“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

Indústria de autopeças perde R$ 13 bilhões para o crime organizado

O prejuízo anual coloca o setor entre os dez mais impactados pelo comércio ilegal. A rastreabilidade desponta como um dos principais caminhos para enfrentar o problema

10/07/2026

Foto: IA/Chat GPT

Por Karin Fuchs

Na nova edição do Anuário da Falsificação, produzido pela Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), o Brasil registrou perdas de R$ 514 bilhões com o comércio ilegal em 2025, valor 8% superior ao de 2024. Trata-se de um recorde, composto por R$ 146,8 bilhões em perdas de arrecadação tributária e R$ 326,3 bilhões em perdas diretas das indústrias, referentes ao faturamento que deixou de ser realizado.

Convertido para dólares, o prejuízo cresceu 19%, passando de US$ 83 bilhões para US$ 102,8 bilhões, reflexo também da desvalorização do real ante o dólar entre 2024 e 2025.

O setor de autopeças permaneceu entre os dez mais prejudicados pelo comércio ilegal, ocupando a 7ª posição em 2025, com perdas estimadas em R$ 13 bilhões. O segmento aparece à frente de cigarros (R$ 10,5 bilhões), celulares (R$ 10,5 bilhões) e suplementos alimentares (R$ 10 bilhões). Os três setores mais afetados foram bebidas alcoólicas (R$ 89,5 bilhões), vestuário (R$ 55 bilhões) e combustíveis (R$ 30 bilhões).

Em entrevista ao Balcão Automotivo, Rodolpho Ramazzini, diretor da ABCF e advogado especializado no combate à fraude, analisa os principais desafios do País no enfrentamento ao mercado ilegal, explica por que as autopeças estão entre os alvos preferenciais do crime organizado e defende a rastreabilidade como uma das principais ferramentas para aumentar a segurança do consumidor e reduzir a circulação de produtos falsificados.

Segundo Ramazzini, o primeiro grande desafio é a dimensão territorial do Brasil, que possui mais de 16 mil quilômetros de fronteiras e apenas 28 postos de fiscalização. “Não se apreende nem 5% do volume total de mercadorias que entra no Brasil pelas fronteiras e pelos portos. Temos apenas 3.200 agentes na Receita Federal. Os bons profissionais fazem um trabalho extraordinário, apreendem cada vez mais mercadorias, mas falta estrutura e, principalmente, vontade política para enfrentar o problema de forma efetiva”.

Rodolpho Ramazzini, diretor da ABCF e advogado especializado no combate à fraude – Foto: Divulgação

Ele explica que o papel da ABCF não é substituir o Estado, mas fornecer inteligência às autoridades. “Nosso trabalho é produzir inteligência financiada pela indústria, oferecer suporte técnico e logístico às operações, acompanhar as apreensões até o fim e provocar outros órgãos públicos, como as polícias civis e as agências reguladoras, para atuarem no combate ao mercado ilegal”.

A entidade foi criada em 1992 por Fernando Ramazzini, considerado um dos pioneiros no combate à fraude e à falsificação no Brasil. Atualmente, reúne cerca de 70 indústrias de diversos segmentos e atua em parceria com órgãos públicos para denunciar produtos adulterados e organizações criminosas. “Ao longo desses 34 anos conseguimos retirar do mercado milhares de produtos extremamente perigosos. Nosso trabalho, somado às ações do Estado, ajuda a reduzir os impactos do crime organizado sobre a economia”.

Autopeças na mira do mercado ilegal

Quando o assunto é o setor de autopeças, Ramazzini afirma que ainda existe resistência por parte de algumas empresas em investir em inteligência. “Há indústrias que entendem a importância desse trabalho, mas outras acreditam que essa responsabilidade é apenas da Receita Federal. Muitas vezes só procuram ajuda quando o problema já está instalado”.

Outro fator que ampliou o desafio foi o crescimento do comércio eletrônico. “Antes da pandemia, o e-commerce representava cerca de 10% das vendas ao consumidor. Hoje esse percentual chega a 36%, e boa parte desse crescimento ocorreu justamente no aftermarket de autopeças”.

Sobre a origem dos produtos ilegais, ele afirma que as peças de maior complexidade tecnológica vêm, em sua maioria, da China, representando entre 65% e 70% do total. Os outros 30% a 35% são produzidos no Brasil ou no Paraguai. Segundo ele, a dinâmica da importação também mudou nos últimos anos. “Antes os produtos chegavam prontos, embalados. Hoje eles entram a granel, sem embalagem, acompanhados de declarações falsas de importação. Depois são embalados aqui no Brasil para parecerem produtos legítimos”.

Entre os itens mais falsificados estão rolamentos, lâmpadas automotivas, bicos injetores, velas, cabos de ignição, amortecedores, pastilhas de freio, para-brisas, filtros de óleo e retentores. “O mais preocupante é que muitos desses componentes estão diretamente ligados à segurança dos veículos”.

Na avaliação de Ramazzini, o problema vai muito além do comércio eletrônico. “A elevada carga tributária reduz a competitividade da indústria brasileira ante o produto chinês. Soma-se a isso a fragilidade das fronteiras, o crescimento do e-commerce e, em alguns casos, a falta de interesse de parte da indústria em investir no combate ao mercado ilegal”.

Ele destaca que algumas plataformas digitais já colaboram com as investigações, mas acredita que ainda há muito espaço para evoluir. “Estamos trabalhando junto ao Conselho Nacional de Combate à Pirataria para fortalecer a regulamentação das plataformas digitais, principalmente as estrangeiras”.

Rastreabilidade como ferramenta de combate

Para o diretor da ABCF, uma das soluções mais eficazes seria a implantação da rastreabilidade obrigatória nas autopeças por meio de um programa coordenado pelo Inmetro.

“As autopeças deveriam integrar esse sistema para reduzir a entrada de produtos ilegais e aumentar a segurança dos consumidores. Não basta apenas utilizar um QR Code. É preciso incorporar tecnologias de segurança que impeçam a clonagem das etiquetas e criar uma base pública de dados para que qualquer consumidor possa verificar a autenticidade do produto”.

Segundo ele, a tecnologia necessária já existe. “A Casa da Moeda dispõe dessa solução e ela já foi apresentada ao Governo. Enquanto não utilizarmos as ferramentas mais modernas disponíveis, continuaremos apenas combatendo as consequências, sem atacar a raiz do problema”.

Apesar do aumento nas apreensões, Ramazzini acredita que o crime organizado cresce em ritmo superior. “No ano passado realizamos mais de três denúncias por dia. Somente no setor de autopeças foram 219 operações de apreensão decorrentes de denúncias feitas pela ABCF. Fazemos tudo o que está ao nosso alcance, mas infelizmente não conseguimos acompanhar a velocidade de crescimento das organizações criminosas”.

Para ele, a situação resulta da combinação de diversos fatores. “A rastreabilidade ainda não foi implantada nos setores mais afetados, faltam agentes de fiscalização, persistem dificuldades estruturais e a indústria continua enfrentando aumento da carga tributária. Isso torna o produto nacional ainda menos competitivo diante da concorrência ilegal”.

Ramazzini também acredita que parte da indústria precisa assumir um papel mais ativo no enfrentamento ao problema. “Não basta esperar que a fiscalização aconteça apenas nos portos. Existem fronteiras terrestres, produção clandestina dentro do País, comércio eletrônico e até produtos recondicionados sendo vendidos como novos. Recondicionar um rolamento automotivo, por exemplo, representa um enorme risco para a segurança”.

Ele afirma que as empresas que investem em inteligência conseguem resultados concretos. “As indústrias que trabalham conosco costumam ampliar seu market share entre cinco e dez pontos percentuais ao ano, justamente porque recuperam espaço que antes era ocupado pelo mercado ilegal. O investimento retorna em forma de crescimento nas vendas”.

Por fim, Ramazzini revela que a ABCF trabalha para ampliar a participação do setor de autopeças nas ações de combate à falsificação. “Uma das diretoras de uma empresa associada está articulando a criação de uma câmara setorial para reunir mais fabricantes nessa iniciativa. Muitas vezes encontro produtos dos nossos associados durante as operações e consigo agir. Já os produtos de empresas que não participam da associação permanecem circulando no mercado. Isso realmente me preocupa”.

Fonte: Balcão Automotivo

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