“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

Francisco De La Tôrre reflete sobre o passado, o presente e o futuro do varejo de autopeças

‘Chico’ é o segundo presidente mais longevo da história de 85 anos do Sincopeças-SP e, em razão desta longa jornada, foi convidado para uma conversa com nossa reportagem

18/06/2026

De La Tôrre avalia que transformação tecnológica impõe constantes e maiores desafios

Por Lucas Torres

Nascido oficialmente em 1941, o Sincopeças-SP surgiu em um momento em que o mercado brasileiro de reposição automotiva ainda dava seus primeiros passos. Na sua gênese, estava a necessidade de reunir empresários em torno de pautas comuns e construir uma representação capaz de defender os interesses do comércio varejista de autopeças perante o poder público e a sociedade.

Ao longo das décadas seguintes, esse propósito se traduziu em uma série de conquistas institucionais e em uma capacidade constante de adaptação às transformações do setor. Afinal, nesse período, o aftermarket brasileiro atravessou ciclos econômicos distintos, mudanças regulatórias, avanços tecnológicos, novas dinâmicas de consumo e profundas alterações na forma como empresas, consumidores e fornecedores se relacionam.

Atualmente, a entidade que completou 85 anos no último mês de maio integra um dos movimentos mais emblemáticos da história recente do setor: a Aliança do Aftermarket Automotivo. Formada pelas principais entidades representativas da cadeia, a iniciativa simboliza um nível de articulação e cooperação que começou a ser construído há décadas e que hoje busca fortalecer ainda mais a representatividade do aftermarket brasileiro.

Para entender como o Sincopeças-SP chegou a esse momento e quais foram as principais transformações vivenciadas ao longo de sua trajetória, o Novo Varejo Automotivo entrevistou Francisco De La Tôrre, presidente da entidade entre 2008 e 2021. Com 13 anos à frente da organização, ele se tornou o segundo presidente mais longevo da história do sindicato, atrás apenas de Luciano Figliolia, que ocupou o cargo por 21 anos, e foi personagem de nossa entrevista na edição 119.

Na conversa exclusiva, De La Tôrre refletiu sobre a evolução do varejo de autopeças, os impactos da digitalização sobre o setor, a importância das entidades representativas para o desenvolvimento do aftermarket e o processo de construção institucional que culminou na união oficial do setor com a ‘Aliança’.

Novo Varejo – O senhor presidiu o Sincopeças-SP por 13 anos e acompanhou períodos muito distintos da economia brasileira, incluindo crises econômicas, transformações tecnológicas e a pandemia. Ao olhar para esse período, quais foram as mudanças mais significativas que o senhor observou no varejo de autopeças?

Francisco De La Tôrre – Cenários econômicos desafiadores sempre acompanham o nosso país e as empresas têm que ter muita criatividade e resiliência para atravessá-los. Porém, nesse período, sem dúvida, a tecnologia foi o que trouxe o maior impacto para todos. A mudança da informatização para a digitalização impôs uma mudança de cultura, processos e gestão. Se no modelo anterior o varejista atuava basicamente no seu entorno, mapeando a frota, a situação socioeconômica de seus possíveis clientes, com a digitalização o seu alcance é exponencialmente maior. Isso traz desafios novos, logísticos, de comunicação, gestão, processos internos e etc. E o mais impactante é que a transformação tecnológica dos próximos 10 anos será mais profunda que a transformação dos últimos 100, o que impõe constantes e maiores desafios.

Novo Varejo – O aftermarket automotivo de hoje é bastante diferente daquele que o senhor encontrou ao assumir a presidência da entidade. Em sua visão, quais foram as principais transformações na relação entre varejistas, distribuidores, fabricantes e consumidores ao longo dessas últimas décadas?

Francisco De La Tôrre – Nosso mercado caracteriza-se por oferecer principalmente produtos de demanda inelástica. Portanto, o que nos move é a demanda. Para que tenhamos uma resposta rápida e eficiente, é necessário bom fluxo das informações entre toda a cadeia. E isso é facilitado pela tecnologia e a relação de confiança entre os elos. Essas coisas são trabalhadas entre as empresas e as entidades e, quando olho através de um longo período, vejo que avançamos muito.

Novo Varejo – Ao longo dos seus 85 anos de história, o Sincopeças-SP se consolidou como uma das principais entidades representativas do aftermarket brasileiro. Na sua avaliação, qual foi o principal papel desempenhado pela entidade nesse processo de fortalecimento do varejo de autopeças?

Francisco De La Tôrre – O arcabouço legal do sistema sindical brasileiro foi criado durante o Estado Novo com Getúlio Vargas, baseado no modelo trabalhista italiano. De lá para os dias de hoje, a sociedade e o mundo mudaram muito, o que exigiu trabalho e dedicação das entidades. O Sincopeças-SP, entidade representante do varejo de autopeças no estado de São Paulo, chega forte exatamente por ter acompanhado essas transformações. Ela esteve presente nos momentos mais delicados, atuando na esfera legislativa, interferindo na aprovação de leis de interesse do nosso aftermarket; no executivo, junto às secretarias e ministérios e, quando necessário, no judiciário, buscando entendimentos que nos deem segurança para o desenvolvimento das empresas.

Novo Varejo – Muito se fala sobre o papel das entidades na modernização e no desenvolvimento dos setores que representam. Você vê no Sincopeças-SP essa missão de levantar pautas que nem sempre já estão no radar do empresário?

Francisco De La Tôrre – Minha visão é a oposta, pois é a experiência do empresário que traz a sensibilidade para a entidade atuar. Afinal, é na empresa que nascem as demandas.

Novo Varejo – Recentemente, o Sincopeças-SP passou a integrar a Aliança do Aftermarket Automotivo ao lado de outras importantes entidades do setor. Como o senhor avalia esse movimento? A cooperação entre as diferentes lideranças e organizações do aftermarket é algo que evoluiu ao longo dos anos ou já fazia parte informal da cultura do setor quando o senhor iniciou sua atuação?

Francisco De La Tôrre – A Aliança do Aftermarket Automotivo é fruto de décadas de trabalho do setor. Isso é reflexo do amadurecimento. Quando iniciei minha colaboração no Sincopeças-SP, em 1992, havia iniciativas entre as entidades para o desenvolvimento e representação junto à sociedade e ao poder público. Criação de uma entidade que representa todo o aftermarket é o resultado. A Aliança é um exemplo. Sua construção foi feita garantindo interesses, inclusive aqueles que são exclusivamente do varejo.

Novo Varejo – A história do Sincopeças-SP é marcada pela formação de lideranças que permanecem contribuindo para a entidade por décadas. O atual presidente, Heber Carvalho, por exemplo, participou da entidade durante sua gestão. Que importância o senhor atribui a essa continuidade institucional e à formação de novas lideranças para a longevidade da organização?

Francisco De La Tôrre – Antes de assumir a presidência, fui vice-presidente do meu antecessor, o Luciano Figliolia. Em 2008, assumi a presidência e entendemos que o atual presidente, Heber Carvalho, seria o sucessor natural. Esse processo, já incorporado na cultura da entidade, permite segurança na rota das ações estratégicas, pois estas necessitam de um bom tempo para implementá-las.

Novo Varejo – O Brasil ainda convive com percepções bastante distintas sobre o papel das entidades sindicais e representativas. Como alguém que conhece essa realidade por diferentes perspectivas, qual o papel que organizações como o Sincopeças-SP desempenham para empresas, empresários e para o próprio desenvolvimento do setor?

Francisco De La Tôrre – Numa sociedade democrática, é necessário a atuação em várias esferas de representação para que os grupos de interesse possam ser ouvidos e atendidos nas suas necessidades. O Sincopeças-SP é a entidade reconhecida perante o poder público e a sociedade para levar essas necessidades do varejo de autopeças. Embora reconheça que há necessidade de atualizarmos esse modelo e para fazê-lo é necessário um grande esforço do Congresso, ainda é o Sincopeças-SP que pode fazer essa interlocução. Por isso, a participação dos empresários do setor nesta entidade é fundamental para que ela tenha força, que ela tenha voz e que os empresários, através dela, possam pressionar o Congresso a fazer tais mudanças.

Heber destaca papel da entidade diante dos novos desafios
como marketplaces e fluidez da cadeia de consumo

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