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Carros chineses reduzem preços de veículos novos e usados

Avanço dos veículos chineses no Brasil já começa a refletir nos preços de veículos novos e usados, mas ainda não de forma generalizada

05/08/2026

Por Karin Fuchs

Nas lojas, alguns modelos já são vendidos entre 15% e 20% abaixo da Tabela Fipe para evitar o acúmulo de estoque. A expectativa é de que esse movimento continue nos próximos meses e se intensifique no médio prazo, embora não atinja todos os segmentos do mercado

O avanço dos veículos chineses no Brasil já começa a refletir nos preços de veículos novos e usados, mas ainda não de forma generalizada. Segundo Sergio Sousa, diretor de Tecnologia da Infocar, “o impacto já é relevante, mas ainda não ocorre de maneira uniforme. Ele está mais concentrado nas categorias em que as marcas chinesas atuam de forma agressiva, especialmente SUVs, híbridos e veículos elétricos. A combinação de preços competitivos, elevado conteúdo tecnológico e campanhas promocionais no mercado de zero-quilômetro cria uma nova referência de preço para os seminovos equivalentes”, comentou.

Ele acrescentou que “não é adequado, porém, traduzir esse movimento em um único percentual para todo o mercado. O efeito varia conforme segmento, motorização, região, idade do veículo e liquidez de cada modelo. Nesse cenário, o acesso a dados veiculares atualizados torna-se essencial para acompanhar as oscilações, identificar tendências e apoiar uma precificação mais precisa dos estoques. Esse é um ponto especialmente relevante para os profissionais do setor”, afirmou.

Segundo Sergio Sousa, diretor de Tecnologia da Infocar e Frederico Zornig, CEO da Quantiz e especialista em precificação – Foto: Divulgação

Impacto nos preços

Quanto aos impactos dos veículos chineses sobre os preços dos seminovos e usados, Frederico Zornig, CEO da Quantiz e especialista em precificação, destacou que as marcas chinesas já respondem por 17% do mercado no primeiro semestre de 2026, com aproximadamente 141 mil emplacamentos, o dobro do registrado no mesmo período de 2025. “Essa participação foi suficiente para forçar reduções de preços de tabela, bônus na troca de usados e descontos agressivos nas concessionárias das marcas tradicionais, algo incomum no mercado brasileiro, historicamente marcado por reajustes acima da inflação”, explicou.

Segundo o executivo, “o efeito cascata chegou ao mercado de seminovos. Veículos passaram a ser negociados entre 15% e 20% abaixo da Tabela Fipe para evitar o acúmulo de estoque nas lojas. O tíquete médio, que saltou de R$ 72 mil em 2017 para mais de R$ 150 mil atualmente, ainda não recuou em termos nominais, mas o spread entre o preço de tabela e o preço efetivamente negociado aumentou significativamente. Com isso, o consumidor recuperou parte do poder de negociação perdido nos últimos anos”, afirmou.

Na avaliação de Frederico Zornig, esse comportamento deve permanecer por algum tempo e tende a se intensificar no médio prazo.

“Três razões sustentam essa visão. A primeira é que a verticalização da cadeia produtiva é uma das principais vantagens das fabricantes chinesas, que produzem baterias, semicondutores e eletrônicos embarcados, além de lançarem novos modelos e atualizações em um ritmo muito mais acelerado que as montadoras tradicionais. O segundo ponto é que o governo brasileiro sinalizou a manutenção da alíquota zero para importações CKD/SKD a partir de julho de 2026, ampliando o fluxo de veículos importados da China e favorecendo empresas que não enfrentam o chamado ‘Custo Brasil’. O terceiro fator é o crescimento acelerado dos eletrificados leves, que já somaram 80 mil unidades no primeiro trimestre de 2026, alta de 110% na comparação anual, alcançando participação de 15% nas vendas, segmento em que as marcas chinesas são protagonistas”, descreveu.

Segundo ele, o único fator capaz de alterar esse cenário seria uma reversão da política tarifária do governo federal. “Hoje isso parece politicamente improvável, mas seria uma forma de preservar empregos no Brasil e estimular que as marcas chinesas produzissem localmente, gerando investimentos, arrecadação e concorrendo em condições mais equilibradas com as demais fabricantes”, defendeu.

O consumidor e as marcas chinesas

Questionado sobre uma eventual resistência do consumidor brasileiro às marcas chinesas, Sergio Sousa afirmou que essa barreira diminuiu bastante. “Principalmente diante da evolução dos produtos, dos investimentos realizados pelas marcas no Brasil e da boa relação entre preço, tecnologia e equipamentos. Ainda assim, permanecem dúvidas importantes, sobretudo na compra de veículos eletrificados usados”, afirmou.

Segundo ele, entre as principais preocupações do consumidor estão a vida útil e o custo de substituição da bateria, autonomia real, infraestrutura de recarga, seguro, disponibilidade de peças, mão de obra especializada e valor de revenda. “Neste contexto, informações confiáveis sobre identificação, características, procedência e histórico do veículo tornam-se ainda mais importantes, pois reduzem a assimetria de informações entre vendedor e comprador”, comentou.

Ele acrescentou que, no caso dos eletrificados, o mercado ainda precisará evoluir na padronização de informações específicas, como a condição e a garantia das baterias. “Quanto maior a transparência e a qualidade dos dados disponíveis, maior tende a ser a confiança do consumidor e, consequentemente, a liquidez desses veículos no mercado de usados”, destacou.

Guerra de preços

Na avaliação de Frederico Zornig, se a guerra de preços continuar, a maioria das montadoras tradicionais não conseguirá sustentá-la sem uma ampla revisão de portfólio, processos e participação de mercado.

“Na minha opinião, elas nem deveriam tentar competir apenas por preço durante muito tempo. Disputar mercado com empresas que verticalizam praticamente toda a cadeia produtiva, como baterias, semicondutores e software, em um ambiente de custos significativamente menores, é uma batalha estruturalmente desfavorável para quem produz no Brasil sob elevada carga tributária”, analisou.

Segundo ele, as fabricantes que insistirem nessa estratégia recorrerão a medidas pouco sustentáveis, como compressão de margens, redução das margens das concessionárias e campanhas de descontos financiadas pela própria fábrica.

“O foco deveria estar na aceleração da eletrificação, no desenvolvimento de novos produtos e na busca por nichos em que as marcas chinesas ainda têm menor presença, como picapes, veículos flex e modelos de entrada. O CEO da Honda já admitiu publicamente que o ritmo das fabricantes chinesas é praticamente impossível de acompanhar com a estrutura atual”, mencionou.

Valor de mercado

Na visão de Sergio Sousa, a perda de valor dos veículos das marcas tradicionais não ocorre de forma generalizada. “A maior concorrência pode pressionar preços e margens, mas a preservação do valor depende de diversos fatores, como liquidez, reputação da marca, rede de concessionárias, disponibilidade e custo de peças, manutenção, seguro, histórico de confiabilidade e aceitação no mercado de usados”, explicou.

Segundo ele, a análise não pode se limitar à marca ou ao país de origem. “É necessário considerar o histórico do veículo e o comportamento específico de cada modelo no mercado. Na Infocar, entendemos que a ampliação da oferta de marcas, modelos e tecnologias aumenta ainda mais a necessidade de dados veiculares estruturados, atualizados e confiáveis. Essas informações são fundamentais para apoiar avaliações, análises de risco, precificação e decisões comerciais mais seguras em toda a cadeia automotiva”, afirmou.

Ainda de acordo com o executivo, modelos tradicionais e consolidados podem manter um bom valor residual mesmo diante de concorrentes chineses mais equipados. “Já os veículos com preço elevado, baixa renovação tecnológica ou pouca diferenciação tendem a sofrer maior pressão. Mais do que a origem do fabricante, são os dados e as características específicas de cada veículo que permitem avaliar seu valor de mercado com precisão”, ressaltou.

Nichos

Sergio Sousa afirmou que ainda existem segmentos em que as marcas tradicionais mantêm vantagem competitiva.

“Isso acontece, por exemplo, entre veículos de entrada a combustão, picapes, utilitários leves, modelos voltados ao trabalho e automóveis com grande presença em frotas”, disse.

Segundo ele, modelos com ampla rede de atendimento, maior oferta de peças e alta liquidez na revenda continuam apresentando vantagens competitivas.

“Em muitas cidades do interior, esses fatores pesam mais na decisão de compra do que conectividade ou quantidade de equipamentos. A análise por segmento, região e perfil de uso mostra que o mercado não é homogêneo. As marcas chinesas avançam rapidamente, mas a consolidação do pós-venda e a construção de um histórico de longo prazo ainda exigem tempo”, explicou.

Adaptação das montadoras tradicionais

Sobre a adaptação das montadoras tradicionais, Sergio Sousa afirmou que ela varia entre as fabricantes, mas três movimentos predominam.

Aceleração da eletrificação: “GM, Volkswagen, Fiat e Toyota anunciaram a antecipação de lançamentos de elétricos e híbridos no Brasil entre 2026 e 2027. Ainda assim, será necessário acelerar ainda mais o ritmo de inovação para competir com produtos que hoje despertam maior interesse desse novo perfil de consumidor”.

Reposicionamento para nichos menos expostos aos veículos chineses: “As montadoras podem priorizar segmentos nos quais os chineses ainda têm presença limitada, como utilitários pesados, picapes e hatches de entrada. Trata-se de escolher nichos específicos em vez de disputar diretamente segmentos onde os chineses ganham força, como os SUVs eletrificados”.

Revisão da estratégia das concessionárias: “Grupos tradicionais passaram a representar também marcas chinesas. Na prática, parte da rede física está sendo compartilhada com os próprios concorrentes. Para as montadoras tradicionais, esse é um importante sinal de alerta. Uma política de maior fortalecimento da parceria com concessionárias que optem por manter vínculos exclusivos pode ser um caminho”.

Para finalizar, Sergio Sousa ressaltou que as montadoras tradicionais vivem uma corrida contra o tempo.

“Quem não acelerar a renovação do portfólio, investir em eletrificação e fortalecer o relacionamento com concessionárias e clientes nos próximos três anos perderá participação de mercado de forma quase irrecuperável no Brasil”, concluiu.

Fonte: Balcão Automotivo

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