Capacitação profissional é o principal desafio da eletromobilidade

Na análise de Flavio Portela, os híbridos flex terão espaço no Brasil por mais quatro anos e a eletrificação ganhará espaço exponencialmente. Na reposição, as empresas que prepararem melhor seus clientes e parceiros irão fazer a diferença nos próximos cinco anos nas vendas de novos produtos e serviços
Capacitação profissional é o principal desafio da eletromobilidade

Por Karin Fuchs

Em entrevista ao Balcão Automotivo, Flavio Portela, diretor Comercial e Marketing da Mooven Mobilidade e Tecnologia, analisa as tendências para os veículos eletrificados e de que forma eles impactarão o mercado de reposição automotiva, após saírem do período de garantia. “O mundo está mudando rápido e o Brasil não poderá ficar fora das transformações do mercado. Mas o processo por aqui será mais lento”, afirmou.

Flavio Portela, diretor Comercial e Marketing da Mooven Mobilidade e Tecnologia

Mais lento, segundo ele, “pois, as montadoras possuem um grande passivo para resolver com seus fornecedores e estruturas que já estão fora do novo momento mundial, como já acontece nos Estados Unidos e China, onde os EV’s são liderados por gigantes como Tesla e BYD”.

Híbridos impulsionam o mercado

Para os próximos dois anos, Portela estima que os veículos híbridos serão o grande mercado em expansão no Brasil. “Os veículos híbridos estão ganhando mercados rapidamente aqui no Brasil, com autonomia de até 1.200km e pela segurança da disponibilidade dos combustíveis fósseis e etanol. Este será o grande mercado em expansão no Brasil nos próximos dois anos. Serão veículos importantes para a transição para os elétricos que precisam ganhar a confiança do consumidor e melhores estruturas de carregamento. Os postos para os eletrificados estão sendo estruturados progressivamente, porém, ainda estamos muito lentos em comparação aos países de ponta. Hoje são 1,4 milhão de eletropostos e este número cresce rapidamente em todo o mundo”.

Híbridos flex

Na avaliação de Portela, os híbridos flex terão espaço no Brasil por mais quatro anos, porém, a eletrificação ganhará espaço exponencialmente por ser uma tendência mundial. “A diferença na tecnologia e lançamentos está muito avançada nos veículos elétricos, em breve receberemos tantos novos modelos que a mudança será inevitável”, comentou.

Potencial e resposta do mercado  

Questionado se há um potencial de consumo para os veículos eletrificados no País, Portela respondeu que sim e que as montadoras estão atrasadas. “No Brasil, temos consumidores que buscam a economia de combustível dentro da razoabilidade de investimento e um público ávido por inovações e novas tecnologias embarcadas. Nosso mercado é uma grande força mundial.

Este investimento por parte das montadoras está atrasado e será inevitável”.

Ele acrescentou que hoje, para se criar uma fábrica de veículos elétricos, o valor de investimento é 1/5 de uma fábrica tradicional. “Na China novas marcas nascem a cada dia. A atual estrutura das montadoras terá que ser repensada. Os valores de indenização para sistemistas e reduções de funcionários para adaptação às novas linhas, também irão impactar nos valores anunciados como “investimentos” pelas grandes marcas mundiais. Hoje este é o maior desafio das montadoras. Como equilibrar as multas rescisórias com fabricantes de peças sistemistas e funcionários, sem deixar de fazer o investimento devido para não perder espaço para os asiáticos”.

Sobre o programa Mover, Portela disse que ele tende a promover novos investimentos em eficiência energética, mas com ressalvas. “Estamos “substituindo” o Rota 2030, que também privilegiava a inovação e descarbonização. Vamos esperar para ver se o Governo terá como bancar os valores anunciados. Acredito que este é um discurso focado para “acalmar” mercados do que necessariamente para desenvolver inovação. Este ponto será promovido pelas grandes montadoras, como sempre foi feito no País”.

Mercado de usados

Em alguns países há um desinteresse por veículos elétricos usados. Portela atribui à reposição de algumas peças. “Isto ainda é um problema, o que torna os veículos usados ainda um ponto de interrogação para novos compradores, mesmo com garantias muito extensas e credibilidade dos fabricantes. Grandes lojas de peças na China, Europa e Estados Unidos têm se especializado neste nicho de mercado e, em breve, os mercados irão se adaptar a todas estas transformações”.

Queda de preço

No ponto mais sensível para investidores mundiais, disse o executivo, a queda de preços é um fator de risco. “Principalmente, para grandes empresas que em muitos casos são os primeiros compradores e não estão ganhando o que desejam quando os carros começam a sair de seus guarda-chuvas para chegar nas mãos dos consumidores. Tesla e BYD duelam pela liderança mundial, e isso vem forçando uma transformação nos preços em todas as montadoras que estão atrasadas em seus projetos. Quem ganha com isso é o consumidor”.

Em breve, afirmou ele, “o mercado estará ajustado e as empresas que desenvolverem as melhores tecnologias para EV’s serão detentoras de lideranças nas vendas em suas respectivas regiões. Já podemos ver isso no Brasil pela redução de preços da BYD e forte resposta da Renault”.

Ainda no mercado brasileiro, Portela comentou que o risco é muito menor dos EV’s acabarem sucateados. “Pois, a venda de leasing não é significativa em nosso mercado, porém, os grandes atacadistas, principalmente locadoras, irão direcionar seus investimentos de maneira ainda tímida para EV’s, pois a grande fonte de receita ainda está na venda dos seminovos a combustão”.

Mercado de reposição

Sobre o potencial esperado para o mercado de reposição automotiva com os veículos eletrificados (híbridos e elétricos), Portela comentou que ainda estamos engatinhando nesse sentido, mas que o segmento de reposição do Brasil é muito rápido em sua adequação. “Isso sem falar no aumento significativo das peças importadas de qualidade que chegam a todo momento no mercado nacional, que irá promover uma nova transformação, principalmente, na adequação de preços para o consumidor. Este mercado ainda ficará pelo menos dois anos nas mãos das concessionárias, mas vamos entender nos “próximos capítulos” qual o melhor caminho a seguir”.

Para finalizar, Portela enfatizou que o principal desafio para o mercado de reposição automotiva com a eletromobilidade está na capacitação de profissionais de toda a cadeia de reposição. “As empresas que prepararem melhor seus clientes e parceiros irão fazer a diferença nos próximos cinco anos nas vendas de novos produtos e serviços. Estamos vivendo o momento mais importante de transformação do mercado. Agora é hora de olhar para o futuro e rever projetos. A eletromobilidade é um caminho sem volta e com muitas alternativas que levarão à evolução do nosso segmento”.

Fonte: Balcão Automotivo

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