Por Karin Fuchs
Segundo dados do Sindipeças, em 2024, a idade média da frota de automóveis era de 11 anos e 7 meses, dez anos antes era de 8 anos e 7 meses. No mesmo período de análise, a idade média dos comerciais leves, ônibus e caminhões também subiu. No caso dos comerciais leves passou de 7 anos para 8 anos e 9 meses, dos ônibus subiu de 8 anos e 9 meses para 11 anos e 3 meses e dos caminhões passou de 9 anos e 6 meses para 12 anos e 2 meses. Um potencial para o mercado de peças remanufaturadas.
“Ao considerar que a idade média das frotas de automóveis, ônibus e caminhões é superior a 10 anos, aumenta a importância dos proprietários e responsáveis pelo gerenciamento da frota estarem atentos à manutenção dos veículos, o que por consequência aumenta a demanda por peças de reposição”, afirmou Guilherme Porazza Dias, gerente de Mobilidade na TÜV Rheinland Brasil, uma das principais fornecedoras de serviços de testes e inspeções do mundo. Confira a entrevista completa!
Balcão Automotivo – O quanto o envelhecimento da frota impulsiona o mercado de peças remanufaturadas?
Guilherme Porazza Dias – O envelhecimento da frota é um dos fatores que leva ao desenvolvimento do mercado de peças remanufaturadas. Ao considerarmos que, segundo levantamento do Sindipeças, a idade média da frota de automóveis, ônibus e caminhões subiu no período de 2014 a 2024 e todos os tipos de veículos já têm idade média superior a 10 anos aumenta a necessidade de manutenções preventivas e corretivas. Mas há também outros fatores como a preocupação da cadeia produtiva em reduzir o impacto ambiental da sua atividade e do consumidor em adquirir produtos mais sustentáveis, mantendo a segurança e a qualidade de uma peça nova, mas custando cerca de 30% menos e gerando menor impacto ambiental.

BA – Peças remanufaturadas é um movimento global e o que temos visto no Brasil são empresas investindo na economia circular, a exemplo da Stellantis, com a Circular Autopeças. Podemos afirmar que outras montadoras seguirão este caminho?
GD – É possível afirmar que outras empresas já seguem esse caminho. Além da Stellantis, montadoras de origem sueca e alemã, que atuam no setor de veículos pesados, têm programas de peças remanufaturadas. Em outros países, montadoras de origem norte-americana e japonesa também possuem programas de peças remanufaturadas bem difundidos.
BA – O mesmo deverá acontecer, cada vez mais, com as indústrias de autopeças que têm investido em linhas de peças remanufaturadas?
GD – Sim, as fabricantes de autopeças também têm disponibilizado ao mercado peças remanufaturadas de componentes de alto valor agregado como alternadores, pinças de freio, turbocompressores, entre outros. Há no Brasil grandes produtoras de autopeças que disponibilizam ao mercado peças remanufaturadas há mais de uma década, onde sucatas automotivas são recolhidas e são reinseridas no mercado. Os componentes que podem ser restaurados e o descarte do que não pode ser restaurado é feito de forma ambientalmente correta.
BA – É cabível dizer que este mercado (volume) chegará ao patamar de peças originais?
GD – É uma conta complexa, mas acredito que não. Há espaço para o crescimento do mercado de autopeças remanufaturadas com mais montadoras e fabricantes de autopeças disponibilizando ao mercado essas peças e até informando a todo o perfil de consumidor sobre essa alternativa. Mas é complexo alcançar o mesmo patamar, pois nem todas as autopeças são recondicionadas, componentes mais trocados e de menor valor agregado como palhetas de para-brisa não são recondicionados.
Usualmente são remanufaturadas peças de alto valor como motores, caixas de câmbio ou de direção, turbocompressores, pinças de freio, são componentes que são trocados após muito uso ou que podem apresentar problemas por falta de manutenção preventiva ao longo de anos de uso ou em veículos mais novos, mas com uso muito intenso.
O mercado global de peças remanufaturadas é de cerca de US$ 70 bilhões e o de autopeças é de cerca de US$ 2,3 trilhões, ou seja, o mercado de peças remanufaturadas global é de cerca de 3% do mercado de autopeças e existem mercados como Europa e Estados Unidos, onde a cultura de uso de peças remanufaturadas é mais antiga e, portanto, maior do que no Brasil.
BA – Além da economia para o consumidor, o quanto a remanufaturadas de peças é benéfica ao meio ambiente?
GD – Segundo o Sindipeças, a remanufatura reduz em até 95% o consumo de energia no processo fabril e o consumo de matéria-prima em comparação ao processo para fabricar uma peça nova. Os veículos possuem milhares de peças, incluindo, muitas que podem contaminar o meio ambiente. Estatísticas apontam que entre 1,5% e 2% dos veículos sejam reciclados, o processo de remanufatura também reduz a quantidade de peças que se degradam no meio ambiente.
BA – Podemos afirmar que a tecnologia tem revolucionado a produção de peças remanufaturadas?
GD – Sim, são tecnologias transversais na indústria automotiva e, também, usadas na remanufatura. A IA pode ser usada em processos como a inspeção de qualidade, auxiliando na avaliação das peças que podem ser remanufaturadas. E a impressão 3D pode ser usada na recuperação de componentes, fabricação de partes de peças.
BA – Finalizando, o consumidor final ainda tem preconceito com peças remanufaturadas? E qual é o papel do mercado de informar adequadamente o consumidor quanto à procedência, qualidade e durabilidade dessas peças?
GD – Acho que não é bem um preconceito, mas um desconhecimento da diferença entre uma peça recondicionada e de uma peça remanufaturada, que passa por um processo de reindustrialização feita pelo próprio fabricante ou por um estabelecimento autorizado e os componentes desgastados são substituídos por novos ou recuperados, processo este que que precisa ser feito em uma fábrica com a certificação IATF 16949.
Muitos consumidores desconhecem a própria certificação da International Automotive Task Force (Força Tarefa Automotiva Internacional, em português), que atesta a qualidade do processo produtivo das peças e serviços entregues às montadoras. Mas o consumidor brasileiro tem mais conhecimento hoje, até pelo trabalho de algumas montadoras que divulgam a alternativa das peças remanufaturadas. No mercado de veículos pesados essa alternativa já é mais difundida.
Fonte: Balcão Automotivo
























