“Qualquer associação de classe será tão forte quanto os seus membros queiram fazê-la.”

Automechanika 2024 retoma dias de glória, mas patina com novidades

11/09/2024

Messe Frankfurt abriu as portas na terça-feira, 10, para a Automechanika 2024 (Foto: Marcus Celestino/Automotive Business)

Maior feira de autopeças do mundo volta a ter número expressivo de expositores e bom público, mas, ao menos no primeiro dia, não empolga em tópicos inéditos

Por Marcus Celestino

Muita coisa pode mudar em dois anos. Não acredita? Pois bem. A Automechanika 2024, maior feira de autopeças do mundo, que começou na terça-feira, 10, e vai até o dia 14, na Messe Frankfurt, na Alemanha, pode te fazer mudar de ideia. Como?

A edição 2022 do evento, por exemplo, teve como objetivo aplacar as dores do aftermarket europeu com o rápido (e inevitável) processo de eletrificação da frota. Além disso, lidou com um cenário pós-pandêmico, vendo a China relegada a um posto de coadjuvante na seara de networking.

Em 2024, porém, os pavilhões da Messe Frankfurt estão com muito mais pratos sendo equilibrados. A Europa já apresenta sinais de que legislação de emissões e evolução tecnológica não estavam em sincronia. Assim, passa a apregoar um futuro de distintas soluções energéticas e faz com que o aftermarket, que se prepara para a eletrificação, tenha também de lidar com outros caminhos.

Temos ainda a relação diplomática com os chineses. Empresas do país asiático retornaram à Automechanika Frankfurt com força total, após as imposições sanitárias de 2022. São aproximadamente 900 companhias da terra de Xi Jinping presentes no evento. 

A “invasão” é notória. Tanto é que não temos apenas companhias chinesas do segmento de reposição na feira. Há também montadoras, gigantes do setor, como BYD, FAW Group (por meio da Hongqi), Geely e Avatr (tentáculo premium da Changan). Elas seguiram a cartilha na Alemanha: mostram que, além de produtos que batem de frente com os europeus, vêm dando importância considerável ao pós-venda.

Para completar o malabarismo, a Automechanika se vê meio a um outro tipo de transição, estimulado por meio do uso de Inteligência Artificial (IA) no segmento. Isso sem contar questões referentes aos tópicos sustentabilidade e economia circular, bem como e-commerce.

O evento também tem seus desafios no quesito geracional. Anseia por trazer para mais perto do segmento a geração Z, que, seja na Alemanha, na Austrália ou no Brasil, replica certo padrão de quase que indiferença em relação ao setor automotivo e da mobilidade.

Fachada que promove o espaço “Ambition”: Automechanika tenta fisgar gen Z

Automechanika 2024 tem mais acertos que erros

A Automechanika 2024, de fato, pode ser considerada um êxito. A feira voltou a ter o fulgor de outrora, com as principais marcas da indústria presentes e a avalanche de empresas da China ocupando todos os pavilhões da Messe Frankfurt. Na edição 2022, por exemplo, apenas oito dos 12 gigantescos espaços foram utilizados pela organização.

E isso se traduz, claro, em números expressivos, que ensaiam um retorno aos tempos de glória do período pré-pandêmico. Temos este ano 4,2 mil expositores de cerca de 80 países. Ante 2022, por exemplo, a evolução é clara: naquele ano, de recuperação, tivemos cerca de 2,8 mil companhias presentes na maior feira de autopeças do mundo.

Há também motivos para celebrar se fizermos um recorte de participação de empresas do nosso país. Cerca de 60 empresas do Brasil fazem networking e tentam garantir apertos de mão que se traduzem em fechamento de negócios na Automechanika 2024. Destas, 48 ocupam o estande comunitário da Brasil Auto Parts (BAP), iniciativa do Sindipeças, por meio de programa da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex).


LEIA MAIS:
– Estande brasileiro na Automechanika Frankfurt 2024 terá participação recorde


Mas nem tudo, evidentemente, são flores. A geração Z não “invadiu” o evento, como se esperava. Tivemos presença, sim, sólida do público jovem. Eles foram atraídos por meio da ação chamada de “Ambition”, que custou aos cofres da organização ao menos seis dígitos e abarcou simuladores, superesportivos em exposição, influenciadores, workshops e também por possíveis propostas de emprego. Por causa disso, o evento, ao menos na estreia, teve mais público que a edição 2022.

Todavia, a turma do Z ainda é minoria. Tanto é que boomers e millennials tomaram conta do happy hour carregado de cerveja ao fim do dia. A idade média dos ébrios, certamente, se aproxima dos 38 anos deste repórter. A banda que embalou a festa em seu debute também, vale dizer, abusou dos hits dos anos 2000. A playlist trouxe 50 Cent e Black Eyed Peas, por exemplo. Artistas, para os mais jovens, jurássicos.

Outro ponto que merece atenção dos organizadores foi a instalação das montadoras na feira. Se as empresas chinesas do segmento de aftermarket voltaram a ocupar os holofotes, as montadoras não tiveram vida tão fácil. As fabricantes de automóveis foram relegadas ao distante e tímido pavilhão 12, dificultando a vida de quem pretende conhecer um pouco mais sobre os produtos e propostas de pós-venda dessas empresas.

Automechanika 2024 atenta às mudanças no mercado de reposição

Mas voltemos aos mais “velhinhos”. Eles não se divertiram apenas no happy hour. Também curtiram, e absorveram, insights valiosos na Automechanika 2024. Os principais advêm de estudo conduzido por Berylls, Associação Europeia de Fornecedores Automotivos (CLEPA) e Figiefa, que representa os distribuidores independentes.

A pesquisa analisou os fatores de influência que têm o potencial de mudar o cenário do mercado de reposição e, possivelmente, causar uma mudança no equilíbrio existente entre os canais do mercado de reposição independente (IAM) e os serviços de equipamento original (OES). O estudo foi realizado nos sete países mais relevantes para o segmento no continente europeu.

Os pesquisadores conduziram entrevistas com especialistas de toda a cadeia de valor do mercado de reposição. O estudo resultou no desmembramento de dois cenários: um de céu nublado e outro apocalíptico para as independentes. 

No primeiro, levou em consideração a manutenção da estrutura regulatória. Isso levaria a um número maior de peças cativas (destinadas às montadoras para a produção de veículos novos) e muito mais software embarcado, o que geraria atualizações mais frequentes e uma exigência de informações técnicas mais detalhadas para reparo e manutenção.

Este cenário garante ainda controle no acesso de dados por parte de terceiros, com informações pertecendo exclusivamente às OEMs e suas redes. Desse modo, os custos do consumidor seriam maiores, eles teriam menos escolhas e, por conseguinte, mobilidade menos acessível.

No segundo cenário pressupõe-se que o mercado passará por mudanças regulatórias significativas a fim de garantir competição mais justa para as independentes. Além disso, os consumidores teriam maior liberdade.

Estudo sobre competitividade do aftermarket foi divulgado no palco Innovation4Mobility

O estudo ainda traz três previsões de crescimento do aftermarket. A primeira serve como base, e vai de € 150 bilhões em 2024 a € 161,9 bi até 2035. Vale frisar ainda que, conforme o levantamento, a frota envelhecerá: passará de 12,2 a 14,6 anos. 

Já a segunda previsão do estudo, com base no primeiro cenário, traz evolução que culmina em € 197,9 bilhões até 2035. A terceira, com base no cenário 2, mira em € 159,8 bi para o mesmo período.

A pesquisa salienta, no entanto, que as montadoras sairão ganhando no primeiro cenário. E no segundo também. De acordo com a pesquisa, fração significativa das receitas das independentes irá diretamente para as fabricantes de veículos ou para outras empresas da cadeia de valor. Isso porque haveria maior dependência de peças cativas, bem como de medidas de segurança cibernética adequadas.

Para se proteger dos dois cenários, o mercado de reposição independente tem de melhorar a disponibilidade e eficiência do serviço, investir em ferramentas de diagnóstico avançadas e treinamento e adaptar-se às medidas de proteção de segurança cibernética. Desafios estes que já vêm sendo encarados no continente.


– Quer saber tudo sobre o ecossistema? Inscreva-se no #ABX24


“Os reguladores precisam garantir um equilíbrio de poder no aftermarket a fim de manter a mobilidade acessível. É permitir a inovação e fomentar a competitividade com isonomia”, disse Frank Schlehuber, consultor sênior de aftermarket da CLEPA.

Este é um posicionamento claro do segmento, que pretende dar uma freada no processo de eletrificação no continente. Posicionamento, aliás, que vai de encontro ao que a União Europeia vem ensaiando há alguns meses.

Se antes o futuro era “elétrico e nada mais”, agora são consideradas soluções energéticas distintas. Algumas, como os motores de combustão interna, consideradas antiquadas por determinados grupos.

Mas é aquela história. Muita coisa pode mudar em dois anos.

Fonte: Automotive Business

Informes