Siga-nos:

As armadilhas no e-commerce de autopeças

Compartilhar:

Vender peças técnicas não é como vender itens da linha branca (Por Luiz Sergio Alvarenga)

O e-commerce, comércio eletrônico, nasceu com o objetivo de facilitar todo o processo de compra e venda, cujo modelo utiliza plataformas eletrônicas como computadores, smartphones, tablets, todo tipo de dispositivo eletrônico para venda de bens.
Como consequência, o aftermarket automotivo viu a possibilidade de se valer desta importante ferramenta. Observei, porém, que assim como as plataformas estavam enxergando a autopeça técnica (itens para motor, suspensão, direção, freio etc.) como um bem de consumo como qualquer outro (geladeira ou máquina de lavar), as indústrias de autopeças e montadoras viram como uma solução para destravar as dificuldades encontradas na distribuição tradicional. A meu ver, foram as falhas iniciais nos primeiros movimentos nesta direção.
O que as plataformas de e-commerce não perceberam é que essa cadeia de valor é muito diferente daquela da linha branca porque tem muitas variações de componentes em um mesmo modelo de veículo; que o brasileiro jamais viveu o universo do “faça você mesmo” a exemplo dos norte-americanos; que a compra desse tipo de componente tem sua maior concentração nas mãos de oficinas independentes. Além disso, um cipoal de legislações ambientais, de segurança e normativas praticamente inviabiliza que os consumidores executem tais serviços em seus veículos.
Já pelo ângulo das indústrias de autopeças e montadoras, a armadilha foi imaginar que uma ferramenta eletrônica como as plataformas de e-commerce fosse simplesmente empurrar para baixo do tapete a complexidade logística.
Outro ponto a ser considerado é que a autopeça é insumo crítico em uma oficina e impacta diretamente a produtividade e o resultado do negócio, muito mais complexo que a compra de um livro ou um vinho. E também, sem entrar nos aspectos de análise de crédito e relacionamento, lembrando que a receita federal controla muito bem as compras em cartão de crédito por pessoa física, modalidade muito usada no País e no e-commerce, mas que no caso desse tipo de negócio (entre pessoas jurídicas), a situação é bem diferente.
Vale destacar que o e-commerce de autopeças técnicas no Brasil representa menos que 4% de um mercado de R$ 44 bilhões. Muitas questões estruturais precisam ser resolvidas para que possam atingir os orgulhosos indicadores no comércio analógico, ou seja, os pedidos solicitados no início do dia podem demorar algumas poucas horas para chegar em localidades próximas. E pensando em todo o território brasileiro essa espera não passa de 48 horas.
A reflexão que deixo aos leitores é que o modelo comercial adotado no aftermarket brasileiro ainda tem um grande caminho a ser trilhado, seja no campo das ligações eletrônicas, por EDI (Electronic Data Interchange), por fornecedores, seja por catálogo eletrônico padrão de autopeças e não por marcas. Enfim, é necessário otimizar a inteligência dos elos dos canais antes de apenas apertar um “enter” e achar que tudo estará resolvido.


Luiz Sergio Alvarenga é diretor da Alvarenga Projetos Automotivos e conselheiro do Instituto da Qualidade Automotiva (IQA)

Nenhum comentário

Deixe um comentário