Varejo pode ajudar o Cadastro Positivo a evoluir ainda mais


Sistema de inclusão financeira completa três anos com bons resultados quanto à redução de spread e taxa de juros do crédito. Mas a contribuição maior de micro, pequenos e médios lojistas pode dar um empurrão extra (Por Karina Lignelli)
Varejo pode ajudar o Cadastro Positivo a evoluir ainda mais

Em 2020, em meio à pandemia e ao crescimento das compras à distância, a Midway, braço financeiro do Grupo Guararapes, dono da Riachuelo, conseguiu ampliar em 10% a concessão de crédito, oferecendo 120 mil novos cartões de marca própria sem aumentar o risco da operação. 

Esse é um dos efeitos do Cadastro Positivo, que acaba de completar três anos de vigência no modelo adesão automática, e hoje contabiliza mais de 140 milhões de pessoas físicas e jurídicas. Desde que o Cadastro foi criado, ele permitiu o aumento ou manutenção da nota de crédito de 74% das pessoas físicas cadastradas e de 80% das pessoas jurídicas. 

O Cadastro Positivo permitiu também que a taxa média de juros no crédito pessoal (exceto para o consignado) reduzisse em 10,4% para novos tomadores ao longo desses três anos, e 15,9% para os que melhoraram o score após a inclusão, totalizando 31% e 40% de queda média na taxa anual, respectivamente.

Esses são alguns dos reflexos do potencial de inclusão financeira e dos benefícios dessa ferramenta, diz a Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC), que reúne dados dos bureaus de crédito que atuam como gestores do Cadastro Positivo (Boa Vista, Serasa, Quod, SPC e TransUnion). A associação realizou nesta quarta-feira (03/08) um evento em comemoração aos três anos do Cadastro. 

Espécie de “ranking de bons pagadores”, o Cadastro Positivo reúne informações financeiras usadas como referência (score) para liberação de empréstimos ou outros tipos de financiamento. Para torná-lo ainda mais poderoso, reduzindo os riscos da oferta de crédito e, consequentemente, diminuindo os juros, é preciso maior envolvimento dos micro, pequenos e médios negócios, em especial os do varejo, que podem se tornar fontes do Cadastro. 

Hoje, a distribuição das empresas-fonte é desigual: 94% das 10 milhões de contribuintes são de grande porte, com instituições financeiras no topo do ranking, seguidas pelas empresas de telecomunicações e algumas grandes varejistas, como a já citada Riachuelo, segundo a ANBC. 

Desde 2011, quando a implantação Cadastro Positivo começou a ganhar corpo, as principais fontes têm sido as instituições financeiras. Mais recentemente, operadoras de telecomunicação levaram ao cadastro mais 12,6 milhões de pessoas físicas e jurídicas “invisíveis” ao sistema de crédito, ou desbancarizadas, que passaram a ser incluídas financeiramente.  

Se no geral as empresas não-financeiras respondem por menos de 15% do fornecimento de dados de pagamento, segundo a Boa Vista, 60% das consultas ao sistema são realizadas por elas, disse João André, coordenador do departamento de regulação do Banco Central.

“O impacto pode ser ainda maior se pensarmos que essas fontes são a ‘cereja do bolo’ para reduzir a assimetria de informações, e dar acesso a melhores condições de crédito.”   

Daí a importância da participação do varejo, em especial o de menor porte, reforça Ronaldo Sachetto, diretor de dados da Boa Vista, pois essas contribuições fazem a inteligência analítica melhorar, o varejo se tornar cada vez mais competitivo e ainda amplia a inclusão financeira. 

Às vezes, o consumidor não tem conta em banco, só um celular pré-pago, mas paga seus carnês em dia, explica. “Por isso é importante conhecer esse comportamento de compra, para dar mais espaço para os pouco ou não-bancarizados fazerem parte do sistema.”  

Esse “empoderamento” do tomador de crédito, que diante de condições mais justas pode obter recursos financeiros dentro da sua capacidade de pagamento, impacta positivamente na economia como um todo, com a queda da inadimplência, por exemplo, avalia o presidente da ANBC, Elias Sfeir. 

“Além disso, ao estimular a expansão do crédito, o Cadastro Positivo aumenta a competição no mercado e pode reduzir ainda mais a taxa de juros praticada nessas operações.”   

Para Alfredo Cotait Neto, presidente da Associação Comerciação de São Paulo (ACSP), reativar consumo é o caminho mais rápido e eficiente para alavancar o crescimento da economia, e o Cadastro Positivo dá uma grande contribuição aos bancos de dados, que vêm cumprindo sua parte e aprimorando cada vez mais a análise de crédito. 

“Tudo isso assegura maior segurança para quem concede, e não permite que o consumidor se endivide acima de sua capacidade de pagamento”, destaca Cotait, que também comanda a Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e a Confederação das Associações Comerciais do Brasil (CACB).   

Realizada em etapas, a implantação do Cadastro já foi concluída nas instituições financeiras, seguidas pelas empresas de telecomunicações. A atual etapa, em andamento, inclui as concessionárias de energia elétrica, que já trouxeram 85 milhões de registros, sendo 23% não bancarizados, informou a ANBC. As próximas, já iniciadas, incluem empresas de saneamento básico (água e esgoto) e gás encanado, e devem ser concluídas ao longo do 2º semestre.  

A IMPORTÂNCIA DAS EMPRESAS-FONTE

No caso específico do varejo, outra grande contribuição da inclusão de dados no Cadastro
Positivo é ajudar empresas a avaliarem também o comportamento de compra do consumidor, segundo Ronaldo Sachetto, diretor de dados da Boa Vista. 

Desde a sua criação, explica, o bureau trabalha para compartilhar informações dos seus clientes relativas ao sistema financeiro, conforme previsto em lei.

Apesar de empresas de outros segmentos compartilharem dados de pagamento para geração de score (mas nunca relativos a dados pessoais ou de movimentação bancária), sempre de acordo com a LGPD, ainda continuam concentrados em financeiras e telecomunicações, diz.  

“Qualquer dado é fundamental, inclusive do pequeno, das cidades menores, pois pode melhorar ainda mais a nota de crédito daquele consumidor específico.”

A pergunta que fica, principalmente no caso dos pequenos negócios, é: o que eu ganho com isso? De acordo com Sachetto, além de ajudar a melhorar o score do consumidor, o Cadastro reflete melhor a realidade da empresa, que consegue conceder crédito em melhores condições. 

A ideia é “não trabalhar com o negativo”, afirma. “Qualquer relacionamento de crédito é fonte para a Boa Vista: apesar de ter um registro de débito, se eu souber que esse consumidor sempre paga as contas, trabalha etc, isso vai ajudar a melhorar seu score.”

Para facilitar o envio dessas informações, a Boa Vista tem um site para empresas-fonte, para que negócios de qualquer porte se cadastrem e contribuam com envio de dados de pagamento dos clientes. O serviço é gratuito, e o site explica o passo a passo: basta se cadastrar aqui.  

“Quanto mais dados, melhor consigo analisar, aumentar o score, facilitar a obtenção de crédito no mercado e reduzir mais os índices de inadimplência”, afirma o diretor da Boa Vista, para quem a contribuição ao Cadastro Positivo faz com que ele tenha uma “função social.”

O BOM FILHO À CASA TORNA

Envolvida nas discussões sobre o Cadastro Positivo desde 2011, a Boa Vista, dona do pioneiro Sistema Central de Proteção ao Crédito (SCPC), criado pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) em 1955, é uma das principais colaboradoras técnicas do BC e do Banco Mundial para sua evolução, segundo o CEO Dirceu Jodas Gardel Filho, também conselheiro da ANBC.

Além de contribuir para desenvolver cada vez mais o sistema de avaliação de score, o Cadastro tem levado crédito a pessoas com menor renda, afirmou Gardel durante o evento da ANBC. “São mais de 10 milhões de empresas que ajudaram a compor o avanço nessa base de dados, mas também a utilizar melhor essas informações em benefício da sociedade.” 

De 2011 até julho de 2019, o Cadastro Positivo não era obrigatório. O consumidor precisava pedir para ser incluído, o que, na prática, fez com que não tivesse resultado efetivo, já que só 6 milhões o fizeram espontaneamente, destacaram especialistas no evento da ANBC. 

Com a inclusão compulsória, esse número de beneficiados subiu para 140 milhões, ou 23 vezes, sendo que o consumidor pode pedir para ser excluído do Cadastro a qualquer momento.

Porém, no evento, a ANBC mostrou um indicador relevante, destacou o presidente Elias Sfeir, já que 45% dos consumidores que tinham saído do Cadastro Positivo já retornaram. Isso, afirmou, se deu porque o consumidor entendeu os benefícios trazidos pelo cadastro do bom pagador. 

Fonte: Diário do Comércio – Imagem: Freepik

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