Apesar do resultado recorde no segundo trimestre, quando a companhia registrou lucro líquido de R$ 167,9 milhões, alta de 36,2% na comparação com o mesmo período de 2025, o empresário Flávio Rocha, dono da varejista, disse ao Diário do Comércio na ACSP que a empresa tem percebido maior dificuldade nas vendas em razão do fim da taxação sobre compras internacionais.
Na visão de Rocha, é preciso que haja igualdade de condições competitivas entre as varejistas nacionais e as internacionais. “No setor têxtil, a competição com as plataformas digitais internacionais é altamente desigual. Nós nos transformamos no único país ‘desprotecionista’ do mundo, enquanto, em geral, os países protegem a geração de empregos internos, suas fábricas e suas lojas da concorrência predatória por meio de tarifas alfandegárias, que no setor têxtil é de cerca de 35%. Trata-se do segundo setor que mais gera empregos no país”, diz Rocha.
“Aqui, por uma barbeiragem inexplicável do governo, estamos fazendo com que uma peça produzida e transportada no Brasil pague cerca de 40% de imposto. Agora, se eu levar uma fábrica para o Paraguai ou para a China, consigo trazer essa mesma peça para o Brasil em uma situação de paraíso fiscal, com zero de imposto”, diz Rocha.
De acordo com o empresário, 25% do mercado têxtil já foi “abocanhado pela concorrência predatória das plataformas asiáticas” e essa participação tende a duplicar a cada ano, enfraquecendo o setor. Para Rocha, o fim da taxação é um “tiro no pé” e prejudica especialmente os pequenos negócios, que precisam lidar com o crescimento da concorrência.
Fonte: Diário do Comércio – Imagem: Freepik (https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/varejo-e-industria-sob-pressao-com-explosao-de-importados-apos-fim-da-taxa-das-blusinhas)
























